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A Fronteira da Alvorada


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Publicado em 29 de Setembro de 2008

A Fronteira da Alvorada (La frontière de L’aube), de Philippe Garrel, 105min, 2008

Durante cada minuto da projeção de A Fronteira da Alvorada era notável como cada tipo de representação artística traz com ela uma época, uma data específica, uma maneira formal de expressão. Dentro da perspectiva do cinema contemporâneo e todo a sua busca pela ultra-realismo, inclusive em filmes fantásticos (exemplo claro é o mais recente Batman, O Cavaleiro das Trevas), o simbolismo romântico de Philippe Garrel parece deslocado. Mas é uma aparência que se desfaz, mesmo entre os risos escrachados da platéia menos atenta ao momento histórico do filme.

O filme de Philippe Garrel é romântico no sentido literário da palavra (não literal, literário mesmo). Nos seus primeiros minutos Garrel nos dá o que seria o “clássico-narrativo” do cinema de relacionamento contemporâneo: um casal descolado cheio de momentos espessos de DR (sim, a boa e velha discussão de relacionamento). François (Louis Garrel) e Carole (Laura Smet) têm a típica relação moderninha-com-problemas. Quando François larga Carole, ela, já propensa ao alcoolismo e à loucura, vai parar numa instituição e acaba, depois de sair, por morrer/suicidar-se.

No que seria a segunda parte do filme, e o segundo relacionamento amoroso de François, ele e Eve (Clémentine Poidatz), muito mais civilizadamente que antes, se propoem um relacionamento maduro e sincero (e moderninho também). Garrel (o Philippe) introduz então a questão narrativa do filme: o fantasma de Carole volta para atordoar François, convidando-o a juntar-se a ela no além-vida. 

Dentro dessa estrutura clássica do romance romântico (o amor para além da vida, a morte como caminho único à felicidade) é que A Fronteira da Alvorada trabalha com esse estranhamento da platéia contemporânea em cima de uma história tão aparentemente datada. Garrel não trabalha uma revisão adaptada aos novos tempos, como faz Baz Luhrmann em seu Romeu e Julieta, mas filma uma história contemporânea num espaço quase fora do tempo, dado que as personagens são nitidamente pertencentes ao século XXI, mas a forma do filme é claramente calcada na linguagem dos filmes de relacionamento da Nouvelle Vague dos anos 60.

Sabendo então que é impossível fazer um filme de relacionamento, dessa maneira, depois de Godard, Garrel aponta para outro caminho, mais aberto a experiências anteriores e menos necessitado de criar novos meios de se narrar a mesma história. O resultado é um filme híbrido, oscilante, mas ao mesmo tempo extremamente fantástico (de fantasioso).

O clamor de Carole pelo amor imortal de François é o grito por um amor mais puro, mais casto, mais mortal, como os de outrora. Ela chama François como um fantasma de filmes de terror que perdeu seu tempo e não assusta mais. O medo de Carole está apenas em François e não precisa ir além dele e atingir o público (está apenas nele, fotógrafo, que se relaciona com o mundo através da imagem, do registro da imagem e que, subitamente, se vê, no espelho, refletido em Carole).

Esse distanciamento do público é importante para o dispositivo que o filme cria, para essa revisão histórica e atual do romantismo. François se vê num absoluto dilema entre o “romântico-suicida” e o “pai-de-família-moderno(inho)”. Por fim, escolhe o caminho mais heróico, à moda antiga. A risada alvoroçada da platéia frente ao plano final do filme, com François estirado ao chão com uma falsa mancha de sangue em sua cabeça atesta: não se fazem mais românticos como antigamente.

ps: Durante a projeção de A Fronteira da Alvorada eu me lembrei de Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Não pela semelhança da história, que de certo não há, mas pela maneira como se encadeiam os fatos, da maneia como agem as personagens, de como se rege seu universo.  Talvez tenha me lembrado pelo final, onde Mariana joga-se ao mar, na alvorada:

“E que farias tu da vida, sem a tua companheira de martírio?… Onde irás tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou?!… Rompe a manhã… Vou ver a minha última aurora… a última dos meus dezoito anos. Oferece a Deus os teus padecimentos, para que eu seja perdoado… Mariana…”

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008

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