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Filthy


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Publicado em 26 de Setembro de 2008

Filthy, do coletivo Queer Fiction, 17 min, 2007

Dentro de um festival cuja temática é a sexualidade seria incomum pensar que a pornografia fosse tema tão intocado. Dentre os mais de 20 filmes selecionados para o For Rainbow, apenas este, Filthy, explora o corpo de maneira mais aberta.

Talvez venha daí a enorme polêmica que o curta levantou durante o festival. Enquanto alguns simplesmente saíram da sala, enojados, outros ficaram com os olhos grudados na tela durante os quase 20 minutos de projeção, provavelmente fascinados com (finalmente!) algo que tocasse a questão do sexo explícito. É difícil saber se o curta, dentro de um festival não-temático, teria provocado uma impressão tão forte.

FIlthy trava um processo criativo muito semelhante ao que costumamos chamar de vídeo-arte: é extremamente conceitual e afirma o seu conceito inicial de diversas maneiras diferentes ao longo de uma longa duração. Ou seja, é um filme-conceito, que se re-afirma de maneira cíclica, mas crescente.

Seguindo essa já tradicional lógica em espiral (repetindo, circular e crescente), Filthy apresenta logo de cara um estrutura sólida de reconstrução simbólica. São duas meninas nuas que brincam com um ursinho de pelúcia, signo claro (e até óbvio) da ingenuidade feminina. Uma delas então saca uma faca de cozinha e esfaqueia o urso, que sangra. Começa então um lento processo de estripamento do urso e de consecutiva erotização das suas entranhas. As duas, literalmente, copulam com a carne retirada do urso.

O filme entra então numa linguagem altamente referenciada na pornografia comercial, seguindo inclusive o “roteiro clássico-narrativo” do pornô americano (ele chupa ela, ela chupa ele, “aquilo” na frente, “aquilo” atrás, gozada na cara, fim). Se esse processo começa com o sexo oral, seja uma com a outra, seja com a carne entre elas e, assim, coloque de cara um certo nojo em relação à carne crua e à relação natural das meninas com ela, ele vai mudando lentamente, naturalizando esse “objeto estrangeiro” e tornando-o cada vez mais aceitável, coerente. O longo tempo do curta indica essa preocupação (e torna, ainda, Filthy um dos poucos filmes de todo o festival que é longo por necessidade). A carne passa a fazer parte da erotização das meninas e parte do corpo delas, passa a ser algo que se faz normal.

Quando esse processo de destruição total do erotismo da cena – parece impossível, exceto para os amantes da boa carne, conseguir se excitar com a visão dessa cena de sexo – chega ao fim, há ainda o último lance do jogo, exatamente como no tradicional pornô (que, aliás, tem sempre uma forte conotação machista-dominadora, outro conceito amplamente atacado em Filthy), as meninas dão uma atenção final ao bichinho querido. A “gozada na cara” (que no jargão do pornô é chamada de “facial humiliation” quando em grandes quantidades) é feita com urina, deixando o ursinho estirado ao chão, certamente humilhado.

ps: Esse longa caminhada a um cinema pornográfico não-machista é histórica. Talvez representada hoje, com maior sucesso, pela cineasta Catherine Breillat, ao menos em 3 de seus filmes: Romance, Anatomia do Inferno (estrelando o astrô pornô Rocco Siffredi) e A Última Amante.

Veja a cobertura do II For Rainbow



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