
Uma câmera nas mãos de uma moradora de um dos subúrbios de Nova Orleans, Kimberly Rivers. A personagem registra as ruas do seu bairro horas antes da chegada do furação Katrina. É a primeira vez que Kim usa sua câmera. Ela se apresenta, conversa com os vizinhos, que, como Kim, não tinham dinheiro para deixar a cidade. Restou apenas enfrentar o terrível olho do furacão. O filme não é dela, nem o seu ponto de vista é preservado, o seu registro é editado. Quem assina a direção desse documentário são os cineastas Tia Lessin e Carl Deal, ambos trabalharam com Michael Moore em Tiros em Columbine e Fahrenheit 11/9.
Tia e Carl conheceram Kim, Scott Roberts – marido de Kim – e seus familiares em um abrigo. Após a passagem do Katrina, as imagens de Kim, de sua família e de seus amigos são realizadas pelos dois cineastas. O manuseio da câmera se alterna entre a personagem e os cineastas. A riqueza do documentário está no seu conteúdo, não há preocupações estéticas. A câmera treme muito quando está com Kim, o que incomoda nas tomadas longas.
O cotidiano das pessoas apresentadas em As águas de Katrina não é muito diferente do dos moradores das favelas do Brasil. Os pobres americanos e os daqui têm muita coisa em comum: vivem sem acesso, nas margens dos rios, das represas, do mar. Kim diz que o governo não está preocupado com o povo de Nova Orleans, a prioridade é enviar os soldados para o Iraque, não é salvar as vítimas do furacão. Scott conversa com os soldados de uma base militar que negou abrigo às pessoas que não tinham para onde ir. Uma semana após o desastre ainda não havia equipes militares suficientes para resgatar os corpos nas casas.
Nas seqüências finais, acompanhamos a busca da personagem e de sua família por uma nova cidade e um futuro limpo. Scott confessa para a câmera que era traficante de drogas, que até então não conhecia nada além do Estado de Louisiana. Em um novo lugar, ele pretende começar tudo do zero e fazer as coisas de forma correta. Kim consegue trabalho, pretende se lançar como cantora e investir na carreira de rapper. Ela também confessa seu envolvimento com o tráfico de drogas. Acredita que sua redenção está na música. Ela canta, e muito bem, nos últimos minutos do filme.

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