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Velha Juventude


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 25 de Setembro de 2008

Youth Without Youth, de Francis Ford Coppola, 2007, Romênia / França / Itália.

Durante tempestade, raio atinge o professor universitário Dominic Matei, que rejuvenesce inexplicavelmente mais de trinta anos. Há uma década longe das telas, Francis Ford Coppola retorna com Velha Juventude – roteiro que o próprio diretor adaptou do romance de Mircea Eliade – que, da premissa fantástica, desenvolve-se em contraponto à verticalidade e ao naturalismo da linguagem cinematográfica.

Membro da geração easy rider / raging-bull (jovens cineastas autorais que, nos anos 70, salvaram a quase falida indústria de Hollywood), Francis Ford Coppola possui carreira das mais erráticas. Após o estrondoso sucesso de bilheteria e os nove Oscars de O Poderoso Chefão e O Poderoso Chefão – Parte 2 (que ressuscitaram o cinema de gênero), Coppola enfrentou a bancarrota de sua produtora, a Zoetrope, na década de 80, em virtude os altos custos e dos fracassos comerciais de Cotton Club, O Fundo do Coração, O Selvagem da Motocicleta. A partir dos anos 90, enquanto dirigia produções sob encomenda (Jack, O Homem que Fazia Chover) para financiar a própria vinícula na Califórnia, tentava atrair investidores ao longamente acaletado projeto Megalópolis – ao mesmo tempo em que seus filhos (em especial Sofia Coppola) surgiam atrás das câmeras. Do abandono de Megalópolis, nasceram Velha Juventude e Tetro – que o cineasta filma na Argentina -, co-produções internacionais que garantem independência artística a Coppola.

Velha Juventude se compõe de dois filmes. No primeiro, Francis Ford Coppola dialogo com o thriller de espionagem clássico dos anos 40 – sobretudo com Fritz Lang. Assim, na Segunda Guerra Mundial, Dominic Matei se torna alvo dos nazistas, que pretendem estudá-lo para descobrir as causas do estranho rejuvenescimento. A resolução da narrativa (com o assassinato do cientista que o perseguia), levam o herói para o exílio na Inglaterra, onde começa a segunda parte da obra, diversa da anterior: entra em cena Verônica, que não apenas relembra Laura – por quem Matei se apaixonou na juventude -, como também reencarna mulheres do passado longínqüo (Índia, Egito, Suméria), que regridem mais e mais no tempo em direção às origens da linguagem humana.

Coppola enlaça os personagens no amor impossível com que já trabalhara em O Fundo do Coração (entre Hank e Frannie), em O Poderoso Chefão – Parte 3 (os primos Vincent e Mary) e em Drácula de Bram Stoker (Drácula e Mina, a qual, como Laura / Verônica, remete à esposa morta do Conde, Elisabeta), uma vez que a proximidade de Dominic significa o envelhecimento e a morte de Verônica. Para Matei, que tem como projeto de vida catalogar todas as línguas faladas pelo homem desde os primódios da civilização, Verônica representa a chance de investigá-las diretamente (e a postura do herói não se diferencia da que os nazistas lhe dispensaram). Porém, de acordo com o Princípio da Incerteza de Heisenberg, a medição precisa do objeto está condenada ao fracasso, pois qualquer interferência sobre o mesmo altera os resultados do estudo.

A impossibilidade do amor em Velha Juventude precipita a tragédia e leva Coppola a enveredar definitivamente pela fábula e pela narrativa fantástica. Se o herói vasculha os fundamentos da linguagem humana, o cineasta se detém nos da gramática cinematográfica – mas, ao contrário da histórica bíblica da Torre de Babel, sua procura das origens não aponta para convenções unificadas, homogêneas e totalizantes, e sim para fraturas, ruídos, práticas múltiplas que resultam em estranhamento e quebra do código estabelecido. Francis Ford Coppola se alia aos excessos da imagem: em Velha Juventude, planos de cabeça para baixo, cenários fake, campo / contracampo com o mesmo personagem, quadros monocromáticos (que abusam do azul, do vermelho e do verde, sobretudo) trazem o cinema de volta à potência inicial dos anos de formação.

Com Velha Juventude, ao questionar a própria linguagem, Francis Ford Coppola arrisca. Que não se cobre correção e transparência do filme: ele é opaco, tortuoso, falho e oblíquo – mas igualmente rico, inspirado e transbordante enquanto cinema.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008

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