Delta, de Kornel Mundruczó, 2008, Hungria / Alemanha.

Mihali retorna para casa, em povoado húngaro no delta do rio Danúbio, após longa ausência. Mal visto pela comunidade local e pela família (sobretudo o padrasto), recebe ajuda da irmã Fauna – com quem desenvolve relação incestuosa – para reconstruir a cabana do pai. Inexplicável vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes, Delta não se furta a representar diretamente a violência da ordem social proibitiva sobre os irmãos, ao mesmo tempo em que olha com falsos pudores para as tensões sexuais que se estabelecem no ambiente.
O delta do Danúbio permanece distante do processo acelerado de modernização que varre o Leste Europeu. Como as águas plácidas do rio, os habitantes vivem em tempos imemoriais, quase mitológicos, rechaçando de imediato o estrangeiro que chega para romper o imobilismo do lugar. Apenas Fauna, que sonha com mudanças, acolhe Mihali, mas o relacionamento que trava com o irmão desafia a regra ancestral básica que fundamenta toda e qualquer comunidade: a interdição do incesto. Ao matar os infratores da Lei e eliminar a transgressão, o povoado assegura a própria sobrevivência e o correto funcionamento das engrenagens sociais.
Kornel Mundruczó explora em Delta o binômio sexualidade reprimida / violência repressiva. No entanto, se o diretor trata o sexo (como Kim Ki-Duk e o manual do pior “cinema de arte”) de forma oblíqua e repleta de cuidados – longos silêncios e tempos mortos, trocas intermináveis de olhares, metonímias visuais (parte pelo todo: o primeiro beijo dos irmãos, em que vemos apenas seus pés), elipses de tempo -, ele se vale de falso distanciamento narrativo (como Bruno Dumont) para, ao contrário, reforçar o choque que a franqueza da violência explícita provoca ao abandonar o estado de latência – o estupro de Fauna pelo padrasto, em que a câmera supostamente “respeita” quando não a invade. Através da estratégia retórica dúbia com que constrói o filme, entre a punição aos irmãos criminosos e a denúncia da sociedade arcaica e proibitiva, Mundruczó se coloca a favor da Lei, ainda que a enxergue como mal necessário.
Por mais óbvio que pareça (e é), a ponte que Mihali e Fauna edificam simboliza o desejo de serem aceitos pela comunidade, da mesma forma que a tartaruga que no rio turvo remete ao grupo social que, parado no tempo, esconde-se atrás da violência legalizada que lhe assegura a continuidade.

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