Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Delta

Delta


Por

Publicado em 25 de Setembro de 2008

Delta, de Kornel Mundruczó, 2008, Hungria / Alemanha.

Mihali retorna para casa, em povoado húngaro no delta do rio Danúbio, após longa ausência. Mal visto pela comunidade local e pela família (sobretudo o padrasto), recebe ajuda da irmã Fauna – com quem desenvolve relação incestuosa – para reconstruir a cabana do pai. Inexplicável vencedor do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes, Delta não se furta a representar diretamente a violência da ordem social proibitiva sobre os irmãos, ao mesmo tempo em que olha com falsos pudores para as tensões sexuais que se estabelecem no ambiente.

O delta do Danúbio permanece distante do processo acelerado de modernização que varre o Leste Europeu. Como as águas plácidas do rio, os habitantes vivem em tempos imemoriais, quase mitológicos, rechaçando de imediato o estrangeiro que chega para romper o imobilismo do lugar. Apenas Fauna, que sonha com mudanças, acolhe Mihali, mas o relacionamento que trava com o irmão desafia a regra ancestral básica que fundamenta toda e qualquer comunidade: a interdição do incesto. Ao matar os infratores da Lei e eliminar a transgressão, o povoado assegura a própria sobrevivência e o correto funcionamento das engrenagens sociais.

Kornel Mundruczó explora em Delta o binômio sexualidade reprimida / violência repressiva. No entanto, se o diretor trata o sexo (como Kim Ki-Duk e o manual do pior “cinema de arte”) de forma oblíqua e repleta de cuidados – longos silêncios e tempos mortos, trocas intermináveis de olhares, metonímias visuais (parte pelo todo: o primeiro beijo dos irmãos, em que vemos apenas seus pés), elipses de tempo -, ele se vale de falso distanciamento narrativo (como Bruno Dumont) para, ao contrário, reforçar o choque que a franqueza da violência explícita provoca ao abandonar o estado de latência – o estupro de Fauna pelo padrasto, em que a câmera supostamente “respeita” quando não a invade. Através da estratégia retórica dúbia com que constrói o filme, entre a punição aos irmãos criminosos e a denúncia da sociedade arcaica e proibitiva, Mundruczó se coloca a favor da Lei, ainda que a enxergue como mal necessário.

Por mais óbvio que pareça (e é), a ponte que Mihali e Fauna edificam simboliza o desejo de serem aceitos pela comunidade, da mesma forma que a tartaruga que no rio turvo remete ao grupo social que, parado no tempo, esconde-se atrás da violência legalizada que lhe assegura a continuidade.

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2008

: : Compartilhe

    

    Deixe um comentário

    (obrigatório)

    (obrigatório)


    Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



    RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

     

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    26 de Outubro de 2011

    Políssia, França, 2011, de Maïwenn Maïwenn acompanha o dia-a-dia da unidade policial que combate os crimes sexuais contra crianças. A câmera, sempre instável e contingente, flagra momentos breves, que revelam menos as investigações em si e mais as agruras psíquicas e emotivas que solapam as personagens em contato com a pedofilia. A narrativa de Políssia [...]

    Por Rodrigo Cazes

    20 de Outubro de 2011

    Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011 O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    19 de Outubro de 2011

    Drive, EUA, 2011, de Nicolas Winding Refn No clímax de Drive, Bernie e o herói se enfrentam na rua, à luz do dia, mas vemos apenas suas sombras. Para a Los Angeles “oficial”, de fato, eles não existem – são personagens marginais, que vivem nos subterrâneos da grande metrópole. O herói não tem nome. Quando [...]

    Por Luciane Quoos

    18 de Outubro de 2011

    Dublê do diabo, Bélgica/Holanda, 2011, Lee Tamahori Assistindo ao filme Dublê do diabo sem saber que era baseado no livro escrito por Latif Yahia, um oficial do exército iraquiano que foi obrigado a passar-se pelo inescrupuloso Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, concluímos que é um bom filme de ação, com cenas eletrizantes, uma câmera [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    18 de Outubro de 2011

    O Moinho e a Cruz, Suécia e Polônia, 2011, Lech Majewski   O Moinho e a Cruz desvela as forças econômicas, sociais, políticas e até ecológicas que se articularam para a confecção do quadro “O Caminho do Calvário”, de Pieter Bruegel: o relacionamento do pintor com o banqueiro e mecenas flamengo Nicolaes Jonghelinck, a presença [...]

    Anima Mundi Animação animações Brasil Cachaça Cinema Clube Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Curta Curta-metragem Curtas Debate Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 festrio França Gay Iraque Juventude Literatura Memória Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Rio de Janeiro Romênia Teatro Versos É Tudo Verdade

    WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.