14 Kilometros, de Gerardo Olivares, 2007, Espanha.

Catorze quilômetros separam a África da Europa, pelo Estreito de Gibraltar. Buba e Violeta emigram do Níger para a Espanha: ele sonha com a glória e a riqueza do jogador profissional de futebol, ela foge do casamento forçado com o homem que a estuprou na infância. No longo caminho (que o título do filme ironiza), os personagens se deparam com militares corruptos e com atravessadores inescrupulosos, Violeta se prostitui e o irmão de Buba morre na travessia do deserto.
A ideologia de 14 Quilômetros, contudo, expressa-se na fala do tuaregue, que salva Violeta e Buba da morte no deserto: se os emigrantes aplicassem a energia e o dinheiro que gastam pela busca da Europa na própria África, o continente estaria salvo. Gerardo Olivares esquece, dessa feita, séculos de exploração colonial, guerras étnicas, governos corruptos, ineficiência administrativa e divisão internacional do trabalho para responsabilizar os habitantes, de que vítimas se transformam em preguiçosos indolentes. A saída para os personagens, para o diretor, está na livre iniciativa, na premissa de que não devem procurar novas oportunidades na Europa, mas antes absorver o estilo de vida branco e europeu em casa – de modo que as humilhações, ofensas e injustiças que sofrem ao longo do percurso se revelam castigos mais do que merecidos pela ousadia de não reconhecerem o lugar que lhes cabe no mundo.
Embora soe como piada involuntária, a dublagem de 14 Quilômetros em castelhano se justifica, pois anula todas as diferenças lingüísticas e culturais entre os povos da África, ao mesmo tempo em que garante ao filme sua característica de “produto de exportação” – desfile da miséria alheia, em cenários paradisíacos, para alimentar a consciência humanitária européia. O agente da imigração espanhola que deixa Buba e Violeta seguirem livres é verdadeiro herói de 14 Quilômetros.

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