
Homens, de Lucia Caus e Bertrand Lira
Quando escrevi sobre Café com Leite aqui na Revista Moviola, minha abordagem principal foi tentar dizer como o cinema gay tenta se auto-afirmar de diversas maneiras, como ele tenta denunciar a homofobia, como busca a aceitação, a normalização da sua situação. O problema dessa abordagem é evidente: sendo assim panfletário, qualquer tipo de cinema tende a afastar o espectador comum da causa que se defende.
Explico. O papel da imagem no mundo contemporâneo é complicado de se analisar profundamente. É importante, porém, perceber algumas pequenas coisas. A primeira delas, e talvez mais importante no caso que trato aqui, é entender que existe uma saturação enorme de imagens e, ainda, existe uma saturação enorme de imagens chocantes. Fica, de certo modo, diminuída a força do filme-denúncia por si só, dada a simples reiteração de um tipo de imagem construída e que já é cotidiana.
A representante do curta Sexualidade e Crimes de Ódio, Etiene Petrauskas, disse antes da projeção que o filme era “uma denúncia chocante, porém necessária”. Mas não há nenhum choque no filme, não há nenhum questionamento mais profundo do que o de um jornal sensacionalista, daqueles que se vê literalmente todos os dias em bancas e TV. Não há, portanto, algo que fique, para além dos muros das pessoas diretamente envolvidas tanto no caso relatado, quanto no grupo em questão. Se é importante para a comunidade homo, fica longe de cumprir o papel que se propõe: o de conscientizar a população homofóbica em relação à seus atos e, claro, o de denunciar um crime e buscar seus culpados.
Na primeira noite de festival proliferaram documentários desse tipo. O problema geral deles perpassa a questão temática-panfletária, que abordei acima. Esta ainda tem lá sua legitimidade, sua necessidade numa mostra que se propõe a isso mesmo. A grande questão é sim cinematográfica, narrativa, estética.
Quase todos os filmes da sessão têm os mesmos problemas: muito mal fotografados, desde questões básicas de iluminação a operação de câmera (desde “zoom in” breguíssimos até enquadramentos desleixados); som direto pessimamente captado; montagens equivocadas, seja com efeitos de transição de DVD’s de casamento, seja com entrevistas sem cortes de 3 ou 4 minutos; sensacionalismos mil, etc. Aliás, diga-se de passagem, são esses problemas comuns no documentário de curta-metragem, seja ele LGBT ou não.
Então é difícil, de certo modo, analisar um festival como o For Rainbow apenas pela questão temática. Até o fim da sessão ficou essa preocupação enorme na cabeça de como avaliar filmes nos quais não há essa preocupação estética, nitidamente, num festival onde, a priori, a importância principal não é essa, de fato.
O último filme dessa sessão, porém, joga uma luz de esperança no festival. Homens é Eduardo Coutinho, na melhor interpretação possível que essa frase possa soar. Sutil, delicado, extremamente bem acabado, extremamente conciso apesar de seus 20 minutos, o filme supera o documentário comum e busca um olhar além.
Com uma fotografia belíssima, vemos pequenos trechos de histórias de diversos homens homossexuais de pequenas cidades. O relato de homens já mais velhos, embrutecidos pelo tempo mas amaciados pelo coração, toca pela simplicidade. Não há abuso de recursos “emocionadores” como música de fundo, pessoas chorando copiosamente em frente a câmera, etc. As pequenas e curtas histórias tocam exatamente pela sua simplicidade e além de tudo, pela alegria com que são contadas.
As personagens, todas com algum trauma em relação à escolha de sua homossexualidade, exalam ainda a felicidade de viver, apesar de. Existe nelas algo brilhante, vivo e necessário, esse sentimento (simples demais, complexo demais) de que viver é isso mesmo, um dia após o outro e, ainda, de que não é a apenas escolha sexual que define esse viver (as imagens de Lázaro Ramos/Madame Satã gritando “Eu sou bicha porque eu quero! E não deixo de ser homem por isso não!” ribombam durante a projeção de Homens).
Honesto com o espectador, Homens consegue captar a essência humana e melodramática da relação amorosa, das espectativas amorosas, das decepções amorosas, do amor em si. É um belíssimo filme que, depois de uma sessão tão depressiva e negativa nas suas denúncias, nos mostra um horizonte de um mundo mais esperançoso, de um homem mais esperançoso; e diz que sim, que talvez exista uma alegria e um tesouro logo ali, no fim do arco-íris.
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