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Homens


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Publicado em 7 de Setembro de 2008

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Homens, de Lucia Caus e Bertrand Lira

Quando escrevi sobre Café com Leite aqui na Revista Moviola, minha abordagem principal foi tentar dizer como o cinema gay tenta se auto-afirmar de diversas maneiras, como ele tenta denunciar a homofobia, como busca a aceitação, a normalização da sua situação. O problema dessa abordagem é evidente: sendo assim panfletário, qualquer tipo de cinema tende a afastar o espectador comum da causa que se defende.

Explico. O papel da imagem no mundo contemporâneo é complicado de se analisar profundamente. É importante, porém, perceber algumas pequenas coisas. A primeira delas, e talvez mais importante no caso que trato aqui, é entender que existe uma saturação enorme de imagens e, ainda, existe uma saturação enorme de imagens chocantes. Fica, de certo modo, diminuída a força do filme-denúncia por si só, dada a simples reiteração de um tipo de imagem construída e que já é cotidiana.

A representante do curta Sexualidade e Crimes de Ódio, Etiene Petrauskas, disse antes da projeção que o filme era “uma denúncia chocante, porém necessária”. Mas não há nenhum choque no filme, não há nenhum questionamento mais profundo do que o de um jornal sensacionalista, daqueles que se vê literalmente todos os dias em bancas e TV. Não há, portanto, algo que fique, para além dos muros das pessoas diretamente envolvidas tanto no caso relatado, quanto no grupo em questão. Se é importante para a comunidade homo, fica longe de cumprir o papel que se propõe: o de conscientizar a população homofóbica em relação à seus atos e, claro, o de denunciar um crime e buscar seus culpados.

Na primeira noite de festival proliferaram documentários desse tipo. O problema geral deles perpassa a questão temática-panfletária, que abordei acima. Esta ainda tem lá sua legitimidade, sua necessidade numa mostra que se propõe a isso mesmo. A grande questão é sim cinematográfica, narrativa, estética.

Quase todos os filmes da sessão têm os mesmos problemas: muito mal fotografados, desde questões básicas de iluminação a operação de câmera (desde “zoom in” breguíssimos até enquadramentos desleixados); som direto pessimamente captado; montagens equivocadas, seja com efeitos de transição de DVD’s de casamento, seja com entrevistas sem cortes de 3 ou 4 minutos; sensacionalismos mil, etc. Aliás, diga-se de passagem, são esses problemas comuns no documentário de curta-metragem, seja ele LGBT ou não.

Então é difícil, de certo modo, analisar um festival como o For Rainbow apenas pela questão temática. Até o fim da sessão ficou essa preocupação enorme na cabeça de como avaliar filmes nos quais não há essa preocupação estética, nitidamente, num festival onde, a priori, a importância principal não é essa, de fato.

O último filme dessa sessão, porém, joga uma luz de esperança no festival. Homens é Eduardo Coutinho, na melhor interpretação possível que essa frase possa soar. Sutil, delicado, extremamente bem acabado, extremamente conciso apesar de seus 20 minutos, o filme supera o documentário comum e busca um olhar além.

Com uma fotografia belíssima, vemos pequenos trechos de histórias de diversos homens homossexuais de pequenas cidades. O relato de homens já mais velhos, embrutecidos pelo tempo mas amaciados pelo coração, toca pela simplicidade. Não há abuso de recursos “emocionadores” como música de fundo, pessoas chorando copiosamente em frente a câmera, etc. As pequenas e curtas histórias tocam exatamente pela sua simplicidade e além de tudo, pela alegria com que são contadas.

As personagens, todas com algum trauma em relação à escolha de sua homossexualidade, exalam ainda a felicidade de viver, apesar de. Existe nelas algo brilhante, vivo e necessário, esse sentimento (simples demais, complexo demais) de que viver é isso mesmo, um dia após o outro e, ainda, de que não é a apenas escolha sexual que define esse viver (as imagens de Lázaro Ramos/Madame Satã gritando “Eu sou bicha porque eu quero! E não deixo de ser homem por isso não!” ribombam durante a projeção de Homens).

Honesto com o espectador, Homens consegue captar a essência humana e melodramática da relação amorosa, das espectativas amorosas, das decepções amorosas, do amor em si. É um belíssimo filme que, depois de uma sessão tão depressiva e negativa nas suas denúncias, nos mostra um horizonte de um mundo mais esperançoso, de um homem mais esperançoso; e diz que sim, que talvez exista uma alegria e um tesouro logo ali, no fim do arco-íris.

Veja a cobertura completa do 16º Festival Mix Brasil

Veja a cobetura completa do II For Rainbow



3 Commentários sobre 'Homens'

  1.  

    30 Janeiro, 2009| 3:17 pm


     

    Estimado Fernado,

    Acabei de ler o seu comentário sobre o meu filme que foi representado por minha amiga e parceira profissional Etiene Petrauskas.
    Concordo em parte com a sua matéria, como um todo, mas se tratando sobre o meu filme, creio que você tenha acertado em parte também ou não percebido o que o filme tenta sem pretenção passar para o mundo, para uma geração de pessoas desatentas com o que está ocorrendo no quintal do lado.
    Não sou jornalista e nem vivo de cinema, pois meus campo de atuação são muito e o cinema panfletário (caso queira chama-lo assim) é um deles.
    Meus filmes não são jornalismo sensacionalista, até mesmo por que eu não sei fazê-los, mas posso lhe assegurar que são filmes panfletários mesmo. Foi o único meio que encontrei através da arte de denuncir o descaso das polítics públicas e da elite que se nega observar que seres humanos são violentados todos os dias em nossa frente.
    Você não vê assassinatos de pessoas comuns da comunidade LGBT todos os dias na TV e nem em bancas de jornais estampados na capas de GENTE, CARAS, FOLHA de SP, pois não há espaço para essa população na mídia brasielira. Você trabalhando com esse veículo sabe o que eu estou mencionando.
    Todos os anos enterro amigos, conhecidos e estranhos em covas rasas, locais que nem a mídia vai também. São brutalmente assassinados e seus culpados vivem a solta trazendo o terror, o medo e engrandecendo a desvalorização da vida.
    Concordo com você que muitas das vezes a técnica apurada de grandes e médias produções ficam a desejar em muitos dos filmes mencionados do festival por você, mas cabe também a tolerância de perceber que muitas produções, assim como as minhas, possuem orçamento muito básicos, quase nenhum… pudessemos contratar técnicos maravilhosos e mídias boas para finalizarem os nossos filmes. Porém prefiro tecer comentários sobre os meus trabalhos do que criticar os meus companheiros de luta.
    Queria lhe agradecer pelas suas palavras, pois elas me deram um senso muito positivo de continuar a luta que venho enfrentando desde muito cedo na minha militância.
    Chocou-me um pouco a sua insensibilidade sobre a morte alheia não lhe causar nenhum sentimento de estranhamento, de impotência dentro de um sistema elitista no universo de tantas pequenezas.
    Adoro festival de Fortaleza, pois é um espaço democratico que deixa as pessoas apresentarem seus trabalhos dentro de suas capacidades técnicas e artistícas. Há espaço para todos, jovens, Eu e tantos outros.
    Não participo de festivais para ser premiado, apesar de já ter sido abençoado com muitas surpresas, mas venho aos festivais depois de ser selecionado para panfletar mesmo, não fazer jornalismo sensacionalista, pois lhe confesso que não sei fazer isto como já foi mencionado. Não é a intenção. Deixo isto para a Record, Globo, Band, apesar de aprender com eles o que não fazer.
    Qto concientizar tanto os homos ou os homofobicos, também o filme não tem a pretensão disto. A importância dos meus filmes é fortalecer o movimento LGBT, familiares da comunidade ou não e educadores para que juntos possamos nos fortalecer e criar gerações e exercítos de cidadãos plenos, livres de atrocidades, pequenezas e que sua liberdade de expressão possa ser plena como cidadãos brasileiros, cidadãos do mundo e que não sejam assassinados aos 13, 14, 15 anos simplesmenete por serem homossexuais, travestis que se expõem na beira das Vias Dutras da Vida a mercê de clientes violentos e franco tiradores.
    Você já esteve com uma camera na mão nomeio de um tiroteio? Já passou noites de chuva escrevendo uam matéria a beira da Via Dutra? Já negociou a sua vida com franco atiradores? – Não há necessitadade de respostas, só um adendo de como eu faço os meus filmes.
    Fiquei muito feliz por você ter citado o meu filme, pois de alguma forma, mesmo não sendo uma obra de arte ou um filme bem acabados eu estou muito feliz por tudo.
    Gostaraia muito de poder no futuro tecer mais comentários produtivos sobre as minhas obras e que os proxímos filmes possam ser assistidos por você e que suas críticas sejam sempre claras e objetivas como foi essa que escreveu.
    Um grande abraço de um admirador do seu trabalho como crítico.
    Espero ter a chance de lhe conhcer um dia ao vivo.
    Vagner de Almeida
    http://www.vagnerdealmeida.com

  2.  
    Manú Maia

    31 Dezembro, 2012| 5:06 am


     

    Caro Fernando…

    …bem provocativo teu texto.

    Muito a se considerar aqui, mas vou me deter a dois pontos (um do teu texto em específico e outro de cunho geral e que foi tão bem defendido por Vagner de Almeida in riba…):

    1ªmente: “(…) As personagens, todas com algum trauma em relação à escolha de sua homossexualidade, exalam ainda a felicidade de viver, apesar de. (…)”

    Me pergunto: Apesar de quê? Da “escolha” de sua homossexualidade?

    T(r)emo dizer que nesse trecho de teu texto, pra alguém que aparenta ser bem esclarecido em tais questões, soou meio fail ao que se define como escolha/opção e sexualidade/natureza humana e o “apesar de.” que usasses deu uma legitimada negativa à condição da homossexualidade…

    Mas prefiro pensar que foram apenas palavras usadas de forma enganosa – sem intenção, óbvio! – ou até pode ter sido um trecho mal interpretado por mim…

    E em 2º lugar (e agora sim me apoio nas questões abordadas por Vagner Almeida…):

    Se Bruno Barreto (que dispensa apresentação) tá às voltas procurando apoio pra rodar um filme sobre Elisabeth Bishop, que dirá as produções alternativas??? – feitas em sua maioria na cara-e-coragem e sem maiores suportes financeiros que disponibilizem bons profissionais tanto em termos de construção quanto finalização…

    …e, pelo fato do discurso já ter sido dito é que pode ser cessado???

    Por falta de verbas e bons técnicos é que a mensagem não vai ser passada?

    Claro que quando dá pra se medir questões mais artísticas: seja o conceito, a estética a iluminação ou udhábo a 4, ótimo!!! Mas nem sempre é assim; sobretudo no que se diz respeito às políticas públicas referentes às questões GLBTs, e enquanto essa estrada de tijolos amarelos não nos leva a esse pote de ouro no final do arco-íris, vamos selecionando o que devemos ou não nos apropriar na causa (sendo panfletário ou não!), afinal existem tantos recursos antes de assistirmos qualquer coisa: desde a trivial sinopse até o simples – mas não menos indispensável – boca-à-boca dos mais experts no assunto.

    Afinal, informação/conhecimento nunca é demais, né? O que fazemos com é que pode ser de menos.

  3.  
    Fernando Secco

    5 Janeiro, 2013| 10:46 am


     

    Manú, sobre tuas duas observações, creio que concordo com a primeira. É uma frase um tanto estranha. Lembro que durante o festival existia uma questão que pairava sobre todos os filmes, assim como durante as sessões, que era a aceitação de uma escolha, a afirmação de uma escolha, digamos assim. E exista muito essa visão de “somos felizes apesar de dizerem o contrário” e de combate a uma visão homofóbica aparentemente predominante. Já se passaram 4 anos desde o texto, então não recordo exatamente as minúcias de sua escrita, mas creio que a frase não expressa bem, realmente, o seu significado completo. Valeu por ter reparado.
    Quanto ao seu segundo questionamento, discordo: SEMPRE é possível medir questões artísticas. Um filme, a meu ver, é uma obra de arte e, se ele é feito – roteirizado, filmado, editado, finalizado – ele se propõe como obra a ser analisada pelo todo. Se o que interessa é apenas a mensagem, e não a forma cinematográfica, então qual a razão de se fazer um filme ao invés de, digamos, um livro? Ou um post num blog? Ou no Facebook?
    Que o cinema brasileiro sofre com recursos é bem claro. Mas existe aí um abismo entre a falta de recursos financeiros e a falta de recursos de linguagem cinematográfica.
    Ao mesmo tempo, uma crítica cinematográfica, que é o que eu me propunha quando fazia parte da Revista Moviola (saí em 2011), deve obrigatoriamente analisar esse pedaço importantíssimo de um filme. Até mesmo para forçar a reavaliação do que ainda me parece um senso comum: o de que o que importa num filme é apenas sua história.
    Não que os filmes com “falta de verbas e bons técnicos” não deva ser feito. Quanto mais filme melhor. Informação/conhecimento nunca é demais mesmo, concordo. Mas um filme que se proponha a ser apenas informação é, para mim, uma reportagem. E eu acho que existe uma grande diferença entre jornalismo e cinema.

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