Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Café com Leite

Café com Leite


Por

Publicado em 7 de Setembro de 2008

cafe-com-leite02_daniel-ribeiro.jpg

Café com Leite, de Daniel Ribeiro, 18 min, 2007

Uma das grandes desvantagens do “gênero” conhecido como “cinema gay” (de ficção, no caso) é que a grande maioria dos filmes se sente obrigado a tocar na questão do homossexualismo como algo ainda em processo de aceitamento, de entendimento. Há, então, uma barreira que acaba separando os filmes “hetero” dos filmes “homo”, como se estes (ainda)  tivessem obrigação de lutar contra aqueles, de se afirmar, de levantar a banderia da luta do movimento LGBT a qualquer momento possível (esse problema se dá também, e de modo mais grave, nos documentários, mas disso falo em outro texto).

Em alguns momentos de lucidez desse cinema, porém, a barreira que separa esses dois ambientes se dissolve e sequer aparece como questão central. Café com Leite é um desses momentos onde a naturalidade da aceitação do universo gay já está dada e não há estranhamento algum de qualquer personagem com a relação homossexual do filme.É um passo a frente, uma amostra de que a luta pela igualdade só pode ser palpável se essa igualdade estiver estampada na tela.

Um documentário da mesma sessão, Cinema em 7 cores, de Rafaela Dias e Felipe Tostes, aborda bem essa questão. Programado como primeiro filme da sessão e do festival (aliás, parabéns para a curadoria pelo encadeamento perfeito da sessão) o média introduz a questão da representação da personagem homossexual no cinema. Seguindo o processo do livro A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro, de Antônio Moreno (um dos entrevistados), o filme traça um panorama da personagem homo e das suas possíveis representações, lançando um desafio para os filmes a seguir de se posicionarem a respeito dessa representação.

Um dos problemas levantados por Cinema em 7 Cores é exatamente o que Café com Leite busca suplantar: personagens que consigam tratar o universo gay como natural, como trivial, como irrelevante (no sentido de uma necessidade de auto-afirmação).

Café com Leite é, então, um filme de relacionamento desde o primeiro momento. O primeiro plano do filme, onde os dois atores se encontram abraçados na cama numa posição clássica do “cinema hetero” de “homem-mulher” (esta deitada no peito daquele), assim como toda a primeira sequência do filme, já revelam a naturalidade em que a questão vai ser dada.

O importante dessa representação é que ela se quebra ao longo do filme. Esse processo de busca de um feminino na relação, comum em filmes homo e, normalmente, responsável por não acarretar uma discussão necessária em cima do gênero das pessoas envolvidas, é totalmente abandonada pelo filme. As personagens trocam e confundem seus papéis de homem-mulher da relação, deixando evidente que não é exatamente assim que se relacionam dois homens (nesse sentido Café com Leite tem, aliás, uma posição parecida com a de O Segredo de Brokeback Moutain, de Ang Lee)

Há sim o conflito de aceitação dentro do filme mas é do garotinho que, com a morte dos pais, não consegue aceitar nenhum tipo de intrusão entre a relação dele com o irmão. Sutilmente, o filme coloca a questão sem abordar um conflito homofóbico necessariamente, mas um conflito humano acima de tudo.

Café com Leite ganhou prêmio na seção Generation do Festival de Berlim este ano

Veja a cobertura completa do 16º Festival Mix Brasil

Veja a cobetura completa do II For Rainbow



2 Commentários sobre 'Café com Leite'

  1.  
    Douglas Henrique Almeida

    16 Janeiro, 2011| 5:38 pm


     

    Achei o que o texto não está tão bem escrito, me desculpem… Desculpe-me também se não te conheço Fernando Secco, mas algumas idéias descritas não são facilmente aceitas pelo leitor: desde a mais banal como o uso errôneo do ter “homossexualismo” que todos sabem é um termo pejorativo. O correto seria homossexualidade! Até mesmo ao estabelecimento de um “gênero conhecido como cinema gay”. Em quatro anos estudando e envolvido diretamente com o cinema nacional, principalmente com essa vertente gay, jamais ouvi falar desse “gênero”, mas entendo que é claramente indiscutível a existência dessa vertente, mas não como um gênero propriamente. De qualquer forma os comentários acerca da abordagem humana e de certa forma desviada da temática gay como é tradicionalmente conhecida no cinema nacional, é bem pertinente. É muito bom saber da existência de pessoas fazendo esse tipo de trabalho no Brasil assim como é bom saber que existem pessoas analisando e refletindo sobre isso, o que é mais importante. Obrigado.

  2.  
    Fernando Secco

    3 Fevereiro, 2011| 4:41 pm


     

    Douglas, existem festivais destinados apenas a filmes de tématica homoerótica, assim como existe, por exemplo, uma programação específica no Festival do Rio para filmes dessa temática. Mesmo que não se queira, esses filmes ainda são tratados como uma espécie de gênero, infelizmente. Note, portanto, as aspas no meu texto, denotando que não se trata especialmente de um gênero como a ação, comédia, etc.
    Quanto ao uso do termo homossexualismo, aí fere-se quem quer. A cada ano me aparecem termos novos que antes eram usados e “aprovados” e agora são “errados e pejorativos”. Desculpe, mas discordo da gravidade do uso do termo.

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Por Revista Moviola

26 de Fevereiro de 2019

Perigo Por Encomenda (2012), escrito e dirigido por David Koepp, traz ao público a cidade de Nova York como elemento determinante na narrativa e na estética do filme. O longa conta a história de um mensageiro que usa como transporte uma bicicleta (Wilee, interpretado por Joseph Gordon-Levitt) em Manhattan, o personagem precisa entregar, um envelope […]

Por Revista Moviola

21 de Fevereiro de 2019

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) é um filme baseado em um curta de terror, com roteiro e direção de Ana Lily Amirpour e vencedor do prêmio da Revelação Cartier no Festival de Deauville em 2014. Uma produção realizada por imigrantes iranianos nos Estados Unidos que traz um estilo mesclado entre o horror, a fantasia, […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.