
Café com Leite, de Daniel Ribeiro, 18 min, 2007
Uma das grandes desvantagens do “gênero” conhecido como “cinema gay” (de ficção, no caso) é que a grande maioria dos filmes se sente obrigado a tocar na questão do homossexualismo como algo ainda em processo de aceitamento, de entendimento. Há, então, uma barreira que acaba separando os filmes “hetero” dos filmes “homo”, como se estes (ainda) tivessem obrigação de lutar contra aqueles, de se afirmar, de levantar a banderia da luta do movimento LGBT a qualquer momento possível (esse problema se dá também, e de modo mais grave, nos documentários, mas disso falo em outro texto).
Em alguns momentos de lucidez desse cinema, porém, a barreira que separa esses dois ambientes se dissolve e sequer aparece como questão central. Café com Leite é um desses momentos onde a naturalidade da aceitação do universo gay já está dada e não há estranhamento algum de qualquer personagem com a relação homossexual do filme.É um passo a frente, uma amostra de que a luta pela igualdade só pode ser palpável se essa igualdade estiver estampada na tela.
Um documentário da mesma sessão, Cinema em 7 cores, de Rafaela Dias e Felipe Tostes, aborda bem essa questão. Programado como primeiro filme da sessão e do festival (aliás, parabéns para a curadoria pelo encadeamento perfeito da sessão) o média introduz a questão da representação da personagem homossexual no cinema. Seguindo o processo do livro A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro, de Antônio Moreno (um dos entrevistados), o filme traça um panorama da personagem homo e das suas possíveis representações, lançando um desafio para os filmes a seguir de se posicionarem a respeito dessa representação.
Um dos problemas levantados por Cinema em 7 Cores é exatamente o que Café com Leite busca suplantar: personagens que consigam tratar o universo gay como natural, como trivial, como irrelevante (no sentido de uma necessidade de auto-afirmação).
Café com Leite é, então, um filme de relacionamento desde o primeiro momento. O primeiro plano do filme, onde os dois atores se encontram abraçados na cama numa posição clássica do “cinema hetero” de “homem-mulher” (esta deitada no peito daquele), assim como toda a primeira sequência do filme, já revelam a naturalidade em que a questão vai ser dada.
O importante dessa representação é que ela se quebra ao longo do filme. Esse processo de busca de um feminino na relação, comum em filmes homo e, normalmente, responsável por não acarretar uma discussão necessária em cima do gênero das pessoas envolvidas, é totalmente abandonada pelo filme. As personagens trocam e confundem seus papéis de homem-mulher da relação, deixando evidente que não é exatamente assim que se relacionam dois homens (nesse sentido Café com Leite tem, aliás, uma posição parecida com a de O Segredo de Brokeback Moutain, de Ang Lee)
Há sim o conflito de aceitação dentro do filme mas é do garotinho que, com a morte dos pais, não consegue aceitar nenhum tipo de intrusão entre a relação dele com o irmão. Sutilmente, o filme coloca a questão sem abordar um conflito homofóbico necessariamente, mas um conflito humano acima de tudo.

Café com Leite ganhou prêmio na seção Generation do Festival de Berlim este ano
Veja a cobertura completa do 16º Festival Mix Brasil
Veja a cobetura completa do II For Rainbow
16 Janeiro, 2011| 5:38 pm
Achei o que o texto não está tão bem escrito, me desculpem… Desculpe-me também se não te conheço Fernando Secco, mas algumas idéias descritas não são facilmente aceitas pelo leitor: desde a mais banal como o uso errôneo do ter “homossexualismo” que todos sabem é um termo pejorativo. O correto seria homossexualidade! Até mesmo ao estabelecimento de um “gênero conhecido como cinema gay”. Em quatro anos estudando e envolvido diretamente com o cinema nacional, principalmente com essa vertente gay, jamais ouvi falar desse “gênero”, mas entendo que é claramente indiscutível a existência dessa vertente, mas não como um gênero propriamente. De qualquer forma os comentários acerca da abordagem humana e de certa forma desviada da temática gay como é tradicionalmente conhecida no cinema nacional, é bem pertinente. É muito bom saber da existência de pessoas fazendo esse tipo de trabalho no Brasil assim como é bom saber que existem pessoas analisando e refletindo sobre isso, o que é mais importante. Obrigado.
3 Fevereiro, 2011| 4:41 pm
Douglas, existem festivais destinados apenas a filmes de tématica homoerótica, assim como existe, por exemplo, uma programação específica no Festival do Rio para filmes dessa temática. Mesmo que não se queira, esses filmes ainda são tratados como uma espécie de gênero, infelizmente. Note, portanto, as aspas no meu texto, denotando que não se trata especialmente de um gênero como a ação, comédia, etc.
Quanto ao uso do termo homossexualismo, aí fere-se quem quer. A cada ano me aparecem termos novos que antes eram usados e “aprovados” e agora são “errados e pejorativos”. Desculpe, mas discordo da gravidade do uso do termo.