Corpo de Bollywood, o povo quer cinema, 2008, Raquel Valadares

Em 1998, Sabine Sorrel era minha colega no curso de Cinema da UFF; na mesma época, eu era monitor do professor Roberto Moura, na disciplina Estudo Específico do Cineasta Brasileiro. Naquele ano, o cineasta brasileiro a ser estudado foi Humberto Mauro – por curiosa coincidência, admiração de ambos, professor e monitor. O resultado foram artigos bem interessantes de alguns alunos. Um deles, de Sabine: Paletó americano: o cinema como sonho de consumo, um paralelo entre o cinema brasileiro na época de Mauro com os dias atuais (no caso, atuais em 1998, mas parece que não mudou muita coisa). Mais tarde, enquanto editava heroicamente a revista de cinema SOMBRAS ELÉTRICAS, tive o prazer e a honra de publicá-los, num número especial sobre Humberto Mauro. O artigo de Sabine Sorrel ainda pode ser lido integralmente neste link, pois o que importa é o trecho final, que transcrevo aqui:
Fica a imagem geral de que os realizadores do Cinema brasileiro são como o personagem principal de O Canto da Saudade, o humilde Galdino, sonhando com seu paletó americano, cobiçado e nunca realmente seu. Um cineasta brasileiro também é um sonhador humilde que tem o Cinema como seu sonho de consumo, seu “paletó americano”, e parece pegá-lo emprestado dos irmãos estrangeiros algumas vezes para uma festa ou ocasião especial. O Cinema nos escapa por entre os dedos e insistimos em correr atrás dele.
Sei não, mas quando terminei de ver Corpo de Bollywood: o povo quer cinema, (UFF), este trecho final me veio à memória. Talvez porque este filme de Raquel Valadares vai além de olhar a maior indústria de cinema do mundo (a Índia); a partir dela, observa, com extrema competência e sensibilidade, os contrastes deste subcontinente – especialmente entre a Índia urbana e moderna e a índia rural tradicional. De lambuja, fala sobre as mudanças desta indústria de cinema, de 1948 para cá, bem como ela se insere de modo simbiótico com a realidade e com o imaginário – e esta parece ser a chave dela para deixar apenas uns 5% de seu mercado interno para a segunda grande indústria de cinema do mundo (uma tal de Hollywood), ficando com os outros 95% para si.
Aliás, não é exatamente isso que o cinema brasileiro busca: ser uma roupa original que caiba no corpo de seu povo, sem precisar ser um paletó americano usado? Caso a pensar.
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