Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Corpo de Bollywood

Corpo de Bollywood


Por

Publicado em 19 de Agosto de 2008

 Corpo de Bollywood, o povo quer cinema, 2008, Raquel Valadares

Corpo de Bollywood, de Raquel Valadares

Em 1998, Sabine Sorrel era minha colega no curso de Cinema da UFF; na mesma época, eu era monitor do professor Roberto Moura, na disciplina Estudo Específico do Cineasta Brasileiro. Naquele ano, o cineasta brasileiro a ser estudado foi Humberto Mauro – por curiosa coincidência, admiração de ambos, professor e monitor. O resultado foram artigos bem interessantes de alguns alunos. Um deles, de Sabine: Paletó americano: o cinema como sonho de consumo, um paralelo entre o cinema brasileiro na época de Mauro com os dias atuais (no caso, atuais em 1998, mas parece que não mudou muita coisa). Mais tarde, enquanto editava heroicamente a revista de cinema SOMBRAS ELÉTRICAS, tive o prazer e a honra de publicá-los, num número especial sobre Humberto Mauro. O artigo de Sabine Sorrel ainda pode ser lido integralmente neste link, pois o que importa é o trecho final, que transcrevo aqui:

Fica a imagem geral de que os realizadores do Cinema brasileiro são como o personagem principal de O Canto da Saudade, o humilde Galdino, sonhando com seu paletó americano, cobiçado e nunca realmente seu. Um cineasta brasileiro também é um sonhador humilde que tem o Cinema como seu sonho de consumo, seu “paletó americano”, e parece pegá-lo emprestado dos irmãos estrangeiros algumas vezes para uma festa ou ocasião especial. O Cinema nos escapa por entre os dedos e insistimos em correr atrás dele.

Sei não, mas quando terminei de ver Corpo de Bollywood: o povo quer cinema, (UFF), este trecho final me veio à memória. Talvez porque este filme de Raquel Valadares vai além de olhar a maior indústria de cinema do mundo (a Índia); a partir dela, observa, com extrema competência e sensibilidade, os contrastes deste subcontinente – especialmente entre a Índia urbana e moderna e a índia rural tradicional. De lambuja, fala sobre as mudanças desta indústria de cinema, de 1948 para cá, bem como ela se insere de modo simbiótico com a realidade e com o imaginário – e esta parece ser a chave dela para deixar apenas uns 5% de seu mercado interno para a segunda grande indústria de cinema do mundo (uma tal de Hollywood), ficando com os outros 95% para si.

Aliás, não é exatamente isso que o cinema brasileiro busca: ser uma roupa original que caiba no corpo de seu povo, sem precisar ser um paletó americano usado? Caso a pensar.

Veja a cobertura completa do XIII Festival Brasileiro de Cinema Universitário

: : Compartilhe

    

    Deixe um comentário

    (obrigatório)

    (obrigatório)


    Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



    RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

     

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    26 de Outubro de 2011

    Políssia, França, 2011, de Maïwenn Maïwenn acompanha o dia-a-dia da unidade policial que combate os crimes sexuais contra crianças. A câmera, sempre instável e contingente, flagra momentos breves, que revelam menos as investigações em si e mais as agruras psíquicas e emotivas que solapam as personagens em contato com a pedofilia. A narrativa de Políssia [...]

    Por Rodrigo Cazes

    20 de Outubro de 2011

    Caminho para o nada, Monte Hellman, EUA, 2011 O cinema é uma manifestação artística com imensa capacidade para reproduzir a realidade, graças a sua reprodução ótica a 24 quadros por segundo. Mas, ao mesmo tempo, também possui uma enorme natureza de ilusão, devida à sua natureza de cópia e, nos dias de hoje, às ilusões [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    19 de Outubro de 2011

    Drive, EUA, 2011, de Nicolas Winding Refn No clímax de Drive, Bernie e o herói se enfrentam na rua, à luz do dia, mas vemos apenas suas sombras. Para a Los Angeles “oficial”, de fato, eles não existem – são personagens marginais, que vivem nos subterrâneos da grande metrópole. O herói não tem nome. Quando [...]

    Por Luciane Quoos

    18 de Outubro de 2011

    Dublê do diabo, Bélgica/Holanda, 2011, Lee Tamahori Assistindo ao filme Dublê do diabo sem saber que era baseado no livro escrito por Latif Yahia, um oficial do exército iraquiano que foi obrigado a passar-se pelo inescrupuloso Uday Hussein, filho de Saddam Hussein, concluímos que é um bom filme de ação, com cenas eletrizantes, uma câmera [...]

    Por Paulo Ricardo de Almeida

    18 de Outubro de 2011

    O Moinho e a Cruz, Suécia e Polônia, 2011, Lech Majewski   O Moinho e a Cruz desvela as forças econômicas, sociais, políticas e até ecológicas que se articularam para a confecção do quadro “O Caminho do Calvário”, de Pieter Bruegel: o relacionamento do pintor com o banqueiro e mecenas flamengo Nicolaes Jonghelinck, a presença [...]

    Anima Mundi Animação animações Brasil Cachaça Cinema Clube Cannes CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Curta Curta-metragem Curtas Debate Documentário Entrevista FBCU Festival Festival de Cannes Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 festrio França Gay Iraque Juventude Literatura Memória Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Rio de Janeiro Romênia Teatro Versos É Tudo Verdade

    WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.