
Partir, de Márcia Paveck , 18min, 2007
Partir começa como um cuidadoso exercício de ambientação de seus personagens em um tempo e espaço definidos: em uma casa localizada em algum lugar do interior do Rio Grande do Sul, três fugitivos da ditadura militar, dois homens e uma mulher, se escondem, e se há méritos a se sublinhar no curta de Márcia Paveck, eles se encontram aí, neste processo de composição que se dá nos primeiros minutos do filme, em que sotaques, roupas e pequenos diálogos e situações vão se somando de forma a contextualizar para o espectador, nunca de forma escancarada, quem são aquelas figuras e o que fazem ali. Como em Cabra cega, longa de Toni Venturi, a ditadura militar será varrida para o fora-de-tela, e o que restará serão os relacionamentos dos personagens registrados na proximidade de um microcosmo.
O problema é que se há cuidado na reconstituição da parte “histórica” do filme (na falta de palavra melhor), esse cuidado não se reflete no tratamento das relações pessoais entre os personagens. Tudo se passa já com a decisão de Júlia, a personagem feminina do trio, de ir embora, e é como se para os espectadores restasse pegar o bonde andando, o que dificulta o apego aos personagens. Fora essa dificuldade no trabalho com o tempo (problema recorrente com realizadores de curtas-metragens), não ajuda também o fato de o filme investir em situações clichê (personagens olhando para a lua enquanto discutem seu “lugar” ideal, frases como “você mais parece um general que um comunista”). E se o clímax do filme soa meio ridículo, isso é justamente porque até este momento não havíamos conseguido sentir verdadeira afeição pelos personagens.
No final, como prometido, ela vai embora, mas não sozinha. E ainda que o filme tente soltar esta informação de forma a causar impacto, é interessante notar como, no fundo, ela não tem a menor importância diferença: qualquer que fosse o homem “escolhido” pela personagem para acompanhá-la, para nós, espectadores indiferentes àquelas figuras, não faria a menor diferença.
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