Como Festejei o Fim do Mundo, 2006, de Catalin Mitulescu.
Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii, Romênia / França.

Últimos meses do Nicolau Ceausescu na Romênia. Após destruir, com o namorado, busto do ditador, Eva é expulsa da escola e enviada para reformatório. Sua família, que vive com medo, recebe ajuda financeira de policial mal visto pela vizinhança, enquanto Lali, irmão caçula de Eva, fabrica planos mirabolantes e imagina sonhos impossíveis para sobreviver em meio à opressão que o cerca.
Em Como Festejei o Fim do Mundo, Catalin Mitulescu poderia facilmente se colocar aos olhos de Lali, descambando ou para a representação onírica e surreal dos acontecimentos, ou para a construção de personagens com os pés fincados no exagero carnavalesco (todos os vizinhos de Eva, simpáticos e cordiais, se prestariam a tal jogo). No entanto, o cineasta escapa da armadilha, uma vez que substitui a alegria exultante, teatral, estilizada, fake e over de Emir Kusturica pela narrativa seca e direta, em que poucas emoções são demonstradas, na qual os personagens se contêm talvez com temor da ditadura que paira sobre suas cabeças e dos espiões à espreita. São planos bem enquadrados, corretos, quase acadêmicos; os movimentos de câmera se restringem a acompanhar a ação, sem malabarismos; luz e core escuras, opacas, fechadas; corta-se quando a cena se esgota, nem se prolonga, nem se antecipa: Mitulescu, desde o título – Como Festejei o Fim do Mundo –, parece negar e ironizar a possível influência do diretor bósnio de Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, Underground, Mentiras de Guerra, Vida Cigana e A Vida É Um Milagre. Não há festa, real ou simbólica, apenas a revolta muda, a espera agonizante e as tentativas desesperadas de abandonar o inferno.
Eva, de fato, tenta fugir para a Itália, ao travar amizade com novo e misterioso vizinho, transferido pelo governo ao bairro por, supostamente, manter atividades suspeitas. O envolvimento entre os dois, a cumplicidade crescente, leva à crise da relação entre Eva e o namorado e, em conseqüência, dela com a família, que depende dos favores econômicos e da influência política do pai / policial do, quem sabe, futuro marido da filha. Mitulescu realiza o clássico filme de comunidade, em que grupo social restrito atravessa conjuntamente as transformações que o meio lhe impõe, mas subverte a fórmula, na medida em que desloca e individualiza a protagonista quanto aos demais. Desajustada, a heroína de Como Festejei o Fim do Mundo se encastela no orgulho ferido, no ódio e na angústia contra as políticas do medo e do toma-lá-dá-cá que imperam na Romênia, fazendo de todos vassalos e cordeiros assustados. O único interlocutor com que Eva pode se expressar é seu irmão, Lali, de quem o cineasta retira traços em geral trabalhados nas crianças (doçura, inocência) para torná-lo corpo ainda mais estranho, verdadeiro pária que transita pelos acontecimentos históricos e os curto-circuita.

Lali decide recitar poema para Ceausescu a fim de matá-lo e, coincidência ou não, sua presença precipita as manifestações populares que derrubam a ditadura comunista. Ao contrário, por exemplo, de Forrest Gump, que apenas observa passivamente a História que o atravessa, indiferente e estúpido a ela, o menino de Como Festejei o Fim do Mundo a sente nos ossos, visualiza cada ínfima flutuação do ambiente – nas febres constantes que tem, quando busca o suicídio após a fuga da irmã, ao amaldiçoar o dente de leite que o impede de receber prêmio na escola. Mais do que simples narrador dos fatos que presencia, Lali se faz agente da mudança, como todos os vizinhos que, não satisfeitos em assistir a queda do regime pela TV, saem eles mesmos às ruas para participar do momento e comemorá-lo.
Catalin Mitulescu encarna o sonho de liberdade que seus personagens nutrem nas diversas imagens de barcos e de navios que aparecem ao longo de Como Festejei o Fim do Mundo. O diretor, porém, não se ilude, pois sabe que a morte de Ceausescu e de seu regime trouxe a economia de mercado e o capitalismo para o país. Eva é livre, agora, como comissária de bordo do transatlântico de luxo, longe da família, com seus óculos Adidas? Para onde vai o navio? Qual o futuro da Romênia? Mitulescu não conhece as respostas, mas soube fazer as perguntas.
1 Agosto, 2008| 11:01 pm
filmes sobre apersonagens q viveram o chumbo do leste europeu e sempre bem vindos nas telas daqui mas precisamos não nos apegar totalmente prq derepente cairiamos numa defesa puro e simples do sentimentalismo digo isso prq naqueles dias da queda do regime de ciuscescu 1990 logo depois pessoas do povo brandiam bandeiras americanas era a realidade deles mas volto dizendo q venham mais filmes com essas realidades