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Ray Harryhausen


Por Paulo Ricardo de Almeida

Publicado em 24 de Julho de 2008

O Anima Mundi 2008 oferece aos espectadores cariocas e paulistas retrospectiva com cinco longa-metragens de Ray Harryhausen, nos quais atuou como assistente, criador ou supervisor de efeitos especiais: Mighty Joe Youg, The 7th Voyage of Sinbad, Jason and the Argonauts, The Golden Voyage of Sinbad e Clash of the Titans.

Mago do stop-motion, Ray Harryhausen se encantou pela técnica em 1933, aos treze anos, quando assistiu a King Kong, de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, no Chinese Theatre – a criatura de Willis O’Brien representa marco fundamental dos efeitos visuais e do cinema fantástico em Hollywood. Chamado pelo mestre, Ray Harryhausen aceitou o convite para, em 1949, participar da equipe da Mighty Joe Young, também sob direção de Schoedsack.

Ao contrário dos filmes totalmente animados, Ray Harryhausen misturava stop-motion com live action, de sorte que permaneceu, ao longo de décadas, como bastião solitário do cinema de fantasia norte-americano. Apenas nos anos 70, quando o gênero explodiu nas bilheterias mundiais com Tubarão, de Steven Spielberg, e com Guerra nas Estrelas, de George Lucas, que fãs e admiradores de Harryhausen tomaram de assalto a indústria: os cinestas Peter Jackson (da trilogia O Senhor dos Anéis, que iniciou com stop-motion caseiro em Super 8), Joe Dante (Gremlins), John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres), Tim Burton (A Noiva Cadáver), o maquiador Rick Baker (Schlock, paródia de King Kong) e Tom Hanks (que lista Jason and the Argonauts entre os filmes prediletos).

As criaturas e os ambientes digitais dos blockbusters contemporâneos aumentam a importância de Ray Harryhausen para o cinema – pioneiro que merece todas as homenagens. Porém, enquanto os efeitos CGI de última geração buscam o hiper-realismo e a verossimilhança a qualquer custo (com raras e felizes exceções, como Hancock), o stop-motion de Harryhausen se pretende lúdico, mágico, fantasioso e criativo quando dá vida e personalidade a seres pré-históricos, mitológicos ou das mil e uma noites.

Breves comentários sobre os filmes de Ray Harryhausen que compõem a retrospecvtiva:

Mighty Joe Young, de Ernest B. Schoedsack: Produtor inescrupuloso leva gorila africano a fim de apresentá-lo na Broadway, onde ele foge ao controle. Schoedsack e Merian C. Cooper revisitam King Kong, mas sem a pulsão sexual (Joe é amigo da heroína, quase animal de estimação) e o fim trágico. No lugar da Ilha da Caveira, misteriosa e luxuriante, entra a África domesticada pelo colonialismo europeu. Destaque para as seqüências em que Joe se apresenta na boate, e ao brilhante stop-motion de Willis O’Brien.

The 7th Voyage of Sinbad, de Nathan Juran: Na ilha habitada pelos ciclopes, Sinbad precisa reaver a lâmpada mágica a fim de que o mágico Sokurah traga a princesa Parisa de volta ao tamanho normal – e, por conseguinte, evite a guerra entre o sultão e o califa. Melhor filme de Ray Harryhausen, The 7h Voayge of Sinbad teve por trás das câmeras Nathan Juran, que também dirigiu Attack of the 50 Feet Woman e vários episódios de Perdidos no Espaço, O Túnel do Tempo e Viagem ao Fundo do Mar (sem contar o Oscar de melhor direção de arte por Como Era Verde o Meu Vale, de John Ford). George Lucas, em Guerras nas Estrelas: Uma Nova Esperança, copia a seqüência em que Sinbad e Parisa, através da corda no teto, ultrapassam o fosso deixado pela falta da ponte. Da mesma forma, impressiona a semelhança do Um Anel nas chamas da Montanha da Perdição em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de Peter Jackson, com a lâmpada mágica na lava do castelo de Sokurah. Todavia, o combate entre Sinbad e o esqueleto é o instante mais emblemático do longa-metragem – tanto que o próprio Harryhausen o utilizou novamente em Jason and the Argonauts.

Jason and the Argonauts, de Don Chaffey: Para recuperar o trono usurpado, Jasão parte em busca do velo de ouro, que se encontra do outro lado do mundo. É o filme mais conhecido de Ray Harryhausen (e seu predileto). Há duas seqüências impressionantes: a luta contra o gigante Talos e o duelo final contra os sete esqueletos, que maximiza o efeito alcançado em The 7h Voyage of Sinbad.

The Golden Voyage of Sinbad, de Gordon Hessler: Sinbad procura a fonte da eterna juventude. Menos aventuresco e mais sombrio que os outros filmes da retrospectiva. Harryhausen brilha, porém, na cena em que a estátua de Shiva ganha vida.

Clash of the Titans, de Desmond Davis: A saga de Perseu para salvar a amada Andrômeda do terrível Kraken, para o qual foi oferecida em sacrifício. A despeito do elenco estelar (Laurence Olivier, Maggie Smith, Ursula Andress, Burgess Meredith, Claire Booth), as atenções recaem mesmo nos efeitos criados por Ray Harryhausen: Medusa, Pégaso, Calibos e demais personagens da mitologia grega que, de tão fundamentais à narrativa, ganharam nome nos créditos do filme. Como em Jason and the Argonauts, há novamente o conceito de que os homens são meros fantoches dos deuses (que, do Olimpo, brincam conosco). Aliás, curiosidade: Louis Leterrier – de O Incrível Hulk – refilmará Clash of the Titans em 2010.

Veja a cobertura completa do Anima Mundi 2008.

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