Revista Moviola – Revista de cinema e artes » O Sol

O Sol


Por

Publicado em 17 de Julho de 2008

O Sol, de Aleksandr Sokúrov

Em agosto de 1945, Hirohito, o imperador do Japão, estava trancafiado em um bunker à espera da invasão norte-americana. Hiroshima e Nagasaki já haviam sido arrasadas pelas duas únicas bombas atômicas utilizadas em um conflito militar da história. Aproximava-se o inexorável fim da Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos como os grandes vencedores.

O Sol, do russo Aleksandr Sokúrov, mostra os últimos dias desse imperador à frente de uma nação derrotada, preso em si mesmo na condição de divindade. De acordo com a tradição japonesa, o imperador descende do sol, é um deus encarnado – e por isso mesmo, predestinado ao comando do povo.

Sokúrov irá, assim, mostrar a transformação desse deus em homem. Ele parte de um conceito clichê do cinema contemporâneo – a tentativa de mostrar o lado humano dos maus – e confecciona uma obra de arte como poucas.

Hirohito é a personificação do que os Estados Unidos odeiam. Ele se diz deus, possui servos, representa uma tradição antiquada e milenar. Seus homens são kamikazes. Algo similar do hoje dito Eixo do Mal, seus Bins Ladens e homens bombas.

Sokúrov, que nesse filme encerra uma trilogia acerca da Segunda Guerra, mostra não apenas o dia-a-dia de um deus derrotado, mas como se deu o início da presença ostensiva norte-americana dentro da cultura japonesa. Além de O Sol, compõem a trilogia os filmes Moloch, sobre Hitler, e Taurus, sobre Lênin. Sokúrov é também o diretor do aclamado Arca Russa, filme feito em único plano seqüência.

Os diálogos entre Hirohito e o comandante em chefe no Japão, o general McArthur, são o que melhor dão o tom das transformações culturais que ali se iniciam. É do contraste entre a tradição ostentada pelo imperador e a arrogância colonizadora norte-americana que o filme pontua seu discurso.

Mesmo assim não há simplismos, nem mocinhos, nem bandidos. A guerra, como é vista por Sokúrov, é de uma complexidade assombrosa. Porque Hirohito, que é um deus, é apaixonado pela biologia marinha e pelas estrelas do cinema hollywoodiano; porque ele também sabe que é humano, mesmo na condição divina; porque tanto McArthur quanto o imperador japonês se mostram amedrontados com a Guerra; porque ambos têm medo palpável do inimigo, das atrocidades do inimigo; porque eles têm filhos e esposas…

A composição de Hirohito, feita pelo ator Issey Ogata, transborda em anacronismo. Seu imperador é, conscientemente, uma figura distante daquele mundo em transformação. A pompa e os ritos que o impedem até de abrir uma porta sozinho ou mesmo trocar de roupas constroem o modelo do que será o contraste civilizatório explorado na obra.

Além disso, O Sol é um filme de guerra onde não se mostram tiros. Das bombas, só vemos os destroços por elas causados. Os poucos planos gerais do longa-metragem estão ali para ressaltar a destruição, mas não para remeter a ações heróicas ou qualquer outro ditame dos filmes congêneres.

Se em Além da Linha Vermelha, Terrence Malick tratava a guerra com lampejos poético-existencialistas, aqui neste O Sol, tudo é tratado de modo cru, até mesmo pouco narrativo. Há, na obra, uma frieza que esconde e ao mesmo tempo escancara as relações culturais ali presentes; um silêncio bordado de múltiplas questões, embora sempre ouçamos, ao longe, as bombas que ainda caem sobre o Japão derrotado.

O filme também pode lembrar a alguns o A Queda, de Oliver Hirschbiegel, que narra os últimos dias de Hitler. Mas ao invés da histeria alemã, O Sol se concentra no vazio, no sentimento de incapacidade, na frieza e desolação do personagem. Hirohito não se mata, como o Hitler nazista. Ao contrário, e mais cruel ainda consigo, ele se torna humano.



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

19 de Outubro de 2019

              O longa-metragem Fendas apresenta uma protagonista mulher e paisagens, sons e imagens que envolvem seu trabalho num centro de pesquisas no Rio Grande do Norte. Seus objetos de pesquisa e seu cotidiano se mesclam. A personagem, uma cientista do campo da física, captura imagens de pessoas à distância. […]

Por Marcella Rangel

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Por Revista Moviola

26 de Fevereiro de 2019

Perigo Por Encomenda (2012), escrito e dirigido por David Koepp, traz ao público a cidade de Nova York como elemento determinante na narrativa e na estética do filme. O longa conta a história de um mensageiro que usa como transporte uma bicicleta (Wilee, interpretado por Joseph Gordon-Levitt) em Manhattan, o personagem precisa entregar, um envelope […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Odeon Oscar Poemas Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.