A Última Amante (Une Vieille Maitresse, 2007), de Catherine Breillat.

Originalmente publicado em 03/10/2007, durante a cobertura do Festival do Rio 2007.
Quem não viveu antes da revolução, não conhece a alegria de viver. Embora a epígrafe situe A Última Amante no “século de Laclos”, a narrativa se passa, de fato, em 1835. O sutil deslocamento se mostra fundamental para os propósitos de Catherine Breillat, já que o triângulo amoroso composto por Ryno de Marigny, Hermangarde e Vallini não ocorre na era libertina retratada em As Ligações Perigosas, mas na geração imediatamente posterior que, se continua com as mesmas práticas que afrontam a moral dominante, agora as fazem às escondidas, cinicamente, corroendo por dentro as instituições sociais que fingem respeitar.
A despeito dos avisos sobre a vida sexual lasciva de Marigny, a avó de Hermangarde o escolhe como marido para a neta. Na França do século XIX, nada é dito às claras, e a aristocracia mantém o hábito de destruir reputações com elegância e discrição. Marigny não incomoda por possuir amantes – afinal, todos as têm -, mas por não as escondê-las e, sobretudo, por não advir de família nobre. Visto com suspeitas, tratado como alpinista social – que utiliza o sexo para alcançar favores das damas aristocráticas –, Ryno precisa da aceitação no meio em que pretende se integrar e, para tanto, passa pela longa sabatina da protetora se sua futura mulher.

Ninguém melhor para questioná-lo do que a avó de Hermangarde. Ela não tem falsos pudores: viveu no século de Laclos e aproveitou-se de todos os prazeres que a libertinagem proporcionou à carne. Sabe que, em 1835, as práticas da alcova permanecem iguais – infidelidades, casamentos arranjados, jogos econômicos e de poder que se fundem ao sexo –, apenas os discursos acerca delas mudaram. O que era livre e escancarado se tornou proibido e perigoso: Catherine Breillat, em A Última Amante, registra transformação semelhante à ocorrida da década de 70 para a de 80 no século XX, quando as forças conservadores recrudesceram, os hippies deram lugar aos yuppies, o rock’n roll foi substituído pela música pop, a AIDS explodiu devido ao preconceito contra os homossexuais, as drogas e o tráfico foram criminalizados, Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram os governos da Inglaterra e dos EUA. Controle maior das aparências e não dos atos, com o aumento dos escândalos sexuais na esfera privada.
Não importa à avó de Hermangarde o passado de Marigny, mas se ele será capaz de se adequar ao novo papel que a sociedade lhe incumbe, ou seja, o de marido fiel, pelo menos porta afora de casa (sua ou da amante). Ryno é o corpo estranho, presença indesejável para a aristocracia – mero empregado que presta serviços sexuais para melhorar de vida –, enquanto Vallini, por sua selvageria e intensidade, remete a eras menos hipócritas de convívio social, o que a mantém isolada e à margem dos que a cercam. Contra a loira e virginal Hermangarde de Roxane Mesquida, o vulcão moreno e exótico e Asia Argento, sempre prestes a explodir, irrascível e errático (conquanto, seguindo as regras de conduta do século XIX, esteja mais contida que o de costume), q qual trava com Marigny relacionamento marcado por amor louco, paixão desenfreada, posse obsessiva. Eles que, na maior parte do tempo, odeiam-se e se desprezam, mas que não conseguem se separar, em ciclo autodestrutivo inesgotável: à frente de sua época, pois agem conforme o romantismo burguês, e não com a frieza e o distanciamento aristocrático, Ryno e Vallini finalmente sucumbem às exigências da política sócio-moral e econômica que os oprime.
Com A Última Amante, Catherine Breillat retoma a temática favorita de Max Ophüls: a impossibilidade do amor em sociedade hiper-codificada, onde prevalecem jogos sexuais que se misturam ao poder, ao dinheiro, à morte e à solidão. Embora sem a graça e a leveza de Ophüls, Breillat também considera que, neste mundo de aparências, não há vez para os sentimentos.