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Tesouros da Cinemateca


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Publicado em 4 de Julho de 2008

Cordialidade é apenas aparente.

De 4 a 13 de julho, a Cinemateca do MAM exibe os clássicos Dom Quixote, de Grigori Kozintzev, Aurora, de F.W. Murnau, A Regra do Jogo, de Jean Renoir, Marinheiros do Cometa, de Isidor Annesky, A Bela da Tarde, de Luis Buñuel, Ouro e Maldição, de Joseph von Stroheim, Trapaceiros, de Marcel Carné, Noites de Cabíria, de Federico Fellini, O Ébrio, de Gilda de Abreu e Tereza, de Pavel Blumenfeld. A programação está no site da Cinemateca.

Dom Quixote foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, e inclui-se entre as melhores adaptações do romance de Miguel de Cervantes, na companhia do (mítico) longa-metragem de Orson Welles e da versão que G.W. Pabst filmou em 1933. Grigori Kozintzev, apesar de hoje esquecido, teve importância ímpar no cinema soviético: co-fundador da Fábrica do Ator Louco (que influenciou Eisenstein), que se opunha ao método desenvolvido por Stanislawski; dirigiu com Leonid Trauberg A Trilogia de Máximo, quando o herói coletivo e revolucionário se individualiza e se indentifica com o público, estratégias comuns à indústria hollywoodiana; e arranjou fôlego para, em 1969, realizar seu magnífico Rei Lear. De quebra, no elenco de Dom Quixote, Nikolai Cherkasov, protagonista de Alexander Nevski e de Ivan O Terrível, ambos de Sergei Eisenstein.

 Sábado, dia 5, chace de assistir ao terceiro e ao sétimo colocados na lista dos melhores filmes de todos os tempos, segundo a Revista Sights and Sounds: A Regra do Jogo e Aurora, respectivamente. Em A Regra do Jogo, Jean Renoir usa e abusa da profundidade de campo, dos planos-seqüência e dos movimentos de câmera para mostrar que a única relação social permitida entre patrões e empregados acontece na cama. Em Aurora, o cinema mudo chega ao ápice na história do marido que tenta reconquistar a esposa em plena cidade grande, depois de, seduzido pela amante, quase matá-la.  A seqüência em que o casal, em crise, entra na igreja, assiste ao matrimônio de completos desconhecidos, reconciliam-se, beijam-se na rua e páram o trânsito figura entre as mais belas de todo o cinema.

A Bela da Tarde, Leão de Ouro em Veneza, marca o retorno de Buñuel à França (ele voltou ao México após Diário de Uma Camareira). A esposa e dona-de-casa, durante o dia, que se transforma em prostituta de tarde, revela a ironia do cineasta acerca do comportamento (especialmente sexual) da burguesia européia. Já Ouro e Maldição é o maior exemplo de mutilação sofrido por qualquer filme em Hollywood: o estúdio, sob o comando de Irvin G. Thalberg, reduziu os 42 rolos da versão original de Joseph von Stroheim (cerca de 9 horas) para apenas 10 (140 minutos). A força naturalista do longa, no entanto, permaneceu – dinheiro, ganância, ambição e sexo como motores da América, individualismo brutal que rompe a ética e destroça a alma.

 Trapaceiros é a oportunidade de ver Marcel Carné em roteiro próprio, sem a colaboração de Jacques Prevért – parceria que rendeu os inesquecíveis O Cais das Sombras, Os Visitantes da Noite e O Boulevard do Crime, que definiram o realismo poético francês. Giulietta Masina ganhou o prêmio de interpretação feminina em Cannes como a prostituta de Noites de Cabíria, talvez a obra mais querida de Federico Fellini. Antes das críticas ácidas à TV (Ginger e Fred), dos painéis sobre o desencanto da vida contemporânea (A Doce Vida), das misturas farsescas entre documentário e ficção (Roma e I Clown), dos falsos filmes memorialistas (Amarcord e E La Nave Vá), o diretor realizou esta tocante fábula ainda muito calcada no neo-realismo.

Para terminar, os Tesouros da Cinemateca exibem a versão restaurada (da diretora) de O Ébrio, dos maiores sucessos brasileiros de público , com Vicente Celestino, e Tereza, de Pavel Blumenfeld, expoente de uma geração que, nos anos 60, contava com Milos Forman, Ján Kádar, Elmar Klos, Vojitech Jasny, entre outros. O novo cinema tcheco, entretanto, foi esmagado pela Primavera de Praga – o próprio Blumenfeld não filmou mais após a invasão soviética de 1968.

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