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Control


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Publicado em 25 de Junho de 2008

Ian Curtis e o Controle do Próprio Destino em Control

Control, de Anton Corbjin

Suicidas geralmente são vistos como fracos ou desesperados. Muitos que já viveram a experiência de ter pessoas próximas mortas desta forma, por vezes não tem compaixão, mas sim ódio pelos suicidas. Acham que aqueles que optaram por dar fim à própria vida preferiram a solução mais fácil e covarde, e não a mais difícil, que seria a de permanecer e enfrentar as dificuldades e perigos de um mundo perverso e caótico. Geralmente esse sentimento aumenta quando se trata da morte suicida de estrelas do rock. Quando Kurt Cobain foi encontrado morto com um tiro na cabeça nos anos noventa, ganhou destaque o comentário raivoso de Gene Simmons, do Kiss, afirmando em tom irônico que lamentou somente o fato de que Kurt, antes de morrer, não tinha deixado um cheque assinado, destinando toda sua fortuna a Simmons, já que o vocalista do Nirvana decidiu morrer e não iria, portanto, desfrutar da riqueza associada à fama.

Sensação diferente nos traz Anton Corbjin na direção de seu mais recente filme Control. Na película é apresentada a cinebiografia de Ian Curtis, vocalista da mítica banda inglesa Joy Division, morto precocemente ao se enforcar em casa, com somente 23 anos, às vésperas da primeira turnê norte-americana da banda, em 1980. O músico, naturalmente depressivo e epiléptico, é interpretado magistralmente pelo jovem ator britânico Sam Riley, que consegue com sua atuação imprimir todo um traço de singeleza na atormentada personalidade de Ian Curtis, o que nos faz ver com carinho e proximidade o drama vivido pelo vocalista do Joy Division.

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Trailer do filme Control

Não há como não se identificar com as tragédias pessoais sofridas pelo personagem principal do filme, romanticamente dedicado à tarefa de se tornar uma estrela do rock junto com seus parceiros de banda, e, ao mesmo tempo, mergulhado em sua vida dupla de artista poético e jovem pai de família. O dilema que passa a cercar Curtis, na constatação dolorosa do erro cometido ao se casar tão cedo e a incapacidade de romper a relação com a esposa Debbie, e manter o romance idílico com Annick, a amante belga, reflete muito das aflições que poderiam atingir ou já atingiram qualquer um de nós, no difícil amadurecimento da vida adulta, onde por vezes os desafios e obstáculos parecem espinhosos demais. Soma-se a isso uma crise pessoal intercalada de ataques epilépticos, que, somados à medicação usada pelo personagem, e os típicos excessos da juventude no velho estilo sexo, drogas e rock’n roll, apresentará um quadro de decomposição existencial que acabou por fazer que Ian Curtis adotasse a solução final, e nem sempre a mais simples.

O filme, todo rodado em preto e branco, revela o propósito da estética utilizada na fotografia por Corbin, apresentando uma Manchester cinzenta e fria, típica da ressaca do fim dos anos setenta, com a decadência do punk rock pelo fim dos Sex Pistols (inclusive os componentes do futuro Joy Division se conhecem exatamente no último show da mítica banda de Johnny Rotten), numa Grã-Bretanha marcada pelo desemprego, pelos conflitos com a Irlanda do Norte e pelas incertezas típicas da crise de uma sociedade urbano-industrial. Ian Curtis, inclusive, trabalhava numa agência de empregos, e é nesse trabalho que ele se depara, pela primeira vez, aterrorizado, com os efeitos macabros da epilepsia.

Control consegue a proeza de ser uma boa cinebiografia sobre ícones do rock, sem parecer caricato como a história de outras lendas do rock como Elvis Presley ou Jerry Lee Lewis. Até mesmo o Jim Morrison interpretado visceralmente por Val Kilmer no filme de Oliver Stone, The Doors, parece fraco e datado em relação a um personagem bem mais tímido e introspectivo como Ian Curtis. Talvez para alguns a atuação de Riley se equipare a de Joaquin Phoenix, indicado ao oscar por ter interpretado Johnny Cash no cinema, no ótimo Johnny & June. De qualquer forma, a curta, mas desesperada vida do vocalista do Joy Division parece ter recebido uma homenagem à altura, através do talento de um diretor acostumado a lidar com artistas de rock enquanto fotógrafo e diretor de videocilpes de grupos como U2 e Depeche Mode. O filme foi feito por um videomaker e cineasta que gosta de música e entende de música, fazendo com que obras como Control se tornem um verdadeiro testemunho de uma época, mais do que apenas a trajetória de vida de um músico talentoso e precocemente eliminado.

O filme é engenhosamente produzido para que, espontaneamente, possamos ver uma verdadeira trilogia sobre a banda inglesa precursora do New Order, através do primeiro filme 24 hour Party People (A festa nunca termina), dirigido em 2002 por Michael Winterbottom, que conta a história do Joy Division e da cena musical britânica dos anos oitenta, sobre o ponto de vista do produtor da banda, o empresário e produtor musical britânico Tony Wilson, morto de câncer no ano passado. Soma-se a Control o documentário Joy Division, que conta a história da banda através de entrevistas de seus integrantes sobreviventes, hoje atuais componentes da também histórica New Order.

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Registro de performance da banda Joy Division. Música: Digital

Assim, sem recriar forçadamente uma onda oportunista de revival da sonoridade dos anos oitenta, é interessante hoje, na primeira década do século XXI, acossados pelos movimentos emo e pela recriação do glam e do punk rock em novas manifestações musicais nem tão boas assim, trazer como lição para as novas gerações, histórias de vida dos principais ícones musicais do século passado, humanizando essas pessoas e não mais alimentando o mito em torno delas. Ian Curtis foi sim um típico jovem atormentado, como todos os de sua geração. E assim como ocorre até hoje em muitos jovens das grandes cidades, Ian sucumbiu não por não ter assumido o controle do seu destino, já que optou pela morte, mas por não ter conseguido obter o controle de sua vida. Talvez essa seja a lição mais difícil de busca.



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