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Uma noite de Mojica


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Publicado em 3 de Junho de 2008

No mês passado, o Rio de Janeiro foi brindado com o primeiro RioFan, Festival de Cinema Fantástico do Rio de Janeiro. O homenageado da edição foi o renomado cineasta brasileiro José Mojica Marins, conhecido por sua personagem maior, o Zé do Caixão.

A convite da Revista Moviola, Helil Neves, grande fã do mestre Mojica, assistiu a sessão e teceu escreveu as linhas que seguem:

Sessão homenagem a José Mojica Marins: A Praga – Trailer de Encarnação do Demônio.

Estava devendo uma conferida no RIOFAN, primeiro festival de cinema fantástico do Rio de Janeiro. Resolvi deixar essa conferida para a segunda semana do festival (começou dia 30 de abril), pois confiava que veria tudo na base das reprises. Esse erro monstruoso garantiu, por exemplo, que não conferisse Diário dos Mortos, o novo filme de George Romero – filme esse que vai direto para DVD, sem escalas em nenhum cinema no Brasil, fora a sessão de abertura do RIOFAN. Inveja dos sortudos que estiveram pelo Odeon…

Mas não adianta chorar a respeito do sangue derramado na tela que a gente não viu. O convite a escrever para a revista foi acerca do que eu podia falar, do que eu havia conferido. Notadamente, pediram que eu falasse sobre o Mojica. O caso é que das sessões homenagens, eu assisti apenas a uma. A sessão de Exorcismo Negro, tolamente eu perdi por acreditar que a cópia estaria em condições semelhantes à copia de Finis Hominis do MAM (arranhada, frames faltando…). Muito pelo contrário: exibiram uma cópia novinha; e eu que só vi este filme por VHS, tive que me recolher ao meu mal julgamento…

A sessão de Esta Noite Encarnarei em teu Cadáver eu perdi sem saber, achando que seria depois de À Meia Noite Levarei Tua Alma, quando foi ao contrário; foi exibida na semana que eu não me mexi.

A Meia Noite[…] eu planejara assistir, mas eu estava nas sessões do Estação Botafogo, pensando na hora marcada correr até a Caixa Cultural… os amigos me convenceram de que não valia a pena correr, que eu ia perder a hora, e que afinal de contas, A Meia Noite[…] (assim como o Esta Noite[…]) eu já vi mais de vinte vezes – inclusive no cinema.

Pois bem: sobrou pra eu assistir então a sessão de inéditos. Estava programado a ser exibido às nove da noite o média metragem A Praga, filmado em 1980 e finalizado ano passado, por força e coragem de Eugênio Puppo. Ainda teríamos de Bônus o Trailer de Encarnação do Demônio, o novo filme do Mojica, que, como sabemos, encerra a saga do Zé do Caixão, e mais trinta minutos desse filme. Bom demais pra qualquer fã. Eu estaria lá de qualquer jeito.
Ou ao menos foi o que pensei. Nossa história rende momentos engraçados, e tende a desobedecer a programas, não importando a importância dos mesmos. Não sei o quanto dessa história importaria aos leitores dessa revista, e como os fatos são irrelevantes também para a revista, deixemos pra lá os detalhes, e cortemos para a síntese factual, por mais que o rocambole fosse bem apreciável… Sou só um escritor convidado, gente. Essas liberdades podem não satisfazer os editores, e talvez até mesmo vocês. O que posso prometer é que esse preâmbulo tem uma função nessa estrutura.

Ora, vejamos. Estava eu na sessão das quatro da tarde na Estação Botafogo, quando J. me telefona pedindo pra não esquecer de levar para a sessão das nove o meu roteiro (um elefante branco que J. está me ajudando a pintar de cinza). Com isso me senti meio que forçado a correr em direção a Niterói, em busca do dito cujo – um pouco pelo telefonema, mais ainda pela luzinha que se alumiou em minha fronte ao ouvir aquela idéia – pois jamais teria tal coragem sozinho. No caminho, ainda houve tempo de encontrar B., a quem tinha avisado com antecedência sobre a sessão, e que não queria de modo algum perder o evento – mas curiosamente ainda estava em Niterói.
Já do outro lado da ponte, em meio a corridas contra o tempo – e eu digo corridas-corridas mesmo, com direito à perda de fôlego e o mais – pegar o que tinha de pegar, e voltar para Botafogo, tudo isso em meio a um ônibus que enguiçou, ainda conseguimos chegar em tempo.

Estávamos tranqüilos, de ingresso na mão e tudo certo. Só que resolvemos sair em busca de algo o que morder, e no caminho topamos com J. (a quem eu já telefonara na volta a fim de localizar). Pois bem: entre um B. com fome e J. que queria se arrumar, fiquei eu, o H. sem saber que horas seriam direito. O caso foi que perdemos vinte minutos da sessão, isto é: o relógio marcava nove e vinte.

Corremos ainda a ver se salvávamos alguma coisa, e eu já considerava esta crônica como perdida (eu não mais a escreveria), quando chegamos ao cinema e entramos na sala. Eram os créditos iniciais de A Praga.

A Praga

A Praga se utiliza de um argumento de Rubens Francisco Luchetti, antigo colaborador de Mojica, uma história originalmente escrita para televisão (o programa Além, muito além do Além da rede Bandeirantes, no ano de 1967), e que foi também adaptado para história em quadrinhos (desenhada pelo gênio Nico Rosso).

A Praga foi rodada em oito mm, sem som direto, e finalizada ano passado, com acréscimo de takes filmados em 2007. A estrutura do filme obedece ao jeito “bem brasileiro” que Luchetti impunha a seus textos (tanto para a televisão quanto para os quadrinhos). Encontramos semelhanças, por exemplo, com o episódio Pesadelo Macabro, do filme Trilogia do terror. Este filme, aliás, aproveitava argumentos de Luchetti para o programa da Bandeirantes, com três diretores diferentes (Candeias, Person e Mojica). Pesadelo Macabro é o segmento de Mojica.

As semelhanças na estrutura se fazem notar: o início onírico, o personagem assolado por pesadelos, a família/a mulher sempre querendo ajudar mas sem saber o que fazer, a procura de ajuda espiritual no candomblé… a inevitável fatalidade… São elementos que aproximam as duas histórias e nos mostram que são fruto da mesma mão. Mas há diferenças gritantes, também (pois senão seria como que um remake). O personagem de Pesadelo[…] sofre de premonições, enquanto que o personagem de A Praga é culpado com sua inconveniência de homem da cidade pelo infortúnio que o flagela. O primeiro acredita no sobrenatural, enquanto o segundo demora muito a crer. A culpa em Pesadelo[…] não está em ninguém, visto que foi a fatalidade que levou o casal a se esbarrar com os marginais, enquanto que em A Praga, a culpa está muito bem colocada sobre o protagonista, que não só sofrerá a maldição, mas também mudará de vitimado, passivo, para algo mais monstruoso: sua deformidade levará à paranóia, e esta a um caminho de destruição.

Fica nítido em A Praga o nível baixo do orçamento (não só pelo uso do 8mm, mas pela economia nos enquadramentos e dos cortes (principalmente nas externas)). O orçamento foi muito abaixo do que Mojica estava acostumado, mas isso não significa dizer que sua criatividade acompanhou essa mudança. Há momentos muito perturbadores, seja pela força do enquadramento, seja pela montagem, seja pela performance de Wanda Kosmo (último filme da atriz, e que é dedicado à sua memória). As seqüências de delírios, muito bem conduzidas, e com diferenças drásticas com as seqüências a que estamos acostumados a ver seja em Pesadelo Macabro, Ritual dos Sádicos, Delírios de um Anormal ou mesmo – se considerarmos a seqüência do Inferno como delírio – Esta Noite Encarnarei em seu Cadáver. Engraçado, no entanto, é notar, em meio a essa seqüência, alguns planos tirados de alguns desses filmes (por exemplo, um plano do cemitério de A Meia Noite[…]; Zé do Caixão se inclinando para beijar Márcia, em Esta Noite[…], etc.

Ainda sobre a seqüência de delírios, devemos comentar da inteligência de aproveitar até mesmo as condições em que a matriz se encontrava: algumas cenas dos delírios (notadamente aquelas em que aparecem mortos esquecidos nas ruas), os planos estão bem deteriorados, meio com a emulsão que se desfez. Isso é aproveitado como elemento dramático dentro do delírio, e francamente, não sei dizer o quanto isto foi sagacidade de encontrar o material assim e aproveitá-lo diegéticamente, ou se isso fora pensado já de antes. Bem, para isso existem as entrevistas… fica em aberto a quem quiser se aventurar.

Um aspecto que não quero esquecer de comentar, é sobre os diálogos. Em alguns momentos notei que as pessoas riam da forma com que eles foram escritos, uma vez que não são parecidos com o que estamos acostumados a ver hoje, e tampouco são naturais. Cheguei a comentar com B. que antigamente os escritores gostavam de escrever assim, tipo o Chris Claremont. Rir disso é possível, mas não deixa de ser uma bobagem, pois trata-se simplesmente de um estilo (talvez hoje superado, mas ainda assim um estilo da época), e, poxa vida, não há filme que não sofra com o tempo. Rir-se disso chega a ser uma covardia, e talvez falta de algo mais importante a fazer, rir-se de escritores que estão aí há mais tempo e com a vida literária já ganha e consolidada. Luchetti escrevia assim (ou escreve, não tenho o acompanhado em seus últimos trabalhos), Aldenora de Sá Porto (que escreveu os diálogos de Esta Noite[…]) também, e, porque não?, até mesmo gente como Clark Ashton Smith também. Então, é bom esse povo tomar um pouco mais de consciência do processo que é saber escrever, desde antes da imprensa, e chegando ao trabalho milimétrico de um Guimarães Rosa, antes de pretenderem se sentir superior a alguém.

Sobre as seqüências adicionais, são na verdade a inclusão de um expediente usado nos quadrinhos de terror (e nos do próprio Mojica), em que temos a figura de um apresentador, que inicia, conduz e conclui a história. O programa de televisão era assim, os quadrinhos do Mojica são assim, mas seus filmes não são assim. Trilogia do terror, nenhum dos contos usa tal expediente. O Estranho Mundo de Zé do Caixão também não usa (apesar do Zé do Caixão aparecer para introduzir os créditos, como em todos os filmes aqui citados – a excetuar o Trilogia[…].
Pesadelo[…], aliás, sem usar desse expediente, consegue se conduzir esplendidamente bem. A Praga, como foi concebida, era pra ter um desenvolvimento assim. A inclusão do mestre de cerimônias, o narrador, é explicável por isso por conta da metragem do filme. Além do que, a imagem do Zé do Caixão é o plus que atrairá o público de hoje. Não basta mais ser um filme de José Mojica Marins: Tem de ter o Zé do Caixão. Isso na verdade é um pouco chato, pois bem que gostaria de ver esse filme sem ter um narrador (não importa que seja o Mojica!!!) toda vez a fazer digressões. Isso pode funcionar muito bem nos quadrinhos (em que as imagens do Zé eram não em desenho, mas fotografias). Mas na condução de um curta, creio que isso trava um pouco a película, que aliás, não dependeria em nada desse recurso para funcionar.

Pra concluir sobre A Praga: quem leu a versão dos quadrinhos sabe como termina a história, mas adianto que a execução fílmica é poderosa, não perde em impacto nem um tiquinho, e não deixa rastros para nenhuma risada.

Perguntas

Acabou a sessão de A Praga, e achávamos que era tudo o que conseguíramos ver. Dali pra frente, abriram para a conversa com o Mojica. Ele fez uma daquelas famosas entradas, apresentou o Dennison (Ramalho, co-roteirista e assistente de direção do Encarnação[…]), agradeceu a Eugênio Puppo e fez votos de que a mostra de Puppo, com a coleção de todos os filmes de Mojica, viesse para o Rio.

Antes de abrir para as perguntas, perguntou se alguém já tinha visto o trailer de Encarnação[…]. Lá de trás, nós três gritamos a plenos pulmões: NÃAAAAAAOOOOOOOO!!!!! Foi engraçado, rimos muito, porque afinal veríamos o trailer, a despeito de acharmos que tínhamos perdido essa chance.

Lembro agora de, há muito tempo atrás, uns três anos, talvez, em que um camarada definiu mais ou menos assim, o Encarnação do Demônio, depois de ter uma conversa com o Dennison: uma espécie de Cavaleiro das Trevas (a HQ de Frank Miller, e não o filme do Christopher Nolan). Pelo início do trailer, deu pra entender o que ele quis dizer. Ouvimos uma conversa, como de investigadores, em meio a uma pilha de cadáveres espalhados num lugar escuro, úmido e francamente horrível. Um deles não acredita e pergunta se aquilo é mesmo obra de um único homem. Ouvimos também no trailer um comentário de Zé do Caixão, que zomba das pessoas (do telespectador, o que é fantástico!!) de que elas pensavam que ele esta velho, acabado, não renderia mais nada… Essa zombaria tem todo um sabor especial para os fãs, já que se aplica não só ao personagem Zé, mas ao próprio Mojica Marins (sei de muita gente que duvidou de sua volta). O trailer não deixa espaços para brincadeiras. Assim como o Batman envelhecido de Miller, Zé do Caixão volta com força total, e muito mais violento do que antes.

Essa foi a tônica para a solução do problema da diferença de idade do personagem de um filme para o outro (o espaço entre Esta Noite[…] e Encarnação[…]); acho que todos já sabem, mas Dennison Ramalho conseguiu solucionar o problema simplesmente jogando o personagem no xadrez, ao contrário do que acontece em Esta Noite[…] em que ele é inocentado. Só para termos uma idéia de como o personagem não ficou simplesmente hibernando na cadeia, lá ele liquidou com uma porção de meliantes que lhe ameaçaram de uma forma ou de outra. Mesmo guardado, Zé do Caixão é Zé do Caixão.

Adendo: acho que todos ficamos felizes com isso, pois seria difícil imaginar um filme de Zé do Caixão com outro intérprete que não Mojica. Existem no filme cenas em que outro ator (o americano Raymond Castile) vive o Zé, mas é minoria, e imagino que seja só para a transição Esta Noite[…]/Encarnação[…]. O Zé do Caixão ainda é Mojica (e sempre será), e agradecemos todos muito ao Dennison por isso.

A sessão de perguntas foi muito interessante, e um dos casos que quero aqui lembrar, foi quando um colega perguntou sobre a diferença radical entre a produção de Encarnação[…] e a dos outros filmes da saga, em que a diferença de orçamento modificaria o caráter trash dos outros filmes, em que havia a falta de recursos dita uma comicidade. Bem, primeiro que não concordo com a definição do amigo do que é trash. Não cabe aqui dissecar sobre isso, mas acho válido falar aqui um pouquinho, sim. Trash não é quando por conta da falta de recursos você procura fazer graça em cima disso. Os filmes de Ed Wood, por exemplo: eram bem sérios, ele filmava levando aquilo tudo com seriedade (quem viu a cinebiografia de Tim Burton há de concordar). Os demais produtores classe Z também. Esse lance de procurar uma estética trash, é um fenômeno da pós-modernidade, uma brincadeira com esses filmes Z. A Troma, por exemplo (podutora de filmes como Toxic Avenger), procura essa pobreza de recursos enquanto estética, mas isso porque antes já existia filmes de baixo orçamento toscos, que os diretores curtiam, e por isso, eles meio que antropofagisaram essa forma para fazerem seus filmes. Por exemplo, os filmes de Tarantino não são B. Eles brincam com elementos da cultura dos filmes B. Em miúdos: Pós-modernidade.

Os filmes do Mojica não se enquadram nessa categoria. Não são filmes que procuram fazer graça com a falta de recursos, e nem são ruins como os chamados filmes Z (ou trash, vá lá). Trash acontece. Seja pela inépcia do diretor, seja pela falta de capricho na arte, seja por defeitos quaisquer, um filme pode acabar se enquadrando nessa categoria sem querer. Mas os filmes do Mojica não se enquadram. Primeiro, porque esse fenômeno B, Z etc. é americano, e não da nossa realidade brasileira (um livro esclarecedor sobre o assunto é A Outra Face de Hollywood: Filme B de A. C. Gomes de Mattos). E segundo, porque os filmes do Zé do Caixão são muito bem realizados, a despeito da pobreza da produção. Filme de baixo orçamento não necessariamente é sinônimo de filme ruim/trash. Nós brasileiros já devíamos ter notado isso há muito tempo (e homens como Sganzerla já o notaram não é de hoje).

A parte mais fraca de A Meia-Noite[…] ou de Esta Noite[…] se refere à algumas atuações, mas esse mal não é privilégio dos filmes do Mojica, mas sim do cinema brasileiro da época quase todo. Achar que isso é coisa de Zé do Caixão, e por isso uma característica trash, é não conhecer a história do nosso cinema.

Mas Mojica respondeu muito bem; disse que ele nunca procurou fazer essas gracinhas que hoje muita gente procura fazer ou enxergar nesses filmes, aquela filosofia de “quanto pior, melhor”. Ele usou sim, muitas vezes, de senso de humor [negro], até para aliviar a tensão (me lembro agora das tiradas sarcásticas de Zé do Caixão aos homens do bar, ou ainda a passagem – muito lembrada por Reichenbach – de quando Antônio oferece fogo para o cachimbo de Zé).
Digo que esse é um humor muito sofisticado e corajoso – e não tem nada que ver com as trapalhadas de um Vingador Tóxico, ou mesmo com as asneiras de um Bruno Mattei (quem viu Hell of the Living Dead sabe do que estou falando, e o quanto é injusto dizer que o Mojica é trash).

Encarnação[…] teve um orçamento muito maior, mas isso não quer dizer que de trash Mojica passou a ser sério. Não!! Mojica sempre foi Mojica, e essa experiência com a Olhos de Cão (produtora do Paulo Sacramento) simplesmente proporcionou a chance pedida por Sganzerla, de que dessem enfim um orçamento digno que Mojica sempre mereceu e nunca teve, até agora. (Ainda assim, não foi um orçamento Hollywoodiano).

Fim de Noite
Antes de terminar, quero ainda narrar de quando eu mesmo me aventurei a fazer uma pergunta ali na platéia.
Em meio os créditos finais de A Praga, notei que a fotografia do filme era assinada por Giuseppe Romero, e não do habitual colaborador do Mojica, o saudoso Giorgio Attili (fotógrafo da maioria dos filmes dele, inclusive dos clássicos com Zé do Caixão). Quando me foi passado o microfone, contei de que observara essa ausência em A Praga, e pedi então que o Mojica falasse um pouco sobre o Attili, coisa essa que achei muito importante, até para aquelas pessoas que não conheciam a relação e colaboração dos dois.

E foi muito bonito o Mojica falando. Ele explicou que A Praga foi rodado em 8mm, um formato que não era da especialidade do Attili, e por isso mesmo, os dois concordaram que não fazia sentido em ele fazer aquele projeto (Attili ter que se adaptar e aprender os códigos do formato. Mas que, pra ele, Mojica, Giorgio Attili era o maior fotógrafo que ele já conheceu, o maior do Brasil, com certeza. E que era para ele doloroso o fato de Attili não estar mais entre nós para estar na produção de Encarnação[…]; disse que Attili queria muito concluir a saga (não vamos esquecer que ele fotografou À Meia Noite[…] e Esta Noite[…]); era um dos sonhos do Attili.

Disse ainda que, o Zé Bob, o fotógrafo de Encarnação[…], ciente disto, veio conversar a sós com ele, Mojica, e lhe disse que sentia o mesmo. Ele veio e disse: “eu compreendo, Mojica. Quem devia fotografar esse filme era Attili. Mas, Mojica, eu entendo isso. E por isso, eu quero ser Giorgio Attili”.

Achei muito bonito esse depoimento, e gostaria que ele fosse ouvido por mais pessoas. Contribuo aqui contando mais ou menos como foi. Sei que foi emocionante, pois, mais tarde, conversando com os amigos naquela noite, J., que havia saído momentos antes a correr em casa em busca de sua edição de Maldito – a vida e a obra de José Mojica Marins – a fim de pedir um autógrafo – queria saber como foi. Ao invés deu mesmo contar, pedi à B. que contasse. E sua impressão não foi menor que a minha. Por isso sei que foi muito bonito, e espero ver em futuros eventos, ou mesmo nos extras do DVD de Encarnação[…], um momento do Mojica a falar um pouco sobre o velho amigo.

Foi por essa impressão outra que não a minha própria – a impressão de B. sobre o depoimento sobre Attili – que achei próprio adotar esse tom de crônica, ao invés da crítica. Devo dizer ainda, que em verdade, nem J., nem B., nem eu perdemos nada, naquela noite. Com todo o nosso atraso (meia hora, mais ou menos), conseguimos ver tudo, graças a um problema com os trinta minutos de Encarnação[…]. Os trinta minutos não foram exibidos graças a isso, e nós, por assim dizer, chegamos na hora certa.

Resta dizer que ao fim, J. e eu entregamos o elefante. A mais que isso, o futuro dirá, e portanto não é mais da alçada dessa noite gostosa, nem dessa sessão maravilhosa. Com isso, me calo.

Helil Neves é formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense e é grande fã de mestres do terror como Mário Bava e o próprio José Mojica Marins.

Assista o trailer de Encarnação do Demônio

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1 Commentário sobre 'Uma noite de Mojica'

  1.  

    9 Junho, 2008| 4:02 pm


     

    Ótima sua crônica/crítica Helil. Parabéns!
    Não vejo a hora de assistir a este filme esperado por décadas!

    abs
    Dimitri

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