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Reds e Urbano



Ismar Tirelli Neto

Reds

eu vivo só mas ningúem sabe
num sonho de portas pantográficas
meados de maio
com chuva e livros pelo chão
eu vivo só mas ninguém sabe
monto tendas na varanda
chaveio descampados
e apago as luzes
daqui só se vê Vênus
eu vivo só e ninguém sabe
de vez em quando eu tomo o telefone nas mãos
penso em ligar pralguém bastante remoto
e dizer
você não sabe
que eu vivo só
e no entanto
pôr a verbo um mês do ano
uma estação
um número
qualquer
ajuda
eu esqueço
não entendo por que deveria ser tão difícil
não gosto das não me conformo com
as rachaduras nessa gente
eu vivo só (dez tons acima)
ninguém vota em mim
eu vou a casamentos
e chás de panela
e chás de bebê
e open rooms
e lançamentos
e bares
e discotecas
e a outros países desse absurdo sudamérico
ninguém vota em mim

Urbano

sobre flores:
jogar no lixo a rosa murcha do aniversário
expiação mediante vasinho de violetas
tirar poeira da margarida de plástico
sobre o arquivo
minha amiga alérgica a pólen
diz que é entrar num orquidário
e começa a espirrar
minha mãe se alarga toda
quando aventa:
peixe é um bicho estúpido
não, não sei, mas é de considerar
talvez
o vago parentesco entre a flor, o peixe
e o terremoto, o furacão
evito pisar na grama
na areia
cheiro de canteiro molhado me põe nervoso
a ameaça constante do que espreita por nascer

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Ismar Tirelli Neto é um carioca das letras e da música. Contista, poeta e vocalista da banda Subterrâneos. É também autor do blog A Arte Perdida do Romance Epistolar.


Publicado em 2 de June de 2008


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