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Muro


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Publicado em 2 de Junho de 2008

O curta-metragem Muro, do pernambucano Tião (Bruno Bezerra), voltou de Cannes com um representativo prêmio na bagagem. Escolhido para exibição na Quinzena dos Realizadores, mostra paralela que ocorre durante o festival, o filme recebeu a honraria Regard Neuf (novo olhar) – instituído pela primeira vez nessa última edição.

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Muro foi um dos quatro curtas-metragens brasileiros selecionados para a 61ª edição do festival, que aconteceu de 14 a 25 de maio. A Revista Moviola conversou antes do festival com Tião e com a carioca Fernanda Teixeira, diretora do curta-metragem A Espera. Além deles, nessa edição também foram selecionados do Brasil os curtas O Som e o Resto, do também carioca André Lavaquial e Areia, do paulista Caetano Gotardo.

Muro estreou em Cannes. Sua primeira exibição pública foi a que lhe rendeu o que será, muito provavelmente, o mais importante prêmio da carreira do filme. Uma semana antes de começar o festival, Tião estava às voltas no Rio de Janeiro com a finalização do curta-metragem. Filmado em super 16mm, o filme passou por uma ampliação para 35mm em formato cinemascope. É um processo caro, que somado a todos os outros tantos gastos da produção, contabilizou um total de R$ 120 mil.

O financiamento veio de editais de incentivo dados pela prefeitura de Recife e pelo governo de Pernambuco, além de um outro para a finalização. Mesmo assim, o dinheiro não foi suficiente e familiares entraram bancando mais uma parte do filme para concluir a empreitada. Muro está alinhado com uma pequena parcela dos curtas-metragens produzidos no Brasil anualmente: é um filme fomentado pelo Estado. A grande maioria dos curtas-metragens vistos nos muitos festivais que acontecem durante todo o ano, entretanto, são produzidos ou em escolas de cinema ou de forma independente.

Para se ter uma idéia do tamanho da produção brasileira, basta observar um dado recente. O edital de curtas-metragens promovido pelo Ministério da Cultura, o famoso edital do Minc, recebeu 1.105 inscrições. Mas apenas dez escolhidos receberão, cada, a quantia de R$ 80 mil para produzir seu filme.

E um curta-metragem vale todo esse dinheiro? Tião pondera: “É estranho se você faz conversões e pensa, por exemplo, quantas milhares de cestas básicas poderiam ser compradas. E tem essa coisa na arte que é você dizer quanto vale, quanto custa. R$ 120 mil é muito, mas ao mesmo tempo pode ter alguém que ache que vale mais do que R$ 120 mil. O preço da arte é muito estranho de definir”. Tião ainda faz uma ressalva, pois todo o dinheiro foi investido no filme. Do montante, nada ficou com ele a título de salário.

O fato é que fazer cinema é muito caro e qualquer cineasta de primeira viagem sabe disso. Muro foi rodado à cinco horas e meia de Recife, em uma comunidade chamada Conceição de Cima, localizada no distrito de Serra Talhada. Cerca de 70 atores participam do filme, garimpados pela produção entre os moradores da região. “Tivemos uma produção muito pesada, uma direção de arte pesada… Tivemos que passar quase dois meses morando lá, conhecendo as pessoas, preparando o elenco.”

O filme só contou com uma atriz profissional, Inaê Veríssimo, do grupo Totem. Além dela, participou do projeto o músico José Humberto, que tem um grupo de teatro amador em Serra Talhada. Tião não o conhecia, descobriu-o na própria localidade, quando fazia testes para o filme. “O resultado é muito legal. Tem alguns que são atores natos.” Além deles, apenas o ator Jorge Queiroz, que embora tenha participado das filmagens, não está no filme. “No final a cena não entrou. Ficava muito melhor sem ela por causa do conceito do filme.”

Jorge Queiroz atuou no curta-metragem anterior de Tião, Eisenstein, que foi dirigido também por Leonardo Lacca e Raul Luna. Eisenstein, a primeira experiência de Tião como diretor, rendeu vários prêmios para o trio e rodou muitos festivais no país. Tião também protagonizou o filme, fazendo o papel de Ivan, um cara que idolatra o cineasta russo.

O prêmio para rodar Muro saiu antes das filmagens de Eisenstein, feitas com câmera digital. No entanto, pelo porte do filme e pela então inexperiência, preferiram adiar um pouco o projeto. Na hora de realizar o Muro, Tião precisou se adaptar a como filmar em película. Chamou um fotógrafo experiente (Pedro Urano), pediu muitas latas de negativos e concentrou as filmagens em seis dias. O maior problema, como explicou o diretor, é que o aluguel de uma câmera de cinema é muito caro. Assim, tudo precisou ser rodado em menos tempo. “O estilo de produção, a correria e o estresse, deixam algumas coisas ‘dormentes’. Eu até filmaria de novo em película, mas não faço muita questão. O processo do filme tem que ser tão prazeroso quanto assistir a um, fazer um roteiro. De alguma forma isso fica impresso. Eu quero fazer filme com meus amigos, mais tranqüilo. Quero fazer mais do jeito que eu quero.”

Mas Tião não acha que o estresse das filmagens resultou em um filme pior. “Tive sorte de terminar meus filmes gostando deles. Têm casos que o roteiro é melhor que o filme, que se a pessoa conseguisse fazer com mais calma, o resultado não seria um cover do filme.”

Mas afinal, que filme é esse Muro? “É um pouco sobre a relação entre algumas pessoas e um lugar meio remoto, meio amplo e, mais ou menos, como o progresso se move. Acho que ele toca um pouco no progresso.” Tião explica, ainda, que trabalhou sobre o conceito de progresso que desloca-se como uma seta, avançando. “Mas como todo movimento, ele tem forças que vão para todos os lados.” É também um filme sem localização geográfica, embora para o espectador, o sotaque característico o localize no nordeste. Se ainda não ficou claro, talvez a sinopse ajude: “alma no vazio, deserto em expansão”.

Pedi a Tião para assistir ao filme. A resposta dele foi assim: “Gostaria muito que as pessoas vissem o filme primeiro no cinema, com uma boa projeção, som, como deve ser. Tenho certeza que você, como realizador, me entende nesse aspecto.”

A verdade é que, por mais que as novas mídias sejam tratadas com entusiasmo, sites como o Youtube estejam revolucionado o nosso trato diário com a imagem em movimento, a experiênciação da sala escura ainda é a forma mais impactante de apreciar uma obra de arte. Com a chancela que traz de Cannes, Muro será um filme acessível e não deverá ser difícil assisti-lo em breve.

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