
Revista Moviola: Antes de te encher de perguntas que tal você indicar uma música para que os leitores da Moviola comecem a ler esta entrevista com trilha sonora?
JP Cuenca: Eu recomendaria a trilha sonora do “Ascenseur pour l’echafaud”, do Miles Davis. Para dar um clima.
Revista Moviola
: Quais as primeiras obras que te seduziram?JP Cuenca: Comecei a ler muito cedo. Aos cinco, seis anos de idade já lia livros de aventura, Júlio Verne, Stevenson, Monteiro Lobato e muita história em quadrinhos. E, pouco depois, Alan Poe, Conan Doyle, Simenon, Agatha Christie… E Machado, Graciliano, Pessoa… Depois li Dostoievski e nunca mais fui um moleque normal.
Revista Moviola: Quando surgiu a idéia de escrever O Dia Mastroianni?
JP Cuenca: A verdade é que senti necessidade de escrever um romance que me divertisse e me fizesse rir. O Corpo presente foi um livro muito complicado de escrever, e meu segundo livro estava muito hermético e impressionista, tanto que resolvi guardá-lo na gaveta. Acabou que o Dia… ficou muito mais ácido, crítico e amargo do que eu poderia imaginar. Isso não é ruim, acho interessante chegar a um resultado final que não esperava no início da escritura. A literatura pra mim está cheia desses jogos imprevisíveis.
Revista Moviola: O que você estava fazendo aos 21 anos, a idade mágica do personagem Pedro Cassavas?
JP Cuenca: Sendo tão idiota quanto ele. Ou talvez mais.
Revista Moviola: Qual era o sentido original do termo Dia Mastroianni e quem são Antonio, Chico, Fabrício e Paulinho que estão nos agradecimentos?
JP Cuenca: O sentido original do termo é parecido com aquela definição que está no início do livro. A diferença é que meus amigos acreditam num “Dia Mastroianni” de chinelos, coisa que Pedro Cassavas, que é um pretenso dândi, não consideraria possível. Antonio, Chico, Fabrício e Paulinho são amigos que tenho em São Paulo.
Revista Moviola: Como você chegou até o
JP Cuenca: Christiano é meu amigo e foi imposição minha à editora. Pra mim, é o melhor artista gráfico do país.
Revista Moviola: Como você caracteriza o romance de geração no qual seu segundo livro está inserido?
JP Cuenca: Uma das leituras que o livro já teve, dentre muitas, é a de se tratar de uma sátira a romances de geração… São esses livros que são lançados de vez em quando e que geram identificação forte entre uma faixa “generacional”, muitas vezes virando sinônimos ou traduções fiéis de uma época ou estado de espírito.
Revista Moviola: Li o livro “de uma vez só” como Marçal Aquino diz que fez com o seu primeiro livro, Corpo Presente. Você, quando está no meio do processo de criação, pensa nessa ânsia do leitor para ver o que acontece até o último ponto?
JP Cuenca: Confesso que quando estou no meio do processo de criação é como se o leitor não existisse. Escrevo para minha própria leitura. E aí, posso ficar mais tempo do que o leitor vai levar lendo o livro inteiro pensando numa só frase, num parágrafo problemático, até encontrar uma solução que me agrade.
Revista Moviola: Existe um pouco do Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires na cidade “caleidoscópica e impossível” do livro?
JP Cuenca: Sim, e bastante de Paris, Cairo, Londres, Praga, Roma, Tóquio e outras cidades para onde fui nos últimos anos.
Revista Moviola: Como nasceram os personagens Pedro Cassavas e Tomás Anselmo?
JP Cuenca: Quis trabalhar um pouco
Revista Moviola: Você pode nos ensinar como pronunciar o sobrenome do personagem Monsieur Mxyzptlk?
JP Cuenca: Por quê? Você não consegue?
Revista Moviola: Dá pra dizer que ele ou Pedro Cassavas tem pedaços de tua personalidade? Ou tudo que você escreve é a mais pura ficção?
JP Cuenca: A resposta para as duas perguntas é a mesma: sim.
Revista Moviola: Como é responder as mesmas perguntas sobre o mesmo livro? Isso acontece, não?
JP Cuenca: Acontece. Existem três soluções: 1. Desenvolver técnicas de dizer a mesma coisa com frases diferentes. 2.Inventar respostas novas, de preferência que contradigam a opinião dada na entrevista anterior. 3. Copiar e colar respostas antigas. Uso as três soluções alternadamente.
Revista Moviola: Você foi à Natal, minha cidade, lançar o livro. Como foi a recepção lá?
JP Cuenca: Foi incrível. Minha ida foi organizada pelo amigo escritor Carlos Fialho, do Jovens Escribas, coletivo de escritores de Natal. Lancei o livro na Limbo Livros Selecionados, uma livraria sensacional (eles levam a sério o “selecionados” no nome). Tive um retorno excelente de mídia, trouxe livros de autores locais e fortaleci amizades. Grande viagem. E depois ainda fui para a Feira do Livro de Mossoró, no interior do estado.
Revista Moviola: O que acontece realmente para o escritor na noite de lançamento de um livro? O que você sentiu durante a estréia do Dia Mastroianni na Livraria Travessa, de Ipanema?
JP Cuenca: O que eu senti? O de sempre: pânico. Certa vez escrevi uma crônica sobre o tema. Lançamento de livro é um perfeito simulador de enterro. Dá pra ter uma boa amostragem do seu próprio velório.
Revista Moviola: Como seria a história se ela fosse narrada a partir do ponto de vista da
JP Cuenca: Acho que seria muito diferente. Pedro Cassavas seria praticamente um santo… E Tomás Anselmo, um canalha, no fim das contas. Pense nisso.
Revista Moviola: A ação do Dia Mastroianni se passa em um dia, começa às 10:32 e entra pela meia-noite. Isto me remeteu a Ulisses, de James Joyce, cuja ação também se desenrola em um único dia, 16 de junho de 1904. Há alguma referência a esta obra?
JP Cuenca: Não exatamente. Se bem que, se você procurar ali no meio…
Revista Moviola: É comum ouvirmos que não dá para viver de literatura. Você concorda?
JP Cuenca: Sim, sim, claro. Mas não agüento mais ouvir escritores e “artistas” em geral reclamando do tamanho do mercado, e que não tem dinheiro, e que a mesada está curta… Esse assunto simplesmente não me interessa e ultimamente tem me dado engulhos.
Revista Moviola: E viver a literatura, dá?
JP Cuenca: Isso, sim. Dá pra viver a literatura. É o que tento fazer.
Revista Moviola: O Dia Mastroianni daria um bom filme? Qual diretor você acha que faria uma boa adaptação para as telas?
JP Cuenca: Acho que sim. Eu chamaria o Wes Anderson – ou o Michel Gondry, que faria um filme totalmente diferente.
Revista Moviola: O que vem depois desse livro?
JP Cuenca: O romance do Japão, eu espero. E depois, uma vida longa e próspera.
Revista Moviola: Será que temos a chance de chamar a atenção da mirada de Pedro Cassavas ou, como no livro, tudo desaparecerá atrás de nós quando você terminar de responder?
JP Cuenca: É uma notícia triste que tenho que dar ao leitor da Moviola. Mas, realmente, depois que você terminar de ler essa entrevista, as frases acima, uma após a outra, irão imergir num caldo escuro. E, depois, o computador, a mesa, o quarto, o apartamento e o prédio onde você está irão desaparecer. E, com eles, você, leitor, e todas as suas lembranças, e todos os que conheceram você, e todos os conhecidos
deles e assim até o fim. Até que…

Leia também entrevista com o escritor Daniel Galera publicada no Rolo 2 da Revista Moviola.