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João Paulo Cuenca


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Publicado em 2 de Junho de 2008

João Paulo Cuenca está entre os nomes aclamados da geração 00 da literetura. Vários escritores estrearam seus primeiros livros na década de 2000. Cuenca começou sua trajetória com Corpo Presente (2003). No final de 2007, lançou seu segundo livro, O Dia Mastroianni. Os jovens personagens desse livro flanam pelas ruas, mesmo que rumo a lugar algum, e se entregam aos arroubos juvenis: bebida, drogas, sexo e conversas com estranhos. Em entrevista à Revista Moviola, Cuenca revela como começa o seu caso de amor com a literatura, recorda sua obra de estréia e nos leva aos bastidores dos personagens do O Dia Mastroianni.

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Revista Moviola: Antes de te encher de perguntas que tal você indicar uma música para que os leitores da Moviola comecem a ler esta entrevista com trilha sonora?

JP Cuenca: Eu recomendaria a trilha sonora do “Ascenseur pour l’echafaud”, do Miles Davis. Para dar um clima.

Revista Moviola: Agora vamos lá! Quando começa o seu encantamento pela literatura? Poderíamos dizer que é um caso de amor?

JP Cuenca: É um longo caso de amor, com seus eventuais desentendimentos e ciclos de paixão. Começou quando passei a compulsivamente criar narrativas que faziam sentido dentro da minha cabeça de criança. Dessa época vem a lembrança dos meus primeiros caderninhos, cheios de desenhos, colagens etc. Continuo fazendo a mesma coisa desde os quatro anos de idade. A diferença é que, agora, essa criação repercute dentro de outras cabeças. O que me parece fantástico.

Revista Moviola: Quais as primeiras obras que te seduziram?

JP Cuenca: Comecei a ler muito cedo. Aos cinco, seis anos de idade já lia livros de aventura, Júlio Verne, Stevenson, Monteiro Lobato e muita história em quadrinhos. E, pouco depois, Alan Poe, Conan Doyle, Simenon, Agatha Christie… E Machado, Graciliano, Pessoa… Depois li Dostoievski e nunca mais fui um moleque normal.Capa do livro O Dia Mastroianni

Revista Moviola: Quando surgiu a idéia de escrever O Dia Mastroianni?

JP Cuenca: A verdade é que senti necessidade de escrever um romance que me divertisse e me fizesse rir. O Corpo presente foi um livro muito complicado de escrever, e meu segundo livro estava muito hermético e impressionista, tanto que resolvi guardá-lo na gaveta. Acabou que o Dia… ficou muito mais ácido, crítico e amargo do que eu poderia imaginar. Isso não é ruim, acho interessante chegar a um resultado final que não esperava no início da escritura. A literatura pra mim está cheia desses jogos imprevisíveis.

Revista Moviola: O que você estava fazendo aos 21 anos, a idade mágica do personagem Pedro Cassavas?

JP Cuenca: Sendo tão idiota quanto ele. Ou talvez mais.

Revista Moviola: Qual era o sentido original do termo Dia Mastroianni e quem são Antonio, Chico, Fabrício e Paulinho que estão nos agradecimentos?

JP Cuenca: O sentido original do termo é parecido com aquela definição que está no início do livro. A diferença é que meus amigos acreditam num “Dia Mastroianni” de chinelos, coisa que Pedro Cassavas, que é um pretenso dândi, não consideraria possível. Antonio, Chico, Fabrício e Paulinho são amigos que tenho em São Paulo.

Revista Moviola: Como você chegou até o Cristiano Menezes, responsável pela capa? Foi escolha sua ou da Agir?

JP Cuenca: Christiano é meu amigo e foi imposição minha à editora. Pra mim, é o melhor artista gráfico do país.

Revista Moviola: Como você caracteriza o romance de geração no qual seu segundo livro está inserido?

JP Cuenca: Uma das leituras que o livro já teve, dentre muitas, é a de se tratar de uma sátira a romances de geração… São esses livros que são lançados de vez em quando e que geram identificação forte entre uma faixa “generacional”, muitas vezes virando sinônimos ou traduções fiéis de uma época ou estado de espírito.

Capa do livro Corpo PresenteRevista Moviola: Li o livro “de uma vez só” como Marçal Aquino diz que fez com o seu primeiro livro, Corpo Presente. Você, quando está no meio do processo de criação, pensa nessa ânsia do leitor para ver o que acontece até o último ponto?

JP Cuenca: Confesso que quando estou no meio do processo de criação é como se o leitor não existisse. Escrevo para minha própria leitura. E aí, posso ficar mais tempo do que o leitor vai levar lendo o livro inteiro pensando numa só frase, num parágrafo problemático, até encontrar uma solução que me agrade.

Revista Moviola: Existe um pouco do Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires na cidade “caleidoscópica e impossível” do livro?

JP Cuenca: Sim, e bastante de Paris, Cairo, Londres, Praga, Roma, Tóquio e outras cidades para onde fui nos últimos anos.

Revista Moviola: Como nasceram os personagens Pedro Cassavas e Tomás Anselmo?

JP Cuenca: Quis trabalhar um pouco com a idéia de duplo no livro. O que Pedro tem de cínico, o outro tem de ingênuo. Ao mesmo tempo, vejo Tomás como uma espécie de Sancho Pança, fiel (ou nem tanto assim) escudeiro do Cassavas.

Revista Moviola: Você pode nos ensinar como pronunciar o sobrenome do personagem Monsieur Mxyzptlk?

JP Cuenca: Por quê? Você não consegue?

Revista Moviola: Dá pra dizer que ele ou Pedro Cassavas tem pedaços de tua personalidade? Ou tudo que você escreve é a mais pura ficção?

JP Cuenca: A resposta para as duas perguntas é a mesma: sim.

Revista Moviola: Como é responder as mesmas perguntas sobre o mesmo livro? Isso acontece, não?

JP Cuenca: Acontece. Existem três soluções: 1. Desenvolver técnicas de dizer a mesma coisa com frases diferentes. 2.Inventar respostas novas, de preferência que contradigam a opinião dada na entrevista anterior. 3. Copiar e colar respostas antigas. Uso as três soluções alternadamente.

Revista Moviola: Você foi à Natal, minha cidade, lançar o livro. Como foi a recepção lá?

JP Cuenca: Foi incrível. Minha ida foi organizada pelo amigo escritor Carlos Fialho, do Jovens Escribas, coletivo de escritores de Natal. Lancei o livro na Limbo Livros Selecionados, uma livraria sensacional (eles levam a sério o “selecionados” no nome). Tive um retorno excelente de mídia, trouxe livros de autores locais e fortaleci amizades. Grande viagem. E depois ainda fui para a Feira do Livro de Mossoró, no interior do estado.

Revista Moviola: O que acontece realmente para o escritor na noite de lançamento de um livro? O que você sentiu durante a estréia do Dia Mastroianni na Livraria Travessa, de Ipanema?

JP Cuenca: O que eu senti? O de sempre: pânico. Certa vez escrevi uma crônica sobre o tema. Lançamento de livro é um perfeito simulador de enterro. Dá pra ter uma boa amostragem do seu próprio velório.

Revista Moviola: Como seria a história se ela fosse narrada a partir do ponto de vista da Doce Maria e Verônica?

JP Cuenca: Acho que seria muito diferente. Pedro Cassavas seria praticamente um santo… E Tomás Anselmo, um canalha, no fim das contas. Pense nisso.

Revista Moviola: A ação do Dia Mastroianni se passa em um dia, começa às 10:32 e entra pela meia-noite. Isto me remeteu a Ulisses, de James Joyce, cuja ação também se desenrola em um único dia, 16 de junho de 1904. Há alguma referência a esta obra?

JP Cuenca: Não exatamente. Se bem que, se você procurar ali no meio…

Revista Moviola: É comum ouvirmos que não dá para viver de literatura. Você concorda?

JP Cuenca: Sim, sim, claro. Mas não agüento mais ouvir escritores e “artistas” em geral reclamando do tamanho do mercado, e que não tem dinheiro, e que a mesada está curta… Esse assunto simplesmente não me interessa e ultimamente tem me dado engulhos.

Revista Moviola: E viver a literatura, dá?

JP Cuenca: Isso, sim. Dá pra viver a literatura. É o que tento fazer.

Revista Moviola: O Dia Mastroianni daria um bom filme? Qual diretor você acha que faria uma boa adaptação para as telas?

JP Cuenca: Acho que sim. Eu chamaria o Wes Anderson – ou o Michel Gondry, que faria um filme totalmente diferente.

Revista Moviola: O que vem depois desse livro?

JP Cuenca: O romance do Japão, eu espero. E depois, uma vida longa e próspera.

Revista Moviola: Será que temos a chance de chamar a atenção da mirada de Pedro Cassavas ou, como no livro, tudo desaparecerá atrás de nós quando você terminar de responder?

JP Cuenca: É uma notícia triste que tenho que dar ao leitor da Moviola. Mas, realmente, depois que você terminar de ler essa entrevista, as frases acima, uma após a outra, irão imergir num caldo escuro. E, depois, o computador, a mesa, o quarto, o apartamento e o prédio onde você está irão desaparecer. E, com eles, você, leitor, e todas as suas lembranças, e todos os que conheceram você, e todos os conhecidos
deles e assim até o fim. Até que…

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Leia também entrevista com o escritor Daniel Galera publicada no Rolo 2 da Revista Moviola.



1 Commentário sobre 'João Paulo Cuenca'

  1.  

    31 Janeiro, 2009| 12:57 am


     

    JP é uma mistura de erotismo vulgar e erudito. Seus textos ( e quando digo textos me refiro não só aos livros mas, aos seus finados blogs e a coluna da tpm) me fazem entrar num mundo tão real que acabo me censurando ao pensar que sonho acordada. JP fica colado na minha mente como chiclete no cabelo, e até hoje não saiu do lugar. Mas não pretendo cortar esta mecha de inspiração.

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