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Editorial Rolo 3


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Publicado em 2 de Junho de 2008

Numa passagem do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini, músicos de naipes diferentes tentam convencer-nos de que seus instrumentos são os mais importantes da orquestra. Cada um fala da tremenda importância de cada nota de seu instrumento e de como ele captura a alma humana, de como ele ajuda a tornar mais e mais catártica a experiência de ouvir a orquestra. Porém, todos sabem (ou descobrem?) que a orquestra funciona apenas como um todo. Pode parecer uma comparação primária (pode até sê-lo de fato, ainda mais tendo sido citado aqui o filme de Fellini), mas o cinema funciona exatamente como uma orquestra. Não no sentido de músicos x maestro, mas no sentido de que é uma união de naipes diversos: é um mosaico de todas as outras artes; apropria-se delas para sobreviver.

Nem de longe isso implica numa superioridade do cinema. Aliás, ao contrário, ele deve honrarias eternas a cada manifestação artística da qual faz uso. E é impossível tentar concluir em qual manifestação artística o cinema se apóia mais. Geraria uma discussão digna de Fellini. O que acontece no processo cinematográfico é que ele não engendra nada novo, apenas um processo novo de representação. Enquanto a música pode se dizer completamente à parte da pintura, já que tratam de estimular diferentes sentidos, o cinema não pode se afastar de nenhum. Ele é apenas uma nova forma de compor e pintar.

A Revista Moviola nasceu meio assim, dessa necessidade de tentar dizer que cinema é menor que tudo, que é formado por uma mistura de tudo e que, dessa aparente pequenez, dessa dependência, acaba por gerar algo diferente de tudo. No Editorial da primeira edição escrevemos:

Ganhou corpo, portanto, a idéia de uma publicação de cinema, mas que sempre se pautasse pela relação da sétima arte com as outras; que soubesse claramente que o cinema não é nada mais que uma compilação de todas as outras artes, que surge delas, que deve a elas; e que, portanto, desse voz a esse imenso mosaico canibalesco e aglutinador que é o cinema.

É aqui que começaremos, então, a tratar diretamente dessas relações. Neste e nos próximos rolos, a Moviola irá se debruçar sobre a construção do cinema através das outras artes, das suas proximidades mais intrínsecas, das suas diferenças mais evidentes.

A escolha de começar pelo Teatro foi impensada. Não houve qualquer necessidade de tratar essa série de uma maneira linear, ou de encadear uma espécie de pensamento da experiência cinematográfica através da ordem das artes a serem abordadas. Talvez, porém, a escolha seja inconscientemente coerente.

Segundo Ricciotto Canudo, no seu Manifeste des Sept Arts, de 1923, o Teatro seria a arte relativa à representação. Seria ela, portanto, que definiria a capacidade humana de ser o que não é. É uma arte do corpo, da necessidade do corpo, como a dança. Diferente dela, porém, não é tão visual, tão alucinante na sua introspecção. Trata mais da capacidade humana de mentir, de falsear, de fingir.

No cinema, é a relação com a arte teatral da representação que distingue dois caminhos maiores a se escolher dentro de um filme: a ficção e o real/documental. É (em termos amplos) a ciência de que as pessoas em frente à câmera são atores (ou não) que define o caráter ficcional (ou não!) da sua representação. Isso tudo em teoria, em análise rasa. A mistura desses termos, a dificuldade de definir essa diferença (ou até a falta de necessidade dela), é que aproxima a realidade do falso. É essa mentira permanente (seja ela verdadeira ou não) que confunde a pessoa e a personagem, a vida e a arte, seja no cinema, seja no teatro.

Teatro é, portanto, muito mais do que a mentira. Ele mesmo se apropria de outras artes na sua encenação, no seu processo – hoje, inclusive, invertendo o caminho e se apropriando também do cinema. Mas, diferente, claro, dialoga com o coração humano através do canal que mais lhe importa: o ator. Definindo que a Arte é sempre um engodo, um olhar pessoal, uma interpretação do real, há também (ou portanto) algo extremamente humano nela. O teatro se encaixa de maneira particular neste recorte: o que é verdadeiro nele é o que é humano strito sensu. É o próprio homem, que se define como objeto final de fruição, como obra.



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