No início do outono, encontro a
A paixão pelas correspondências sempre esteve presente na memória afetiva de Antonia. “Nunca fui boa missivista, gosto mais de ler do que escrever cartas”, diz. A idéia de juntar esse material do arquivo de seu avô surgiu quando estava concluindo uma pós-graduação em história da arte. O tema escolhido para sua monografia de conclusão de curso foi as correspondências e o núcleo intelectual do qual participou Odylo Costa. O objetivo, durante processo de redação da monografia, era utilizar apenas fotos, mas ao se deparar com as cartas, se apaixonou por elas e surgiu o desejo de reuni-las em um livro.
“As cartas estavam originalmente na casa da minha avó, em um arquivo antigo, desses cheios de pó. Depois da morte dela, ele foi para a casa de minha tia”, conta. Segundo Antonia, o arquivo de seu avô é formado por cartas comuns de amigos. O conteúdo delas engloba discussões intelectuais e políticas. “Os amigos do meu avô eram intelectuais e políticos. As cartas ficaram guardadas porque ele, por mais desorganizado que fosse, era meticuloso em guardar coisas, desde rascunhos de reuniões de pauta a cartas. Assim, deixou a memória toda dele pra nós.”
A alegria da seleção
Depois da monografia de pós-graduação sobre a vida do avô, Antonia recebeu uma bolsa da Biblioteca Nacional para elaborar o livro de correspondências. A bolsa também prevê que ela terá ajuda para achar uma editora para publicá-lo.
A seleção que fez do vasto material de Odylo Costa é por período. Além disso, considerou as pessoas que escreviam com mais consistência. “Sobrou cartas para mais alguns livros, eu diria. Mas o que consegui juntar para esse primeiro livro, dá uma boa pincelada sobre a trajetória do meu avô e de sua relação com os amigos”, acrescenta.
O livro terá aproximadamnte 100 cartas. Quando fiz a clássica pergunta sobre qual é a carta preferida de Antonia, ela conclui que, depois de tanta seleção, fica difícil responder, mas a que a deixou mais ‘enternecida’ – adjetivo usado por ela – é uma carta em que João Cabral de Melo Neto discute verniz de móvel. “É interessante porque é o
Guardados da Memória
Seguindo com as perguntas que não querem calar:
Qual a memória mais afetuosa que você tem do seu avô? Elis, pergunta capciosa. Ele morreu quando eu tinha três anos, mas lembro dele cantando pra mim, ou as pessoas lembram, uma quadrinha que dizia “menininha, da perna grossa, sainha curta, papai não gosta”. Lembro do riso dele, mesmo que tenha que rever fotos para retê-lo na memória.
Voltando ao período das cartas, elas revelam ainda fatos e questões entre o golpe de 1964 e o AI-5, nesse intervalo, Odylo Costa morava em Portugal, onde trabalhava como adido Cultural do Brasil. Antonia afirma que é possível acompanhar, nas cartas, a instalação da ditadura no país e como as pessoas tentavam lidar com a nova realidade.
As correspondências ainda não têm data para estar nas livrarias. Falta uma editora para financiar e lançá-las. “Quero reiterar que o livro infelizmente ainda não é uma realidade, ainda é um sonho. Pelo menos um sonho finalizado como projeto, mas ainda não viabilizado como produto e que pretendo viabilizar ainda em
Perfil: Maranhão, Piauí, Rio
Antes de tomar a última xícara de café e encerrar a conversa com Antonia, ela aviva minha memória de jornalista enumerando algumas das atividades de seu avô maranhense, que morou também no Piauí e se estabeleceu no Rio aos 16 anos. Odylo Costa, filho (1914-1979) foi responsável pela primeira reforma do Jornal do Brasil - foi a partir desde fato que ouvi falar dele pela primeira vez.
Ele passou também pelas redações do Jornal do Commercio, fundou e dirigiu o semanário Política e Letras, trabalhou como redator do Diário de Notícias, diretor de A Noite, Rádio Nacional, Tribuna da Imprensa e da revista Senhor. Foi diretor de redação de O Cruzeiro e novamente diretor do Jornal do Brasil. Deixou o JB em 1965 para assumir o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil, em Portugal. E, 1969, sucedeu
São obras de sua autoria:
Graça Aranha e outros ensaios (1934); Livro de poemas de 1935, poesia,

Carta de João Cabral de Melo Neto
Carta de Villas-Boas Correa
