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Cartas de Odylo Costa



Elis Galvão

Primeira página da carta de João Cabral de Melo Neto

No início do outono, encontro a designer Antonia de Thuin em sua casa, no bairro das Laranjeiras. Diante do computador, ela realiza a seleção final das cartas – que escaneou com cuidado e cautela – do seu avô Odylo Costa,  filho (sim, a grafia correta é assim mesmo). Ele, além de jornalista, foi poeta, cronista e novelista. Antonia sempre gostou das palavras e, para ela, a carta é uma palavra escrita que desperta o interesse de um jeito voyerístico pela vida alheia, pela intimidade do outro. Logo, conclui Antonia, a carta é íntima. Naquele final de tarde em que se deu o nosso encontro, ela estava diante da intimidade de Manuel Bandeira, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade, Villas-Boas Correa, João Cabral de Melo Neto, entre outras personalidades que trocavam, com uma freqüência quase cotidiana, cartas com seu avô.

A paixão pelas correspondências sempre esteve presente na memória afetiva de Antonia. “Nunca fui boa missivista, gosto mais de ler do que escrever cartas”, diz. A idéia de juntar esse material do arquivo de seu avô surgiu quando estava concluindo uma pós-graduação em história da arte. O tema escolhido para sua monografia de conclusão de curso foi as correspondências e o núcleo intelectual do qual participou Odylo Costa. O objetivo, durante processo de redação da monografia, era utilizar apenas fotos, mas ao se deparar com as cartas, se apaixonou por elas e surgiu o desejo de reuni-las em um livro.

“As cartas estavam originalmente na casa da minha avó, em um arquivo antigo, desses cheios de pó. Depois da morte dela, ele foi para a casa de minha tia”, conta. Segundo Antonia, o arquivo de seu avô é formado por cartas comuns de amigos. O conteúdo delas engloba discussões intelectuais e políticas. “Os amigos do meu avô eram intelectuais e políticos. As cartas ficaram guardadas porque ele, por mais desorganizado que fosse, era meticuloso em guardar coisas, desde rascunhos de reuniões de pauta a cartas. Assim, deixou a memória toda dele pra nós.”

A alegria da seleção

Depois da monografia de pós-graduação sobre a vida do avô, Antonia recebeu uma bolsa da Biblioteca Nacional para elaborar o livro de correspondências. A bolsa também prevê que ela terá ajuda para achar uma editora para publicá-lo.

A seleção que fez do vasto material de Odylo Costa é por período. Além disso, considerou as pessoas que escreviam com mais consistência. “Sobrou cartas para mais alguns livros, eu diria. Mas o que consegui juntar para esse primeiro livro, dá uma boa pincelada sobre a trajetória do meu avô e de sua relação com os amigos”, acrescenta.

Carta de Villas-Boas CorreaO livro terá aproximadamnte 100 cartas. Quando fiz a clássica pergunta sobre qual é a carta preferida de Antonia, ela conclui que, depois de tanta seleção, fica difícil responder, mas a que a deixou mais ‘enternecida’ – adjetivo usado por ela – é uma carta em que João Cabral de Melo Neto discute verniz de móvel. “É interessante porque é o João Cabral, falando de algo tão banal. Gosto muito de outra do Villas-Boas onde ele faz uma análise política do Brasil pós-golpe, quando ainda se acreditava que Castelo Branco devolveria o poder aos civis”.

Guardados da Memória

Seguindo com as perguntas que não querem calar:

Qual a memória mais afetuosa que você tem do seu avô? Elis, pergunta capciosa. Ele morreu quando eu tinha três anos, mas lembro dele cantando pra mim, ou as pessoas lembram, uma quadrinha que dizia “menininha, da perna grossa, sainha curta, papai não gosta”. Lembro do riso dele, mesmo que tenha que rever fotos para retê-lo na memória.

Voltando ao período das cartas, elas revelam ainda fatos e questões entre o golpe de 1964 e o AI-5, nesse intervalo, Odylo Costa morava em Portugal, onde trabalhava como adido Cultural do Brasil. Antonia afirma que é possível acompanhar, nas cartas, a instalação da ditadura no país e como as pessoas tentavam lidar com a nova realidade.

As correspondências ainda não têm data para estar nas livrarias. Falta uma editora para financiar e lançá-las. “Quero reiterar que o livro infelizmente ainda não é uma realidade, ainda é um sonho. Pelo menos um sonho finalizado como projeto, mas ainda não viabilizado como produto e que pretendo viabilizar ainda em 2008”, diz Antonia.

Perfil: Maranhão, Piauí, Rio

Antes de tomar a última xícara de café e encerrar a conversa com Antonia, ela aviva minha memória de jornalista enumerando algumas das atividades de seu avô maranhense, que morou também no Piauí e se estabeleceu no Rio aos 16 anos. Odylo Costa, filho (1914-1979) foi responsável pela primeira reforma do Jornal do Brasil - foi a partir desde fato que ouvi falar dele pela primeira vez.

Ele passou também pelas redações do Jornal do Commercio, fundou e dirigiu o semanário Política e Letras, trabalhou como redator do Diário de Notícias, diretor de A Noite, Rádio Nacional, Tribuna da Imprensa e da revista Senhor. Foi diretor de redação de O Cruzeiro e novamente diretor do Jornal do Brasil. Deixou o JB em 1965 para assumir o cargo de adido cultural na Embaixada do Brasil, em Portugal. E, 1969, sucedeu Guilherme de Almeida na Academia Brasileira de Letras.

São obras de sua autoria:

Graça Aranha e outros ensaios (1934); Livro de poemas de 1935, poesia, em colaboração com Henrique Carstens (1936); Distrito da confusão, crônicas (1945); A faca e o rio, novela (1965); Tempo de Lisboa e outros poemas, poesia (1966); Maranhão: São Luís e Alcântara (1971); Cantiga incompleta, poesia (1971); Os bichos do céu, poesia (1972); Notícias de amor, poesia (1974); Fagundes Varela, nosso desgraçado irmão, ensaio (1975); Boca da noite, poesia (1979); Um solo amor, antologia poética (1979); Meus meninos e outros meninos, artigos (1981).

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Carta de João Cabral de Melo Neto

Carta de Villas-Boas Correa


Publicado em 2 de June de 2008


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