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Publicado em 2 de Junho de 2008

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A espuma do champanhe molhava seu bigode. Era doce, mas só levemente, e recendia um discreto odor de uvas. Aquela safra fora excepcional. No salão, os lustres derramavam uma claridade amarelada que combinava com o vestido branco de Luana. Estava lotado. Enquanto atravessava a pista de dança para encontrá-la, sentia os diferentes tecidos que vestiam os convidados roçarem sua pele, seu smoking. Seda, algodão, cetim. Uma loira, que dançava animada com seu par, encostou no braço dele. A pele parecia veludo. Teve um breve calafrio. Parou em frente a Luana. Encostou a mão na nuca dela, esfregou os dedos na delicada penugem. O hálito esquentou-lhe o rosto e um calor percorreu todo seu corpo, numa onda, até alojar-se em suas calças. Trouxe o corpo dela para junto do seu. Sorriu ao escutá-la suspirando. Ela gostava de estar em seus braços.
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A lancha cruzava a baía em alta velocidade. O vento trazia o acre dos sargaços e sol era quente. Sentia a pele grudenta pelo sal e a blusa, com os botões entreabertos, pinicava seu torso musculoso e bronzeado. Luana abraçou-o por trás e passou as mãos pelo ventre delineado. Tinha as mãos frias e ele ficou arrepiado. Sentaram-se. Ele pediu ao piloto que desligasse os motores. Abriu a caixa térmica, cheia de gelo. Comeram ostras, com sabor salgado de luxúria. Sentia que, cedo ou tarde, ela haveria de ceder. Não tardaria o momento em que a possuiria. Mas não naquele dia, nem naquele lugar. Levantou-se e, num sobressalto, pulou da lancha, mergulhando na água fria, que refrescou todo seu corpo. Os olhos ardiam quando retornou a bordo.
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A lareira espalhava um gostoso bafejo morno na cabana. Lá fora, a neve se acumulava lentamente, em breve alcançaria a janela. Mas, não havia motivos para preocupação. Abraçados, próximo às chamas, trocavam também calor. Ela sussurrou uma brincadeira fútil ao seu ouvido e lhe ofereceu uma gole de chocolate quente. Era cremoso, mas muito doce. Ela lambeu um excesso que se alojou em seus lábios, próximo à bochecha. Sentiu cócegas. Ela continuou, lambendo seu queixo e descendo pelo seu pescoço, enquanto desabotoava-lhe a camisa. Sorveu profundamente o perfume do seu cangote, soltando pelas narinas um ar quente, agradável. Passeou com a ponta da língua pelos seus mamilos e, parando, fitou-o nos olhos. Duas poças verdes. Ele segurou-a firme, pelos ombros e a recostou na poltrona. Começou a despi-la, devagar, apreciando cada pequeno fragmento da paisagem em mármore que era o corpo dela. Os seios ainda em botão. Os pequenos pêlos que nasciam logo abaixo do umbigo e corriam em direção ao sexo dela, como se escapassem a um refúgio. Ela tremia a cada toque de sua mão. Não existia mais frio. Deitou-se sobre ela. Havia chegado o momento que aguardara tão ansiosamente. Antes de penetrá-la, beijou-a com ternura e perguntou: “Você me ama?”. “Sim”, ela respondeu. E seu hálito cheirava a urina.
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Urina?
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Engasgou-se com a sonda e golfou uma baba espessa, amarga e biliosa. O líquido subiu pela garganta, queimando tudo em seu caminho e saiu num longo jato, pela boca e pelo nariz. O tubo de látex caiu no chão e logo um outro desceu pelo terminal. Os neuroelétrodos parietais se desgrudaram de sua testa, como que por vontade própria, e se recolheram de volta à parede. Uma voz feminina e fria pedia que jogasse o material descartável na próxima lixeira. Caiu na calçada, sobre as calças úmidas e mal-cheirosas, enquanto um outro transeunte evitava encostar-se ou mesmo pisoteá-lo. Deve ser por isso que instalaram os terminais públicos, pensou, enquanto um esgar se infiltrava em sua face. Levantou-se, com as pernas trêmulas e tateou nos bolsos. Sempre andava com um creiom. Procurou, num beco próximo, um pedaço de papelão e, nele, desenhou a mensagem, em letras garrafais. Cofiou a barba suja e puxou um piolho. Foi até a rua e postou-se, com o papelão na mão, numa esquina: TRABALHO POR CRÉDITOS. “Hoje ela será minha”, pensou.
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Alex de Souza é jornalista e editor de conteúdo do site Nominuto.com. Também colabora com o e-zine Disuptores.

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