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Premiados em Cannes


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Publicado em 26 de Maio de 2008

Palma de Ouro com Entre les Murs.

Entre les Murs, de Laurent Cantet, confirmou o favoritismo e venceu a Palma de Ouro do 61º Festival de Cannes. Desde 1987 – com Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat –, o cinema francês não recebia o prêmio máximo da competição. Sandra Corveloni, em seu primeiro longa-metragem, surpreendeu a favorita Angelina Jolie e ganhou como melhor atriz por Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas.

Sean Penn, presidente do júri – composto por Jeanne Balibar, Alexandra Maria Lara, Natalie Portman, Marjane Satrapi, Rachid Bouchareb, Sergio Castellitto, Alfonso Cuarón e Apichatpong Weerasethakul – cumpriu a promessa feita na coletiva de imprensa, de privilegiar obras que tratassem de “temas urgentes”. Ignoraram-se produções de viés mais autoral, sejam de diretores já consagrados (La Mujer Sin Cabeza, de Lucrecia Martel; Leonera, de Pablo Trapero; La Frontière de L’Aube, de Philippe Garrel), sejam de cinematografias emergentes e arriscadas (Serbis, de Brillante Mendoza; My Magic, de Eric Khoo; Delta, de Kornel Mundruckzó – o último, no entanto, levou o surpreendente FRIPESCI de melhor filme). Apenas Nuri Bilge Ceylan ganhou direção por Three Monkeys: escolha confortável, na medida em que seu “bom gosto artístico” obteve o reconhecimento da crítica. Também oportunos os prêmios especiais para Clint Eastwood, por The Changeling, e Catherine Deneuve, por Un Conte de Nöel, dois mitos que os jurados alijaram da competição aos transformá-los (sem que pedissem) em hors-concours. Dessa forma, em Cannes, a política se impôs à estética, sobretudo quando se observa o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Júri, que foram, respectivamente, para os italianos Gomorra, de Mateo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino (a eleição recente de Silvio Berlusconi ao cargo de primeiro-ministro estaria fresca na memória dos jurados?). Impossível não se recordar da longa tradição do país no cinema político: Bandido Giuliano, O Caso Mattei e As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi; Olhos na Boca, de Marco Bellochio; A Classe Operária Vai ao Paraíso e Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri; Pasolini Um Delito Italiano, de Marco Tulio Giordana; O Crocodilo, de Nanni Moretti; entre tantos outros. A vitória de Benicio Del Toro como melhor ator (sobre Joaquin Phoenix, de Two Lovers – James Gray, outra vez, não se moldou aos estereótipos e saiu de mãos abanando) pelo épico Che, de Steven Soderbergh, demonstra igualmente o sentido de urgência que dominou o festival.

François Begaudeau em Entre les Murs.

Último filme a ser exibido na competição, Entre les Murs conquistou a unanimidade do júri a fim de vencer a Palma de Ouro – a despeito do equilíbrio entre os selecionados. Laurent Cantet escalou o professor François Begaudeau, que escreveu o romance em que o filme se baseia, para viver a si mesmo, enquanto alunos de escolas públicas, atores não-profissionais, usam os próprios nomes para interpretar os estudantes na tela (com exceção de Frank Keita). Entre les Murs se passa inteiramente dentro do colégio, na sala de aula. O mundo exterior irrompe através de referências, como a visita dos pais e os diálogos entre os jovens. Não há música. Assim como o microcosmo da fábrica em Recursos Humanos permitia ao cineasta refletir sobre as novas relações de trabalho na França, marcada pelo fim dos encargos sociais, pela diminuição da jornada, pelo desemprego e pela globalização, o ambiente fechado de Entre les Murs fala de temas atualíssimos e caros à Europa: a imigração, a pobreza dos subúrbios, as fraturas sociais e étnicas, a tolerância na diversidade.

Duas vezes ganhadores da Palma de Ouro em Cannes, com Rosetta e A Criança, Jean-Pierre e Luc Dardenne receberam o prêmio de melhor roteiro por Le Silence de Lorna (segundo a crítica, no entanto, o mais frágil e convencional filme dos irmãos diretores), enquanto a “docu-animação” Waltz with Bashir, de Ari Folman, entre os candidatos às maiores honrarias do festival, terminou esnobado por Sean Penn e companhia – apesar de igualmente desprezado pelo júri oficial, Adoration, de Atom Egoyan, não o foi pelo ecumênico: ganhou o OCIC Awads de melhor filme.

Melhor atriz em Cannes por Linha de Passe.

Por fim, o prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni (que repete o de Fernanda Torres, em 1986, por Eu Sei que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor), pelo filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, em que ela interpreta Cleuza, mãe solteira de quatro irmãos que vivem na periferia de São Paulo. Aos 43 anos, Sandra Corveloni tem a carreira ligada ao teatro: trabalha no grupo Tapa, onde atua e é professora e assistente de direção, e esteve nas peças As Viúvas, de Arthur Azevedo, Contos de Sedução, de Guy de Maupassant, e Órfãos de Jânio, de Millôr Fernandes. No cinema, antes de estrear em longas-metragens com Linha de Passe – onde contou com a ajuda da preparadora de elenco Fátima Toledo –, participara apenas do curta Flores Ímpares, de Sung Sfai, em 1996. Com a vitória, ela se une a Lima Barreto (melhor filme de aventuras por O Cangaceiro), Anselmo Duarte (Palma de Ouro por O Pagador de Promessas) e Glauber Rocha (melhor direção por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e prêmio especial do júri pelo curta-metragem Di), além de Fernanda Torres, como os únicos brasileiros que triunfaram na competição do Festival de Cannes.

 Na próxima edição da Revista Moviola, entrevista exclusiva com Tião (Bruno Bezerra), diretor do curta-metragem Muro, ganhador do prêmio Regard Neuf – Olhar Novo – na Quinzena dos Realizados do Festival de Cannes.

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