Uma das teorias que revolvem na literatura do mestre H.P. Lovecraft é a de que a ignorância é uma defesa da humanidade contra algo que não pode compreender, ou mesmo assimilar. Segundo sua vasta obra, que chega quase a elaborar uma concepção própria do universo (assim como muitas religiões, mitologias ou, ainda no campo da literatura, da obra de J.R.R. Tolkien), a massa amorfa de ignorantes humanos que caminha ignorante está submetida a grandes e enormes deuses, poderosos e onipresentes. Existem, portanto, forças superiores capazes de reconstruir a realidade em um piscar de olhos. A diferença é que Lovecraft é mais pessimista. Segundo o autor, existiriam diversos seres extremamente poderosos (dos quais Cthulhu não chega nem perto de ser o mais imponente) espalhados no universo. Adormecidos há milênios, aguardam apenas uma conjunção de fatores cósmicos para acordarem e retomarem o lugar ao qual têm direito nato (o que, claro, resultará na extinção imediata da raça humana. Bom, de tudo, na verdade).
Sua obra foi adaptada diversas vezes ao cinema, à literatura; influenciou milhares de autores de terror; ganhou enorme importância quando virou um dos Role Playing Games mais cultuados de todos os tempos. Talvez seja inclusive mais fácil entender o que Lovecraft pensava do mundo através de uma analogia com o jogo de RPG Call of Cthulhu (hoje sob a marca da inalcansável Wizards of the Coast / Hasbro): em RPG’s clássicos, como o tal Dungeons & Dragons (que inspirou a série animada Caverna do Dragão) o jogador é capaz de incarnar um herói com poderes especiais e enfrentar dragões, monstros, zumbis, e o que viesse pela frente, muitas vezes portanto apenas espada, elmo e escudo (mágicos, claro). Em Call of Cthulhu, nossos heróis são seres humanos normais, capazes de morrer com um único tiro e sem qualquer chance de enfrentar seres superiores como o próprio Cthulhu (que, segundo as regras do jogo, seria capaz de matar qualquer humano com um golpe, sempre certeiro).
É fácil, então, entender que Lovecraft nunca admitiu que seus heróis triunfassem. Ao menos não contra as incríveis forças dos Old Ones (os deuses da mitologia Lovecraftiana). Sua obra se desenvolve em torno do caos, do inevitável, do irreparável. Muitas dessas obras, como a que dá origem ao filme de Andrew Leman, Call of Cthulhu, gastam a maior parte do seu tempo debruçando-se sobre o processo investigativo de algum incauto curioso acerca de fatos estranhos, sempre ligados à essa mitologia (que ficou conhecida como Cthulhu Mythos). Não bastasse a inabilidade dos humanos de lidar com essas horríveis criaturas num combate direto, a simples visão delas pode levar qualquer mente sã à imediata loucura (a maioria das personagens de Lovecraft, seja nos livros, nos filmes, no videogame ou no RPG, termina morta ou louca).
Esse processo de descoberta do inevitável, do superior, do terror puro e simples - dada a noção de que terror, terror de verdade, só pode ser aquilo que é incompreensível - é o que Lovecraft explora. É impossível de se preparar para o que é tão terrível e tão inimaginável, conclui. Mais uma alusão ao RPG talvez elucide melhor isso: os deuses maiores, como Azathoth (talvez o mais antigo deles), possuem Inteligência 0 (zero). É como se o caos reinasse na cabeça dos grandes criadores e governantes do universo. Impossível, portanto, enfrentar o mundo de maneira racional e sã.
A idéia de que o universo é incompreensível e alienígena não é tão religiosa como se pode pensar à primeira vista. É exatamente o contrário disso. É descobrir, aos poucos, que a vida não passa de uma luta pelo inconquistável, uma briga contra o inevitável. É a lenta percepção de que um, dia, tudo irá acabar num piscar de olhos. “Quando as estrelas estiverem certas…”
Assista à Mostra H.P. Lovecraft no Riofan
Indicação para o filme de Andrew Leman, The Call of Chuthu, que usa técnicas cinematográficas do cinema mudo para filmar a mais importante história de Lovecraft.
Leia o conto Call of Cthulhu (e vários outros, em inglês) no site Mythos Tomes