
Sem mais delongas, de Frederico Ruas, 19 min, 2006
Uma madrugada insone, um personagem atormentado, alguns encontros e emoções extravasadas. Este é basicamente Sem mais delongas, típico caso uma noite/um filme, em que o desenvolvimento dramático segue à risca o compasso do tempo. Pois mesmo que o tempo aqui não seja em si exatamente uma questão, não aparecendo como um marcador implacável dos eventos, a estrutura é tal que, terminada a noite, terão fim também os tormentos do personagem – e o questionamento final sobre a suposta “morosidade” do encerramento do filme, feito diretamente para o espectador, não deixa de confirmar essa relação previamente estabelecida entre a ação mostrada e o tempo decorrido. Naturalmente um filme-passagem, então: sem muitos dados de identificação, somos despreocupadamente jogados no universo astral do protagonista, o qual seguiremos noite adentro sem que isso signifique uma compreensão dele ou dos motivos que o levaram a agir daquela forma.
Isso porque o propósito fundamental do filme está justamente numa tentativa apreciação dos eventos enquanto imagens independentes. Uma discussão no cinema, um encontro resultado de um quase atropelamento, um temor/pânico intenso causado pela solidão nas ruas, uma briga de bar… Tudo de alguma forma está relacionado, ligado cronologicamente, mas a idéia é as relações permaneçam no (limitado) campo cronológico: nada do que é mostrado parece possuir um significado maior, uma razão de ser da qual possamos depreender as motivações do personagem acompanhado. A busca do diretor Francisco Ruas se dá então no sentido de uma compreensão visual das coisas. O que também implica numa clara opção por uma liberdade dramática, portanto.
O problema é que essa liberdade dramática com a qual o filme se propõe a trabalhar é mal aproveitada, e os conflitos protagonizados pelos personagens quase sempre descambam para a afetação – sem trama onde se apoiar, berrar parece a melhor solução para se chamar atenção. Todo o aspecto visual também é exageradamente fake, desde o uso da fotografia (o preto e branco associado à textura do digital) à dublagem desconectada da imagem. É todo um volume de imagens sem significado despejado sobre o espectador – e aí não é uma questão do que do que essas imagens podem significar racionalmente, mas da natureza delas, da forma como os conflitos e situações do filme existem enquanto imagens. E não é uma referência a Sganzerla, como aquela feita na cena da sala de cinema, que vai salvar o espectador desta eterna sensação de vazio.