Wild Life, de Wagner Morales, 9min, 2006
É difícil criar imagens novas hoje em dia. A já conhecida saturação visual que sofremos nos deixa aptos a tachar de óbvias uma imensidão de imagens, de discursos imagéticos. Com isso, existe um certa fascinação contemporânea acerca da imagem caseira, casual, pessoal. Seja com curtas como A Curva, de Salomão Santana (e também seu curta seguinte, Jarro de Peixes), seja com boa parte da obra de Marcelo Ikeda (jurado desta edição da MFL), ou ainda com o fascinante Sal Grosso, de André Amparo e Ana Cristina Murta; seja com milhões de outros exemplos que não me vêm à cabeça agora, esse tipo de registro está cada vez mais disseminado e explorado. Com isso, existe uma sofisticação progressiva do tipo de imagens e narrativas possíveis e imagináveis.
Wild Life é um desses filmes que dá um passo a mais. Ao filmar uma excursão turística como épico, como grandiosa viagem de descoberta e, ainda, como exemplo claríssimo da saturação de imagens do nosso mundinho contemporâneo, Wagner Morales faz o que pode ser um dos filmes mais interessantes dessa mostra.
Imagine você um navio em meio a águas calmas. Todos dormem, comem, conversam de maneira descontraída, protegidos do óbvio frio que faz do lado de fora. Imagine então, que no meio dessa alegria doce e serena, surge do lado de fora um enorme monstro branco e azul. Gigante, ele toma conta da janela enquanto passa pela embarcação. A reação da tripulação, provavelmente saturada desse tipo de evento, já acostumada com águas tão inóspitas: continuar dormindo, comendo e conversando de maneira descontraída. A reação de um cineasta com um olhar apurado sobre as relações humanas? Filmar isso tudo.