
Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes, 15min, 2006
Rapsódia do Absurdo, em sua sinopse, apresenta-se como “documentário poético”. Rótulo difícil para o filme. O conceito de “documentário”, hoje, já se tornou um conceito confuso, difícil de definir. A idéia de que o documentário é a filmagem direta de algum fato enquanto a ficção simplesmente inventa o fato é idéia antiga, ultrapassada, datada. Chamar, portanto, um filme de documentário pelo simples fato de usar imagens de arquivo já é algo a se questionar (na verdade, tachar qualquer filme de documentário ou ficção já é terreno perigoso hoje em dia). A segunda parte do rótulo, “poético”, é ainda mais difícil.
Existe uma noção disseminada de que a relação entre poesia e cinema se dá pela junção de imagem e música. “Poético” virou um adjetivo costumaz para filmes que não narram nada especificamente, mas tentam trazer uma “emoção” ou “sensação”, muitas vezes através dessa junção supracitada. Outras muitas vezes, e que é o caso de Rapsódia do Absurdo, a poesia cinematográfica estaria também em manipular as imagens com efeitos, seja com um zoom digital e “granulado”, seja com efeitos vertiginosos de distorção da imagem. Fica a dúvida, se seguirmos essa idéia, da razão pela qual alguns filmes seriam poéticos e outros não. Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, é menos poético por não ter trilha sonora? Será que a poesia do cinema está nos recursos pirotécnicos de linguagem que se pode usar para narrar algo?
As imagens de Rapsódia do Absurdo são inacreditáveis, flagrantes de guerra de tirar o fôlego. O distanciamento que a forma do filme causa, porém, é tão grande que essa sensação fica na idéia, na expectativa, e nunca se concretiza. Esse tipo de conflito, sempre mostrado pela esquerda da mesma maneira, como denúncia social e flagrante da violência burguesa, como amostra do gigante tentando esmagar o exército de formigas, fica solto e redundante num mar de coisas parecidas. O questionamento que fica, ao final do filme, é se simplesmente trabalhar em cima de imagens de desgraça gera algum discurso político relevante.