Praia de Botafogo, de Flora Dias, 4 min, 2007
Bem mais do que um filme sobre um lugar, ou sobre a relação afetiva com este lugar, Praia de Botafogo é um filme sobre a vida enquanto experiência estética. Sobre encontrar-se, como acontece às vezes, em meio à aridez do território urbano, em determinados lugares onde a contemplação do mundo pareça privilegiada, seja pela sensação de se estar numa espécie de centro gravitacional, ponto de confluência de forças, seja, ao contrário, por sentir-se precisamente fora do fluxo contínuo de vibrações da cidade grande. É quando o mundo, ou pelo menos aquela faceta do mundo que se apresenta por entre eixos do horizonte, revela a sua beleza, a partir de um contato, meio cerebral, meio sensório, que travamos com aquela realidade. É o que convencionou-se chamar de estesia.
Existe ainda uma crença no mundo contemporâneo, que vive seu apogeu dentro paradigma da imagem, de que é possível resumir os cinco sentidos em apenas dois, de que um evento vivenciado por todo o aparelho sensório pode ser transposto para um suporte visual/sonoro – ainda não fomos educados o suficiente para entender a imagem como algo independente de sua matriz, e boa parte da responsabilidade disso talvez possa ser inferida ao cinema, enquanto uma forma de simulação que está sempre correndo atrás do fenômeno da estesia, descortinando-o sob o ponto de vista. E é também disso que fala o filme em questão: dessa tentativa vã, mas nem por isso de todo frustrada, de apreender o mundo, os fenômenos estéticos que vivenciados a cada dia, numa imagem torta, gravada em meia dúzia de pixels. É inútil, sabemos. Mas não custa tentar. O cinema nasceu assim.
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