
O Labirinto, de Gleyson Spadetti, 13min, 2007
Quem acompanha o circuito de curta-metragem nacional sabe bem que nesse meio filmes de gênero (aqueles onde a idéia motriz de um gênero narrativo predomina sobre o resto) são vagos, escassos e até, quando existem, toscos e alquebrados. Há uma explicação para isso. Curta-metragem é lugar de aprendizado cinematográfico para a maioria dos cineastas em formação. É o formato de preferência pela facilidade de realização e custeio em relação ao média ou ao longa. Assim, além de ser o lugar onde se erra bastante, é também o lugar onde se gasta pouco dinheiro (por que se tem pouco) e, também, o lugar onde se almeja uma espécie de filme que, talvez pela noção de “filme de arte” que a maioria dos jovens cineastas guarda na consciência, talvez por preconceito mesmo, passa longe do filme de gênero – normalmente associado ao cinema comercial, “róliudiano”.
Ao mesmo tempo, a intelligentsia cinematográfica curtametragista costuma, pelos motivos acima, ser progenitora de uma espécie de “preconceito inverso”, idolatrando o curta de gênero exatamente por ser algo diferente. Coisa como “ao menos ele fez um filme de gênero e não mais um artisticozinho metido!”. A parcela radicalmente inversa brada a noção de que um filme de gênero se distancia da busca de linguagem, talvez até da “brasilidade” possível do cinema, ou ainda simplesmente a idéia de que um filme de gênero (que supostamente visaria atingir um público fácil) feito no restrito circuito como o de curtas é nada mais que paradoxal. Fica então esse impasse entre a necessidade ou irrelevância do tal filme de gênero.
O Labirinto se encaixa justamente aí, nesse entremeio difícil de sair ileso. É filme de suspense, de cortes rápidos, de tramas violentas, tiros, armas, suor e sangue. Trabalha com aquele som agudo na trilha sonora que suspende toda a ação e deixa o espectador à espera, sempre, do pior. Trabalha com montagem não linear, de lenta explicação da narrativa e da trama, dos seus motivos. Trabalha esta trama acima de tudo, sem grandes pirotécnicas visuais, sem grandes megalomanias (o curta foi todo ou quase todo filmado dentro do próprio espaço da Universidade Federal Fluminense).
Gleysson trabalha com construção de clima, como todo filme de suspense deve fazer. É na junção da belíssima edição de som e trilha sonora com a montagem seca e nada afetada (coisa, aliás, fácil de acontecer neste tipo de filme) que O Labirinto triunfa em tudo o que pretende. O único defeito técnico do filme, e que algumas vezes impede uma imersão total no seu universo, está além do alcance de sua equipe: filmado em 16mm – bitola com sérios problemas com reprodução de som, entre outras coisas por ser mono – a reprodução sonora do filme prejudica e muito essa ambientação para quem não está acostumado a ouvir o som abafado do 16mm (conversando com Gleysson após a projeção ele falou que às vezes pensa em projetar o filme em DVD, para melhor apreciação sonora do público). O tal “defeito” sonoro ainda prejudica, por vezes, a atuação de Alessandra Maestrini, que faz o papel principal.
Dito isso tudo, O Labirinto faz exatamente o que propõe, como filme de gênero que é. Apesar da montagem, apesar do som, apesar da falta de linearidade, porém, o filme trabalha com uma linguagem simbólica já quase óbvia, talvez ultrapassada até. Fica a saber então o que é que prevalece nisso tudo, e qual das dois lados da briga acerca dessa espécie de filmes teria razão: ou o filme não precisaria existir devido à falta de inovação no gênero, ou ele é essencial, devido à maestria com o que faz exatamente o que deveria ser feito.
Veja a programação do filme O Labirinto no site da Mostra do Filme Livre
Veja a cobertura completa da Mostra do Filme Livre 2008