Doce e Salgado, de Chico Lacerda, 7min, 2007
No texto sobre O Labirinto, de Gleysson Spadetti, falei um pouco sobre filmes de gênero, ou melhor, curtas de gênero. Dentro dessa distorcida noção existe um nicho (palavra perigosa) que seria o do chamado filme gay. Claro que tachar um gênero pelo seu tema, e não pela sua forma narrativa, já é complicado. Mas o fato é que o típico filme de relacionamento homossexual adolescente (ainda mais o filme feito pelo adolescente/jovem) segue sempre uma certa fórmula, um clichê inevitável, quase como o do “filme de guerra visto pelos olhos de uma criança” ou coisa do tipo.
Doce e Salgado porém, apesar da sinopse pouco animadora, consegue se distanciar desse estigma. Claro, não pela estória contada. Essa é a mesma, e não importa. Mas pela forma como se dá o desenrolar dela, a linguagem com que, sutilmente, trata do tema. Mas sutileza, de certo modo, também já virou clichê. O diretor Chico Lacerda aposta em outra coisa, portanto: textura.
Textura é talvez a palavra ideal para falar de Doce e Salgado. Se é fácil percebê-la na imagem “caseira” do filme, escolha perfeita para narrar um “romance caseiro”, esse trabalho de textura é muito mais impressionante na edição de som do filme. Baixo, quase imperceptível, cochichado, o som ambienta lentamente a descoberta, o momento. Grifa, pela mudez, cada momento de descoberta. Muito raro, aliás, filme que se preocupe tanto com o impacto do som como linguagem. Textura exige um tipo de contato tátil. Pensá-la como som, portanto, seria entender como o som pode envolver de uma maneira tão profunda que seja capaz de cercar o espectador e tornar possível sentir todas as pequenas nuances de sensações propostas. Talvez ainda se encaixa de maneira análoga à água da piscina que, no filme, também tem papel envolvente, tátil. Não poderia deixar de ser, portanto, através uma textura a descoberta sexual dos dois amigos: a pele, o toque, pé-com-pé, pra sentir bem de perto cada relevo do outro.
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