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Andarilho


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Publicado em 24 de Fevereiro de 2008

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Andarilho, de Cao Guimarães, 80min, 35mm, 2007

Agir sobre o mundo

Ao espectador desprevenido que entrar numa exibição do curta metragem Da janela do meu quarto, restará uma dúvida fundamental: ou Cao Guimarães é realmente um sujeito de muita sorte, ou então é um grande farsante, forjador de situações – e, no mínimo, um grande diretor de atores. Naquele caso, é o que se diz por aí, foi questão de sorte mesmo, o que não tira os seus méritos na direção, já que o filme, ainda que se nutra de uma matriz “real”, independente do aparato cinematográfico, é, no fundo, bem mais que um simples flagrante de uma cena, mas uma experiência de contemplação. E aí entram todos os processos de manipulação da imagem trabalhados pelo diretor ao longo da pós-produção daquele negativo em Super-8 filmado rapidamente em algum canto do país.

Andarilho, o mais recente longa de Cao, é um documentário, como também não deixava de ser Da janela do meu quarto. Cada um à sua maneira, os dois filmes registram personagens correspondentes e identificáveis, em maior ou menor grau, a indivíduos externos às situações mostradas. A diferença está na abordagem executada, pois se no curta de 2003 o olhar fílmico encerrava-se num voyeurismo puro e simples, em Andarilho, ao contrário, a mise-en-scène sairá em busca das faces de um real a ser esquartejado em planos que, somados e devidamente ordenados, irão gerar o caos ordenado apresentado ao espectador. Um filme bem mais complexo, portanto: três personagens, três grandes rodovias federais (as BR 251, 135 e 122) e um mundo de relações a serem tecidas a partir daí.

O andarilho é por natureza um solitário, alguém que rejeita laços, sejam quais forem – afetivos, sociais, políticos, culturais –, com as instâncias de uma sociedade que simultaneamente ampara e controla o indivíduo. Sem destino certo, seu lugar é naturalmente a estrada – assim como seu tempo é o tempo presente, de caráter transitório. Dos laços rompidos, nascerão novos (e fugazes) processos de integração com o que está adiante. O andarilho vive então uma relação de eterna renovação com o espaço e com o tempo (e isso talvez justifique a loucura, porque não há lógica que resista a verdades dissolvidas a cada passo). E é isso que Cao Guimarães parece querer registrar com sua câmera: a cada plano, uma nova situação, um novo paradigma de integração entre o indivíduo filmado e o mundo ao seu redor.

Essa idéia é essencial para compreender o que representa a obra do diretor para o documentário brasileiro: longe de querer por o espectador em contato com um real pretensamente puro, ou com um conjunto de idéias previamente organizadas, o cinema de Cao Guimarães volta-se para uma apreciação estética da realidade. Trata-se, nesse sentido, de um cinema ideologicamente parecido, embora formalmente oposto, ao praticado por Eduardo Coutinho, pois se por um lado o objetivo de ambos é um contato afetivo com o que está do lado de lá da câmera, por outro, Coutinho e Cao têm formas distintas de agir sobre a realidade: o primeiro direciona, induz a realidade, seus entrevistados – e mostra isso -, enquanto que o segundo verdadeiramente altera, manipula esse real, como veremos a seguir.

Essa ação sobre a realidade acontece em duas etapas, sendo a primeira já comum aos outros filmes de Cao: uma preocupação excessiva com a composição dos planos, isto é, em como a realidade se organizará dentro do enquadramento, associada a uma ação direta sobre a imagem por meio da fotografia – o manejo da luz, das cores, das linhas (eventualmente fluidas, com nas ondas de calor que emanam do asfalto). Cao trabalha com uma torção da imagem para chegar a um equilíbrio, uma espécie de comunhão entre os personagens que registra e o espaço ao seu redor. Em Andarilho, a matéria é fluida, como fluida é a existência dos que andam sem rumo – adaptáveis a qualquer espaço, qualquer situação.

A segunda forma de ação sobre a realidade trabalhada por Cao está obviamente na montagem, isto é, na construção dramática do filme. Existe aí, entretanto, uma operação que chama a atenção em particular: um encontro entre dois dos personagens, ao que tudo indica, forjado pelo diretor. Antecede o encontro, inclusive, um plano que sugere essa manipulação: um dos personagens anda num determinado sentido, pára, olha em outra direção e segue para lá, para o fora-de-quadro, como que indo ao encontro do outro personagem (um plano que funciona bem para o filme, narrativamente, mas que, sabemos, dificilmente foi flagrado naquele instante; é bem mais provável que tenha sido encenado ou filmado casualmente em um outro dia, em um outro lugar). São dois personagens opostos: enquanto um deles personifica a idéia do andarilho como alguém que rejeita uma ordem, o outro, ao contrário, se mostra bastante orientado em sua existência (Cao “narra” isso com planos descritivos do personagem olhando um mapa e de inscrições religiosas em seu carro). Do encontro, fatalmente surgirá um conflito. E é lógico que o diretor sabia disso quando decidiu juntá-los. Muito embora não pareça ter controle sobre o diálogo dos dois, ele agiu sobre o mundo, um pouco à maneira de Coutinho, para criar com o “real” uma expressão dramática.

Este é um dos dois únicos momentos em que há diálogos no filme. O outro vem logo no começo, antes dos créditos, sob a forma de prólogo. Fora isso, somente sons: ruídos, grunhidos, palavras incompreensíveis, carros passando… trilha sonora. Tudo devidamente articulado ao vídeo, de forma a criar imagens que extrapolem uma compreensão lógica dos eventos – ainda que o cérebro continue a funcionar e signos cruzem a tela vez ou outra, aqui e ali. A matéria então entra em processo de sublimação, mutada em um tipo de imagem indecifrável, nem documental nem ficcional, apenas objeto estético, ambíguo, quase abstrato.

PS: A quem for assistir ao filme, é interessante procurar saber antes se ele vai ser exibido em película, já que em projeção digital, como foi exibido em sua primeira ocasião na MFL (a próxima será na sala de cinema), perde-se consideravelmente o impacto causado pela fotografia.

Assista trechos de Andarilho e Da Janela do meu Quarto no site oficial de Cao Guimarães

Veja a cobertura completa da Mostra do Filme Livre 2008

Veja a cobertura completa do Festival do Rio 2007



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