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Sangue Negro


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Publicado em 16 de Fevereiro de 2008

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Sangue Negro (There Will Be Blood), de Paul Thomas Anderson, 2007, EUA

A primeira coisa que pensei assim que soube da existência de Sangue Negro foi em como Paul Thomas Anderson é heterogêneo. Em seu quinto longa-metragem, conseguiu explorar universos extremamente distintos, desde o cassino de Sydney, do cinema pornográfico em Boogie Nights, passando pela chuva de sapos de Magnólia, pelo romance tresloucado de Embriagado de Amor e chegando a esse épico petrolífero que é Sangue Negro. Essa trajetória é importante por traçar como o diretor consegue manter uma narrativa própria em ambientações tão distintas. E não, os filmes não se parecem, não se aproximam tanto quanto pode ser pensar de início. O traço de autor está além da esquematização de símbolos construídos pelo diretor: está mais próximo da forma como ele narra suas suas histórias.

Começa pela noção de que P.T. Anderson, apesar de atingir grande reconhecimento no circuito comercial, nunca deixou de experimentar linguagem. Em Embriagado de Amor, por exemplo, toda a narrativa é tracejada por flares (aquelas luzinhas que entram na lente quando a gente está contra a luz) azuis e vermelhos, compondo dois espaços nítidos entre os dois protagonistas Adam Sandler e Emily Watson. Em Sangue Negro, há uma espécie de plano que perpassa todo o filme e é a forma mais impressionante de narração que o filme atinge: a câmera em steadycam (uma aparelho que estabiliza a câmera na mão), se aproxima da ação lentamente, balançando de leve, enquanto a música ruge ao fundo. Há vários desses ao longo dos mais de 150 minutos de filme. O importante é o fôlego de experimentação narrativa que traz ao filme: é interessante ver uma câmera que se entrega e se mostra tanto num filme com um ambiente tão antigo e inóspito (assim como numa cena onde uma tira de óleo espirra na lente).

Os planos vão se encadeando de forma inconstante. A todo o momento há no ar uma sensação de desespero, de incômodo, de ansiedade. A tensão fica no ar, a morte fica no ar (talvez até mais que no filme dos Irmãos Coen), muito ajudada pela maravilhosa trilha sonora de Jonny Greenwood (é ele mesmo, do Radiohead). Em Embriagado de Amor essa ansiedade sonora já se mostrava muito presente: há sons, ruídos, batidas e música o tempo todo. Como aqui, mas em Sangue Negro tudo é mais pesado, denso. A trilha desconjuntada bate o coração mais forte, deixa tudo mais rápido, mais impensado, mais amedrontador – diga-se de passagem, uma das melhores trilhas sonoras que ouvi nos últimos tempos. Aliás, palmas também para a incrível e impecável Edição de Som do filme (entrem no site oficial do filme para ter uma idéia da trilha).

Sangue Negro fala sobre um homem ganancioso e obstinado. Constrói a relação dele com seu filho e com uma vila onde ele descobre grande quantidade de petróleo e decide explorar. Nessa comunidade então, o principal conflito de Daniel Plainview (a personagem de Daniel Day-Lewis) é com a Igreja e o padre Eli (Paul Dano). Trava-se aí, se pensarmos de maneira mais simplista, o conflito moderno entre Estado e Igreja, ou mais ainda, entre o Capitalismo Industrial e a Igreja. Há também as relações conflituosas de Daniel com seus empregados, com seus concorrentes e, ainda, com seu suposto irmão, que chega na cidade lá pro meio do filme. Fica então a idéia de poder pairando a todo o momento na sala de cinema. Aqueles que leram muito Foucault ficariam eufóricos com as relações de micro-poder que o filme desenvolve. Mas, em última instância, a boa e velha análise marxista-0rtodoxa também vale: a grande leviatã da luta de classes está presente a todo momento. “Você tem todo esse petróleo debaixo do chão, mas tem alguém que possa alcançá-lo?“, questiona Daniel Plainview, em vários momentos, aos donos das terras que pretende comprar.

Fica a questão então de onde vai o cinema norte-americano recente. Há uma forte relação entre Sangue Negro e Onde os fracos não têm vez, dos Irmãos Coen (talvez até também em Os Indomáveis, remake de James Mangold). Não apenas no ambiente desértico, na narrativa tensa e cheia de inquietações, mas na dedicação à figura do facínora, do mal impiedoso, inexorável (fica aqui então o atestado da ingenuidade de Os Indomáveis, um remake de um filme de 57 que simplesmente não se encaixa mais no mundo). Há, nos três filmes, relações de poder e moral que se constroem ao redor da fogueira, como os homens primatas. Há, portanto, a construção moral de uma sociedade, de um país. Hoje, nesse século XXI sem perspectivas, voltamos a falar de construção, de começo, de transformação. Há então uma volta ao primitivismo animal, à carnificina quase canibal, ao ódio instintivo. Mas o ódio tem regras, tem moral. Em Sangue Negro, o aparente desdém de Daniel reforça sua obstinação. É fabulosa a maneira como, sem sequer se questionar, ele ultrapassa toda e qualquer regra que alguém pudesse ter criado e, como a própria Revolução Industrial que acompanha, define um novo mundo, a seus pés.

ps: falei de inovação de linguagem, mas por último, Anderson aproveita para criar um pequeno paradoxo de linguagem. Enquanto seu filme narra de maneira extremamente nova uma história antiga, resolve inovar também ao voltar no tempo: como se fazia apenas muito antigamente (ou em curtas metragens), os créditos finais do filme contém apenas cartelas, e não o scrolling text (aquelas letrinhas que vão subindo).



3 Commentários sobre 'Sangue Negro'

  1.  
    Fernando Alves

    18 Fevereiro, 2008| 11:58 pm


     

    A vitória de Daniel Day Lewis na noite do Oscar de 2008 é tão ou mais esperada que, se brincarmos de comparação, é tão aguardada quanto a vítória da seleção brasileira na copa de 1950 contra o Uruguai; ou seja: só não ganha se houver uma zebra (ou roubalheira) histórica. P.T. Anderson se consolida como um dos melhores “alternativos” diretores da safra atual do cinema. Põe-se propositadamente aspas pois é muito difícil se definir hoje um cineasta como alternativo. Copolla ou Scorcese eram altenativos nos anos 70. Spike Jonze e Jim Jarmursch (apesar de que este último ainda “force a barra” no conceito) ainda podem ser considerados como cineastas do tipo altenativos ( algo que Tim Burton sempre brincou em não ser, no mais engraçado lema: “parece mas não é”). Apesar de que esses mesmos conceitos se diluem ao ver um cinema com pretensão tão inédita, tão autoral e ao mesmo tão globablizante e massificante como a obra de um Alejandro Iñarritu em produções como BABEL. Voltando a SANGUE NEGRO, filme que concorre ao Oscar, no tocante a seus aspectos visuais, que são tão significativos quanto o roteiro, apontados na brilhante resenha do filme apresentada neste site, de fato; fora o talento de Anderson, o filme todo pertence a Day-Lewis. Sua entrega e cumplicidade com as inquietações do personagem: o anti-herói Plainview, já merecem resenhas comparativas, que deixam CIDADÃO KANE borrar nos chinelos. O máximo de um grande intérprete e de um grande papel, fugindo dos estereótipos tradicionais do “mocinho” e do “vilão”, é poder traçar um personagem controverso, mas tão identificado com nossas próprias contradições, que podemos transcender a sala de cinema, e nos confundir com ele. É o que ocorre com a atuação do premiado ator britânico. Podemos sentir estranhamento inicial como alguém que está conhecendo inicialmente alguém estranho e rude (como no começo do filme). Depois, vamos nos aproximando do personagem, até nos identificarmos com ele (quando vemos que ele tem e trata bem um filho pequeno). Após essa fase, nos chocamos com a ganância que ele pode apresentar (inclusive rejeitando a tudo e a todos mais próximos em prol da produtividade de seus negócios) e até que ponto ele pode chegar (nas cenas mais fortes e marcantes do filme). Em todos esses aspectos, Daniel Day-Lewis domina a cena impecavelmente. Não obstante os méritos de roteiro, a obra filmada é um filme de ator e diretor (assim como já ocorreu o talentoso binômio De Niro + Scorcese).A direção e atuação são irmãos siameses de uma proposta que vingou e deu certo, de um filme que tinha tudo pra ser chato, mas acabou se revelando um dos melhores filmes a serem apresentados em 2008, em nossos cinemas locais.

  2.  
    Fernando Secco

    19 Fevereiro, 2008| 1:34 am


     

    O bacana da persona Plainview (veja que há uma brincadeira típica de PT Anderson com o nome do rapaz) é que ele é estranhamente humano, imprevisível. Veja, por exemplo, o primeiro momento de conflito sério entre ele e o padre Eli:
    Eli vem cobrar dinheiro e, sem qualquer razão que justifique tanto excesso, Daniel estapeia, derruba e enche de petróleo/lama o rapaz, estarrecido. Todo o desenvolvimento gradual do conflito entre os dois se constrói num espaço fora de tela, fora de tempo. Ele não aparece no filme: aparece em saltos, grandes saltos. É fácil sair do cinema e pensar: “Putz, mas os dois nem pareciam se odiar tanto…”. Esse é o grande mérito do roteiro que alavanca a atuação de Day-Lewis: o ator se mostra perfeitamente capaz de superar essa evolução gradual do ódio e simplesmente aceita sua nova situação de conflito. É uma personagem que não “se redime”: ela sempre foi e sempre será igual. Perfeito.

  3.  

    2 Outubro, 2010| 9:47 am


     

    Não acho que seja ateísmo não, Ademir. Acho que é pragmatismo capitalista mesmo.
    Acho que o Daniel Plainview se opõe à Igreja mais pelos problemas que ela causa ao seu investimento do que por ideologia.

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