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Onde os fracos não têm vez


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Publicado em 14 de Fevereiro de 2008

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Em tempos de guerra, de George W. Bush, de um povo que esqueceu no 11 de setembro qualquer tipo de crença no outro, surge um filme como este Onde os fracos não têm vez. O filme é um diagnóstico da hostilidade do tal Estados Unidos profundo, texano. Cenário dos filmes de Faroeste, gênero por excelência americano, o Texas não é apenas a terra natal do presidente, mas o celeiro do que há de mais reacionário e direitista naquele país. Onde os fracos não têm vez é uma subversão do gênero fílmico e do olhar antropológico norte-americano.O filme dos irmãos Joel e Ethan Coen se foca no imaginário de uma sociedade bélica, armada de escopetas, que cultuam a liberdade através das armas, filhas de um fantasma chamado Vietnã. Seus personagens, à exceção de um ou outro, são homens e mulheres incrustrados na aridez do deserto na fronteira com o México. Às vezes são mexicanos que entram nos EUA para traficar, às vezes policiais de fronteira, às vezes apenas um povo perdido no meio do nada.

Em uma primeira leitura, mais óbvia, o filme é calcado na perseguição desencadeada pelo facínora, o homem sem resquícios de bondade, o monstro igualável ao terror de um Sexta-Feira 13 ou qualquer outro do gênero B. Ele encarna o inexorável avanço do mal, a falta de pudor, de amor, de compaixão. Não perceber, porém, os entreditos postulados no filme fará o espectador amargar a angústia do gato-por-lebre.

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Mas Onde os fracos não têm vez é esquemático ao apontar esse erro de leitura. No seu término, a inconclusão da trama superficial é tão escancarada que só se pode fazer supor que, de duas, uma: ou esse roteirista enlouqueceu ou o filme não é sobre o que se pensava que fosse.

O personagem de Tommy Lee Jones, um xerife já fatigado, é quem dá a leitura de assombro ao filme. É dele o trecho em off, logo no início da fita, que fala sobre onde a violência chegou, sobre sua ascendência sempre voltada ao trabalho junto à lei. A partir daí, o que desenrola é uma série de assassinatos, rastros de sangue e uma enorme quantia de dinheiro. É o xerife quem olha para o passado e faz a constatação que algo de muito errado aconteceu com a sociedade.

Grande parte do filme se passa nos desertos. É lá que surgem os primeiros cadáveres e a mala, motor de toda a violência. A posse desses dólares é o estopim para a perseguição impetrada por Anton Chicurgh, um Javier Bardem monocórdico e, também por isso, estranho o suficiente para atrair para si a áurea do mal.

Llewelyn Moss (Josh Brolin) caçava veados pelo deserto quando encontra a maleta com dois milhões de dólares em meio a uma cena que sugere uma negociação falha. São muitos mortos, carros metralhados e um veículo carregado com drogas. Assumir os riscos e ficar com o dinheiro; não acionar a polícia; envolver-se em uma perseguição de morte. São elementos típico de um trhiler que caem sobre a cabeça do personagem.

O cinema dos Coen é fortemente marcado por discussões morais. Ele sempre está levando narrativas a situações limites para colocar em questão os valores éticos de nosso tempo. Em Onde os fracos… não é diferente. Embora a direção extremamente arrojada aponte para outro caminho, para um cinema de mero entretenimento, são necessários olhos abertos para compreender profundamente um filme que parece, mas não é. Há um quê tarantinesco na obra, talvez uma espécie de elogio ao elogio que Tarantino faz ao cinema de gênero. Onde os fracos não têm vez é um faroeste sem heróis ou duelos redentores.

A grandeza do filme encontra-se nos detalhes, nos símbolos suscitados pelo dinheiro roubado: nas repetitivas sequências de pessoas sendo compradas; em como o dinheiro subverte a moral e gera uma violência desmedida. E embora escondida, há uma tese no filme, a de que o dinheiro corrompe, denigre, desvirtua a índole até dos mais puros. É daí que vem o título original (No country for old men), que explica de forma muito mais clara o filme. Um país que perdeu seus valores. O título se refere, sobretudo, ao personagem de Tomy Lee Jones, o xerife quase aposentado que percebe seu deslocamento, sua estranheza frente à violência do mundo contemporâneo.

É um filme amargo, árido como o deserto. Amargo como um tempo em que é crônica a não crença na alma humana; crônica a crença absoluta no consumo.



17 Commentários sobre 'Onde os fracos não têm vez'

  1.  
    Fernando Secco

    14 Fevereiro, 2008| 11:00 pm


     

    Ari, não acho que o filme tenha a ver com dinheiro. Aliás, acho que isso é o incrível sobre a personagem do Javier Bardem: lá pro fim ele fala que vai matar a moça não por dinheiro, mas por que prometeu. Como em “Os Imperdoáveis”, “não tem nada a ver com merecer”.

  2.  

    15 Fevereiro, 2008| 8:00 am


     

    Fernando, como falo no texto, o personagem do Javier Bardem atrai pra si a área do mal. Ou seja, ele é um personagem esquemático, como um monstro de um filme de terror. Mas o filme tem muito, muito a ver sobre dinheiro. No sonho que o xerife narra no fim do filme, ele recebe dinheiro do pai! Há várias cenas de pessoas sendo compradas pelo tal dinheiro da maleta. O caso do Javier Bardem é que ele foge um pouco à regra dessa lógica “empresarial” que permeia o filme. Mas só um pouco. Lembre da sequência em que ele paga a uma criança pela camisa, por mais que a criança queira ajudá-lo de graça. A decadência moral e ética mostrada no filme é resultado da ganância dos personagens. E tenho dito!

  3.  
    Fernando Secco

    15 Fevereiro, 2008| 10:03 am


     

    Ainda não sei. Não acho que o dinheiro seja o mais importante. Acho que fica mais próximo de um pano de fundo, mas ainda acredito que o principal motor da relação entre as personagens seja algo menos palpável. No sonho do Tommy Lee, o que mais me chamou a atenção foi não o dinheiro, mas o fogo que o pai dele leva, e que ele sabe que estará onde ele for.

  4.  

    15 Fevereiro, 2008| 10:26 am


     

    O que você está esquecendo, é que esse tal fogo que o acompanhará é coisa do passado, dos velhos, são as tradições, a moral, o caráter passado de pai a filho. Lembre do título original: No country for old men. O xerife está fora de lugar, ele se sente anacrônico exatamente por isso.

  5.  
    Fernando Secco

    15 Fevereiro, 2008| 10:39 am


     

    Claro, claro. O que eu quero dizer, e é bem próximo do que você diz, é que enquanto o policial chama a atenção do Tommy Lee que “tudo gira em torno de dinheiro”, no fundo nem tudo o faz. Se o dinheiro move as personagens durante o filme (e isso é óbvio, não fosse a maleta ninguém tinha se envolvido), a verdadeira importância, o verdadeiro tema, a grande questão por trás de tudo não é dinheiro, mas “capacidade”, uma espécie de poder. E isso está relacionado com tempo, com passagem de tempo, com novos tempos. Daí, claro, que a tradução do nome é imbecil, como vc mesmo disse. Então, o que quero dizer é que dinheiro é o que relaciona as personagens, mas não o que levanta questões para elas.

  6.  

    15 Fevereiro, 2008| 10:44 am


     

    Só não gosto desse “capacidade”, que você escreveu. Prefiro “ética”, “moral”, que, não à toa, é o velho tema dos Coen.

  7.  
    Fernando Secco

    15 Fevereiro, 2008| 10:45 am


     

    Fechando: só o usei por ser o que Tommy Lee fala lá pro final: “Me sinto incapaz”. Abs!

  8.  
    Elis Galvão

    15 Fevereiro, 2008| 11:09 am


     

    Creio que, embora o dinheiro mova a ação dos personagens, o filme tem a ver com a morte pela morte, da violência pela violência – essência pura dos filmes westerns.

  9.  

    15 Fevereiro, 2008| 11:13 am


     

    Entretanto, nos westerns há uma forte simbologia envolvendo o herói. São filmes carregados de um sentimento maniqueísta, de mocinhos e bandidos. No filme dos Coen, o herói – como o Fernando disse – é um incapaz! Isso diz muito.

  10.  
    Elis Galvão

    15 Fevereiro, 2008| 11:17 am


     

    Sim, ele me parece aposentado antes de está oficialmente nessa condição.

  11.  
    Fernando Alves

    15 Fevereiro, 2008| 11:28 am


     

    Suspense antropológico e semiótico. Podemos estabelecer uma série de adjetivos para esse filme, que gostem ou não, nos intriga, ou seja, põe a “cuca” pra funcionar. Muitos bons os comentários sobre o filme. Resta saber quem vai levar a melhor: “Sangue Negro” de Daniel Day Lewis ou os irmãos Cohen, com Javier Bardem. Quem sabe os dois??

  12.  

    15 Fevereiro, 2008| 11:31 am


     

    Ih, aí nem me meto. É briga de gente grande.

  13.  
    San

    24 Fevereiro, 2008| 4:28 pm


     

    Crítica perfeita! A melhor que eu li sobre o filme. Foi exposto o que realmente o filme transmite, parabéns!

  14.  

    24 Fevereiro, 2008| 6:37 pm


     

    Opa, San! Obrigado pelo comentário e continue acompanhando a Revista Moviola.

  15.  

    4 Março, 2008| 3:00 am


     

    acho que esse deslocamento do herói é realmente muito evidente, principalmente se repararmos em 3 episódios.

    Primeiro, logo no começo do filme, o próprio xerife diz, em sua narrativa, que ali é costume que os xerifes não portem armas, e cita alguns nomes como exemplo, salvo engano.

    Depois ele dá o próprio exemplo quando vai com o policial mais jovem ao trailer do achador da maleta, e o policial saca sua arma, mas o xerife não.

    Mas já perto do final do filme quando o primeiro achador da mala já é morto, o xerife retorna ao motel, e ao entrar no quarta saca uma pistola.

    E repare bem como ele porta aquela arma de fogo desajeitadamente.

    Realmente o auge do deslocamento, parabéns e obrigado pela crítica, abriu meus olhos.

  16.  
    Pedro Lucas

    30 Março, 2008| 5:06 pm


     

    A crítica está ótima, Aristeu, e acho que o dinheiro tem mesmo uma presença onipotente no filme. Mais exemplos é quando o Llewelyn compra o casaco do menino na fronteira do EUA com o México e a cena em que o Anton também paga pela camisa de outro garoto, para (também como o personagem de Josh Brolin) esconder o ferimento (apoiar o braço em que o osso quebrara). Coincidência ou não, as duas cenas citadas envolvem feridas (=P) e dinheiro. Metáfora?

  17.  
    cleonildes beserra de magalhaes

    21 Dezembro, 2009| 3:39 pm


     

    eita filme dificil! Comecei a fuçar sobre roteiro com referencia a greve e q tevessem ganhado oscar. Cá estou curiosissima sobre tal filme. Tantos pensamentos e contunuo na mesma – entao resolvi q vou estudar sobre o filme pra depois rever quem sabe assim consiga captar a intençao dos autores. No q vcs podem me ajudar?
    AgradeSiddha por tudo e por nada.
    DM

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