Goodbye, Dragon Inn, de Tsai Ming-Liang, 2003
Parte 1: A linguagem da melancolia
O mito do filme perfeito, da obra absoluta, ronda a vida de qualquer um que assiste e, principalmente, estuda cinema. Sempre costumamos adjetivar os filmes com nada menos que “brilhante”, “fantástico”, “genial”. Mas a discussão da perfeição muitas vezes escapa de qualquer conceito inteligível. Enquanto pensar que na construção formal de um material audiovisual cabe avaliar mérito e quantificar as coisas, no plano das idéias, das sensações, o impacto causado por um filme e, portanto, sua completude como “obra-prima”, está sempre ligado às impressões pessoais de cada um.
Tsai Ming-Liang é um cara bacana. Ele percebe perfeitamente que cada filme tem um pedaço de quem o fez. Faz os seus filmes consciente de que, já que nossa percepção dos filmes é muito pessoal, a autoria (leia-se realização) deles deve ser também. Assim, todos os seus filmes têm uma relação fortíssima com o espaço em que se passam, que é um sempre uma espécie de habitat de Tsai: o ambiente é sempre uma personagem, e sempre principal. Também não é por acaso que todos os seus filmes têm o mesmo ator como protagonista (Lee Kang-sheng) e, ainda, sempre vivendo uma mesma personagem, de certo modo. Assim se torna cada vez menos necessário apresentar a personagem, desenvolvê-la, por que ela está ali, você já a conhece, agora preste atenção no resto, na relação dele com o resto, no tal ambiente.
Mas Tsai também entende a necessidade da perfeição formal. Sabe que cada plano de um filme deve ter um propósito. Como ele também consegue dizer muito, mas muito mesmo, com um só plano, percebe a pouca necessidade de cortes. Seus planos longuíssimos sempre têm razão de ser. Não são desnecessários. Aliás, uma escola que ele criou (talvez junto com Hou Hsiao-Hsien, Jia Zhang-Ke e, lá atrás, Ozu) e que hoje é muito imitada, quase sempre de maneira pouco satisfatória.
Outra característica de Tsai é sua melancolia. Percebe o mundo como algo em transição, e sempre em transição para o pior. Sempre levando tudo e deixando só a saudade. E essa transição, essa saudade, essa mudança, está sempre ligada à uma dificuldade de comunicação, engendra essa dificuldade, essa distância.
Goodbye, Dragon Inn portanto, não poderia ser outro filme. Falei da relação de Tsai com o espaço para chegar aqui e contar que o filme trata de um cinema de rua que está sendo fechado. Sintoma contemporâneo. E a doença da cidade chega rápido a um lugar que Tsai ama. Já havia filmado no mesmo cinema em What time is it there?, de 2001. Descobre que o cinema será fechado e resolve tecer sua homenagem. E sua homenagem, sua disputa contra essa doença, sua luta, se dá dentro do espaço: ele, Tsai, representado pelo seu ator/amante/alter-ego Lee Khang-sheng; os fantasmas freqüentadores da sala; e o filme Dragon Inn, clássico filme marcial taiwanês da década de 60 que sofre, em Goodbye… sua última projeção antes do fechamento do cinema.
E a homenagem que Tsai faz não poderia ser trivial. É muito honrosa para sê-lo. Ele então estuda sua sala de cinema, percebe cada composição dramática que ela pode ter. Tece, com imagens, toda uma rede de sentimentos, de lembranças, de relações (estejam elas acontecendo ou o contrário). Compõe um épico de saudade com cada plano, um mais belo que o outro, todos inigualavelmente perfeitos, insubstituíveis. Emociona. Faz o que pode se aproximar claramente de ser um filme perfeito.
Parte 2: No tempo do cinema
Acho que todo cineasta deve, em algum momento da carreira, homenagear a arte cinematográfica. É talvez um agradecimento, um afago quente de quem se apaixonou, um acerto de contas carinhoso. Tsai Ming-Liang faz a sua homenagem da maneira mais triste que alguém poderia fazer, vendo seu mundo amigável ruir, sabendo de todo o individualismo, percebendo a rápida passagem do tempo. Entra no cinema pela última vez, para sair modificado, menor, dilacerado, na chuva, que é pra misturar com as lágrimas.
Falei da onipresença de Lee Khang-sheng na obra de Tsai, da sua representação como auto-retrato do diretor, de como Tsai se relaciona com o mundo através de Lee. É, portanto, de emocionar ver que Lee, em Goodbye, Dragon Inn, é o projecionista da sala de cinema. É ele que, num dos planos mais bonitos do filme (é muito difícil escolher…), depois de assistir todo o filme como espectador ativo dessa despedida, rebobina a película após a projeção, talvez simbolicamente tentando voltar no tempo, talvez apenas percebendo o vazio daquilo tudo. E nós vemos toda o rolo sendo rebobinado, todo ele.
É o tempo, é o tempo de Tsai que consegue dizer tudo de maneira tão sublime. Desde o tempo dos diálogos, cuja primeira linha vai aparecer apenas lá pros 40 minutos de filme; até a escolha de uma personagem aleijada que caminha por todo o cinema, cuidando dos seus últimos minutos; e também seus planos fixos de 4, 5, 6 minutos que nos deixam observar o tempo passar, correr, esvair.
A projeção acaba, a vida parece acabar junto. Cadeiras vazias. O delicado Tsai coloca dois atores que participaram do antigo “Dragon Inn” para conversarem sobre o bons tempos. Fantasmas. A mulher fecha o cinema e caminha na chuva. Música. Antiga, claro. Saudade, saudade. Despedida.
Textos originalmente publicados no blog Toda a Memória do Mundo, em 01 e 02 de julho de 2007
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