Revista Moviola » Uma história de amor

Uma história de amor


Por João Paulo Gondim

Publicado em 20 de Dezembro de 2007

Às vezes, não tem jeito, o clichê é inescapável. Ou como definir a relação da professora Elianne Ivo, que leciona Edição e Montagem na Universidade Federal Fluminense (UFF), com a moviola, senão amor à primeira vista?

Em meados dos anos 1980, Elianne visitou a Caliban Produções Cinematográficas, do documentarista Sílvio Tendler (Os Anos JK, Jango), na rua Professor Alfredo Gomes, em Botafogo. “Quando cheguei lá, o Sílvio me levou para conhecer o lugar. Em uma das salas estava Chico ‘pilotando’ uma Prevost (marca italiana de moviola) com duas telas, 16/35 mm”, conta. [O referido Chico é Francisco Sérgio Moreira, pesquisador, restaurador de filmes e respeitado montador que trabalhou com Sylvio Back e Ivan Cardoso e então sócio da produtora.] A professora sucumbiu diante da cena. “Acho que me apaixonei pelo montador e pela máquina…”, diverte-se.

O passeio na Caliban rendeu frutos duradouros. Além do casamento, Elianne e Chico ainda cuidam da querida Prevost. Semanalmente, o casal limpa e lustra a moviola, que não está aposentada, encostada na atual sede da produtora, na Avenida Augusto Severo, na Glória. Pelo contrário. A máquina é imprescindível no projeto de organização e digitalização de um vasto acervo de imagem. Nos seus carretéis são mapeados os filmes, distribuídos em 800 latas de 16 mm e 300 de 35 mm. Finalizado o hercúleo trabalho, a intenção é disponibilizar os títulos do arquivo para pesquisa na internet.

Encantada com a moviola, Elianne foi para a França em 1987, fazer mestrado em Cinema, na Université de Paris III (Sorbonne-Nouvelle). Em seguida, ainda lá, se inscreveu num curso prático em montagem, no Conservatoire Libre Du Cinéma Français, onde aprendeu a mexer na moviola com uma ex-assistente de montagem do diretor Jaques Tati, o célebre Monsieur Hulot.

Dessa época, Elianne só tem boas lembranças. “Cada aluno do curso tinha uma moviola, da marca alemã Steenbeck, à disposição. Montávamos sobras de telecines franceses. O mais difícil e desafiador era criar com aquilo Era muito legal. Tenho saudades”, recorda.

A opção pela montagem veio da crença de que, nessa fase, o filme ganha vida, constrói-se de fato. A professora se espanta quando ouve alunos falando que o montador é um mero “apertador de botão”. Para ela, o cinema por ser uma mídia linear – a quintessência da modernidade que trabalha arte e máquina, define – precisa de ordem, de escolha e, sobretudo, de reflexão.

Após o curso, veio o estágio nos Laboratórios Éclair no mesmo período em que os montadores franceses começavam a lidar com as primeiras ilhas digitais. Tal mudança tecnológica impressionou Elianne, a ponto de tratá-la em sua tese de doutorado em Comunicação, intitulada Máquinas de agenciamento de imagens: uma contribuição para o estudo da técnica audiovisual, em 2002, já de volta ao Brasil.

A substituição da tradicional moviola por modernos softwares não é tratada de maneira desoladora. “Cada qual tem seu charme. Com a moviola, o tempo é outro. A possibilidade de ver a película, os fotogramas, isso dá uma outra dimensão ao corte. Outra questão é que o ato real de cortar o filme, o fato de ser ‘destrutível’ como bem o diz Walter Murch, faz com que você seja mais cuidadoso e reflita mais sobre o ato. Não dá para ficar remendando o filme, colando e descolando. Já os softwares de edição proporcionam mais agilidade e a chance de experimentar mais. O que poderia ser feito mentalmente com a moviola, pode se ter a chance de executar virtualmente. É algo entre o mental e o virtual. Acho que a qualidade de uma montagem independe da ferramenta”, afirma.

Elianne Ivo é mesmo uma professora apaixonada pelo que faz. “Gosto do ato da montagem, da sala de montagem, gosto de estudar e falar sobre a história da montagem, de analisar e compreender o seu processo e, particularmente, gosto da história dos equipamentos de montagem”, enumera.

Clichês à parte, é ou não é uma história de amor?

Veja a reportagem O Homem com a Moviola, publicada no Rolo 1.

Compartilhe:
  • Twitter
  • Facebook
  • MySpace
  • Digg
  • del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Google Bookmarks
  • Live



3 Commentários sobre 'Uma história de amor'

  1.  
    Paulo

    21 Dezembro, 2007| 2:37 am


     

    Legal a matéria e a idéia da série. Abraço.

  2.  
    Solange Gondim

    21 Dezembro, 2007| 9:40 am


     

    Encanta-me sempre o estilo de redação do autor, bem como aprendo cada vez mais sobre a moviola, que, inicialmente, era apenas o título da revista, nome que supunha ter sido escolhido aleatoriamente.

  3.  
    JP

    23 Dezembro, 2007| 9:39 am


     

    Obrigado.

Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Paulo Ricardo de Almeida

29 de Julho de 2010

Após 17 sessões competitivas de curtas, os 20 melhores filmes que vi no Anima Mundi: 1. The Spine, de Chris Landreth 2. Tuukrid Vihmas, de Priit Pärn e Olga Pärn 3. Tempestade, de César Cabral 4. Passeio de Domingo, de José Miguel Ribeiro 5. Logorama, de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain 6. [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

28 de Julho de 2010

No consultório psiquiátrico, durante terapia de grupo, pacientes destroçados revelam suas maiores angústias e frustrações – especialmente a esposa (obesa) que reprime o marido (sem coluna verterbral). Chris Landreth prossegue, no maravilhoso The Spine, com o psicorrealismo que o consagrou em Ryan (Oscar de melhor curta de animação em 2004): os corpos refletem os sentimentos [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Casal se encontra por breves instantes todos os dias – ele trabalha como escafandrista até às seis da tarde, ela é enfermeira de noite. Pérola do humor negro e da sutileza, Tuukrid Vihmas retrata as obrigações cotidianas que separam os amantes. Priit e Olga Pärn se concentram em apenas um dia das atividades do escafandrista: [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Marinheiro solitário atravessa o oceano para encontrar a mulher que ama. A tempestade, no entanto, altera-lhe o percurso e o impede de vê-la novamente. Se apostava na força dos diálogos e no carisma das personagens em Dossiê Rê Bordosa, César Cabral se vale apenas do clima narrativo (luz e cores, sobretudo) em Tempestade, que se [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Todos os domingos, a família realiza o mesmo passeio: o pai estende a vara de pescar no canal (onde se proíbe a atividade) e ouve o jogo de futebol pelo rádio, os filhos brincam às escondidas no porta-malas e a mãe discute e reclama com o marido. Eles se divertem somente quando apostam corrida, pelas [...]

Anima Mundi Animação animações Cachaça Cinema Clube Cannes Cavi Borges CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Cinema universitário Curta Curta-metragem Curtas Daniela Thomas Debate Documentário Domingos Oliveira Entrevista FBCU Festival Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival internacional festrio Gay Karim Aïnouz Literatura Memória Minas Gerais Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Pré-estréia Rio de Janeiro Teatro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.