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Maco desce o morro


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Publicado em 20 de Dezembro de 2007

Teve um dia que eu subi o morro, como sempre fazia. Encostei o carro, ainda era início da noite, tinha muita água para rolar. A boca-de-fumo ainda estava bem vazia, como eu preferia mesmo. Um cara tinha me encomendado uma quantidade maneira de pó para ele e os amigos, acho que era um pessoal que ia viajar, algo do gênero. Sei que quando descesse para o EscoBar e os encontrasse, caralho, ia rolar uma grana preta. Comprei bem rápido, confiante: nego arregala os olhos com tanto dinheiro. O tal do chefezinho que devia estar ficando com a Luana não estava por ali, o que me deixou bem mais tranqüilo.

Fui descendo o morro numa boa, aquela ladeirinha, as casinhas no entorno e tudo vazio, meio escuro. Quando a gente vai de carro parece que essas coisas meio que não existem, que é só um grande buraco que separa a boca do resto da cidade. Mas eu dirigia devagar, não tinha por que ter pressa, ia reparando no que passava pelo caminho. Ia ter baile naquela noite, volta e meia aparecia alguém subindo o morro a pé. Nem sei se iam para o baile ou para a boca, ou para nenhum dos dois. Tem gente que sobe a pé, assim, na maior. Que nem eu há um tempo, só que aí era sempre para comprar pouco. Imagina se hoje em dia eu ia ficar andando na rua com essa quantidade de pó. Mas aquele pessoal, sei lá, nego vai mesmo e não quer nem saber. Continuei olhando, era engraçado. Umas garotas com cara de classe média, sozinhas, deviam estar indo para o baile. Nem sabia quem eram, nunca as tinha visto. Pensei até em falar com elas, vai que conheciam a Luana. Porque vou te dizer, Nuno, eu tinha uma vontade filhadaputa de ver a Luana naquele dia, era capaz até de passar na casa dela, de perguntar para minha prima onde ela estaria. Às vezes é inútil tentar controlar.

Desci mais um pouco, sem pressa. Tinha tempo até a hora que eu marcara com a galera do EscoBar. Continuava escurecendo e agora só dava para ver pouca coisa, os vultos das pessoas passando meio indiferenciados pelo meu carro, ainda que eu próprio prestasse atenção, vendo a Luana em todos os cantos, procurando a Luana em cada um que cruzava o meu caminho, porque era só a Luana, porra, eu só queria saber da Luana, bem que ela podia topar comigo ali mesmo, subindo a pé como devia estar fazendo desde que eu parara de levá-la de carro nos bailes. A Luana sabe aproveitar as oportunidades, como talvez soubesse aproveitar a chance que eu, pensando comigo, estava disposto a lhe dar. Mas não aproveitou nada quando, dali a menos de três minutos, o que seja – e é tão engraçado como parece que a gente pode prever as coisas – quando ela passou pelo meu carro, subindo a pé um dos trechos mais desertos, exatamente do jeito que eu tinha imaginado, sozinha, aquela calça da Gang apertada com o início da bunda para fora, o tipo de coisa que eu sempre estranhava nela, como conseguia usar aquelas roupas ridículas e continuar linda, sei lá, porque não combinava nada com o jeito dela, por mais gostosa que ficasse e mesmo que eu nunca tivesse reclamado no tempo em que estivemos juntos, a garota naquela vulgaridade, naquelas roupas de piranha – que no fundo ela era isso mesmo – e ainda assim tão linda, tão com cara de minha menina que caralho, Nuno, eu não tinha conseguido esquecer. Porque foi só bater os olhos nela para me dar conta disso, de que eu era tão a fim dela, sabe, tão amarradão, que não dava para fazer outra coisa além de mandar um foda-se para todas as merdas que ela me falara, pedir desculpa, sei lá, pedir mais uma chance, Luana, fica comigo de novo pelo amor de Deus, Luana, você não vê que eu gosto tanto de você, garota, vai ganhar o que dando para o cara da boca de fumo? Mas ela subia apressada, sem olhar para os lados, o jeito de medrosa que sempre fazia quando se via sozinha. Passou reto por mim, eu sem saber se realmente não tinha reconhecido o carro ou se se fingia de distraída. Freei de repente, os pneus cantaram de leve, ela não pôde deixar de virar a cara para o meu lado, de me ver saltar do carro e correr em sua direção, “Luana, peraí, Luana, quero falar contigo!”, e eu não sabia se devia gritar daquele jeito, se estava botando tudo a perder, mas quer saber? A verdade é que pouco me importava a cara de constrangida que ela fez, como se quisesse acima de tudo se livrar de mim, ou que me ignorasse e continuasse seu caminho apertando o passo, como de fato fez, pouco me importava que ela se vestisse da maneira mais escrota para ficar rebolando na frente de outro, para um cara desconhecido passar a mão na bunda dela, eu só corria e implorava para ela me esperar um pouco, “Luana, Luana, espera por favor!”

Alcancei-a uns dez metros depois. Mantinha o rosto baixo, parecia que não tinha coragem de me encarar.

– Vai para o baile?

– Vou.

Senti que tinha de ir direto ao ponto, que não adiantava ficar enrolando.

– O que aconteceu, Lu? Anda, me fala.

Mas ela permanecia inerte. Cheguei a pensar que estivesse chapada, quando afinal virou de frente para mim, o seu olhar perdido e eu sem a menor idéia do que fazer.

– Nada, Maco.

– Claro que tem coisa aí, qualquer idiota percebe. Me conta.

Ela silenciou, e me deu tanta raiva, Nuno, um nervoso dela ficar paradona desse jeito, caralho, segurei-a firme pelos braços.

– Anda, Luana, fala logo, não me faz perder a paciência contigo.

– Me solta, Maco! – ela se libertou das minhas mãos, não forcei a barra. – Deixa de ser escroto, cai fora daqui.

– Só saio quando você me der uma explicação. – a minha fala era dura.

Olhou à sua volta, como se buscasse alguém que lhe socorresse. Tudo deserto, tudo escuro. Eu continuava à sua frente, decidido a fazê-la me contar. Foi então que, como se checando de novo se não havia ninguém – e aí me pareceu que o que buscava não era exatamente ajuda – chegou bem perto de mim, quase como se quisesse me beijar, os olhos arregalados num sussurro:

– Me ferrei, Maco, saca? Estou fudida. Me entende por favor! – e tornando a se afastar – Não vou te falar mais nada, não precisa. E agora se manda daqui, é só o que eu te peço.

Ela então se virou novamente para o outro lado, suspirou e seguiu seu caminho. Continuei observando-a por algum tempo, como andava devagar e desesperançosa. A vontade que dava era de subir de novo na boca, entrar no baile, o que fosse, achar o maluco, enchê-lo de porrada, eu queria vingança mas era mais que isso, eu queria que a Luana voltasse a ser a minha Luana, que a gente voltasse a ir para os bailes todo fim de semana e se divertisse tanto quanto agora eu me desesperava de vê-la assim, melancólica, certamente indo para o baile do mesmo jeito que sempre fora, desde antes de eu conhecê-la, desde antes de tudo, as palavras reverberando na minha cabeça enquanto eu, na distância que me separava do carro, chutava as pedrinhas soltas do asfalto, Fudida, Maco, te peço, cai fora, se manda, me ferrei, e quando finalmente bati a porta e pus as mãos no volante, quase chorando, me ferrei, Maco, só o que eu te peço, caralho, tudo escuro já, foi quando olhei o relógio, e me dei conta do tempo que passara, da galera que dali a pouco me esperaria no EscoBar, a grana que ia rolar, ia ser muito vacilo furar com eles, daí eu percebi que estava tudo acabado.

* Victoria Saramago cursou Letras na UERJ e é autora do livro René Esfacelada. Maco desce o morro é um fragmento do romance inédito Meio-fio. Ela escreve também Memórias, sonhos e reflexões de um quarto de hotel em seu blog.



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