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Fodido, Fodidos



Davi Kolb

Ele estava fodido. Era feio. Era negro. A perna tinha um machucado um pouco abaixo do joelho direito. Enorme. Purulento. Quando estava próximo de cicatrizar ele pegava uma chave de fenda e voltava a abri-lo. Mancava por conta da ferida. Fazia questão de acentuar o movimento capenga. Vendia doces em ônibus da cidade. Chicletes, balas variadas, paçoca, amendoim e chocolate. Pegava carona nos coletivos. Entrava por trás. Caminhava com dificuldade até o trocador. Pendurava o gancho de ferro com suas mercadorias numa das barras de apoio aos passageiros. Sua tática era diferente dos concorrentes. Em vez de falar um texto tosco e mal decorado, fazia o contrário. Não falava. Só olhava. Encarava demoradamente cada passageiro. Olhava bem nos olhos. Um a um. Passava-se um minuto. Às vezes dois, até que o primeiro passageiro fazia sinal e pedia qualquer coisa. Um real. Outro chamado. Outro real. Mais um. Mais reais. Todos os passageiros compravam algo do ambulante. Todos queriam se livrar dele logo. Aquela figura causava desconforto, irritação, mal-estar generalizado. Todos internalizavam estes sentimentos. De algum modo o fodido sabia disso. Era, também, um sujeito astuto. Aproveitava-se da situação para ganhar quatro vezes mais que outros vendedores fodidos. Vendia e ia embora sem dizer nada. Após sua partida a sensação era de retorno à ordem. Então os passageiros abriam os seus saquinhos de doces. Comiam. Chupavam. Mastigavam. A vida era doce, novamente. Estavam todos fodidos.

* Davi Kolb é roteirista e curta-metragista. Tem no currículo os curtas A Margaridinha, Hora Extra e Universitário ou o sujeito que gostava de contemplar a vista.


Publicado em 20 de December de 2007


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