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Daniel Galera


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Publicado em 20 de Dezembro de 2007

Foto: Kênia CastroDaniel Galera é um dos principais nomes da novíssima safra de escritores a despontar no cenário nacional. Ele ganhou mais repercussão depois que Beto Brant rodou uma adaptação do seu primeiro romance, Até o dia em que o cão morreu. Na entrevista abaixo, Galera fala sobre o filme (Cão sem dono), sobre a sua relação com a internet, sobre o fim do selo Livros do Mal e diz que experimentação de forma é coisa do passado.

A conversa foi em Natal (RN), quando o escritor passou uma temporada depois de comparecer à Feira do Livro de Mossoró (também no RN). Os créditos da entrevista vão para o e-zine Disruptores.

Alexandre Honório: Você começou a ter visibilidade graças a tua participação em publicações na internet. Você acha que a internet contribuiu para dar uma, digamos, oxigenada no cenário literário brasileiro de uns dez anos pra cá?

Daniel Galera: Acho que sim [risos]. A pergunta já meio que se auto-responde, né? Eu acho que isso é uma coisa que já está muito evidente. É como se perguntassem “Você acha que o telefone mudou a comunicação entre as pessoas?”. Hoje já é uma coisa jurássica, mas quando eu comecei era novidade.

Tiago Lopes: Talvez pelo fato de ter deixado de ser novidade, não tenha mais aparecido uma nova levada de escritores pela internet. Você, o Cuenca, o Pellizzari foram os últimos que eu me lembro de ter visto surgir.

Galera: Hoje em dia você acha que não tem aparecido mais gente?

Honório: Que use a internet da mesma forma, não…

Galera: Não, eu acho que vocês estão enganados. Existem vários, só que hoje em dia não chama mais atenção. Quando a gente começou a fazer o CardosOnline era tudo novidade. Só o fato de a gente tá publicando na internet já era notícia – e isso antes de aparecerem os blogs. Mas de 2003 pra cá isso já se tornou um padrão, já tem mais de mil caras fazendo isso. Claro que vão vingar poucos, mas é uma coisa comum.

Honório: Mas quando você chega em outros estados e tem a oportunidade de conversar com outros autores, as pessoas te perguntam como é que você conseguiu chegar onde está através da internet?

Galera: Essa pergunta tem uma armadilha. Não é que eu consegui chegar aonde cheguei porque eu comecei a publicar na internet. A internet me ajudou a formar um público leitor antes de ter livro, o que era uma coisa muito difícil até então. Quando eu publiquei o meu primeiro livro de forma independente – o que hoje também não é mais nenhuma novidade – na Livros do Mal, eu já tinha um público formado através da internet. O livro chegou e não foi mais um que caiu de pára-quedas, foi “o livro do cara que escreve no CardosOnline”, e esgotou rápido uma tiragem de 1000 exemplares no Brasil inteiro. O segundo livro já chegou na mão de um cara da Companhia das Letras e esse cara leu e gostou muito. Quer dizer, se eu tenho uma editora não foi uma coisa direta da Internet, e sim dos livros independentes que circularam. As pessoas me falam “Pô, eu também tenho um blog e não consigo ser publicado”. Mas não é assim, a coisa não funciona dessa maneira.

Alexis Peixoto: Na Livros do Mal, você além de publicar seus livros, também era editor. Exercer essa função a mais, te preparou para trabalhar com uma editora de maior porte?

Galera: Como autor, não faz diferença nenhuma.

Alexis: Mas eu digo na forma de se relacionar com a editora e com os processos de pré-publicação. Não deu pra aprender alguns macetes em relação a isso não?

Galera: Ah, nesse sentido acho que sim. O fato dos autores novos se auto-editarem força a aprender um pouco a lidar com essas atividades de pré-publicação. No meu caso, o que acontece é que eles não quiseram mexer no meu livro. Comigo foi tranqüilo. Eles deram umas dez mil sugestões, corta capítulo, muda isso, muda aquilo. Mas é tudo sugestão. Eles me devolveram tudo isso, eu levei pra casa, algumas sugestões eu acatei, porque eram boas, outras não. Chegaram a sugerir o corte de um capítulo, mas eu falei que não e eles só disseram “Tá, beleza”. Eu já editei livro, eu sei o controle que eles me dão. Mas essa é a minha relação com a Companhia. Não sei como é com os outros autores de lá, ou como funciona em outras editoras. Se esse negócio do corte do capítulo fosse uma exigência e não uma sugestão, eu caía fora, não publicaria. [pausa] Agora, os escritores nunca tiveram, como têm hoje em dia, tanto controle sobre o produto final. Desde a parte gráfica, diagramação, tudo. Uma das causas é a publicação independente, os caras aprendem na marra, por osmose.

Honório: Mudando um pouco de assunto… A gente tava conversando antes da entrevista sobre teu trabalho de tradutor. Pega Trainspotting, de Irvine Welsh, por exemplo, que você traduziu junto com o Pellizzari: é cheio de maneirismos, de gírias e tal… Fico pensando o quão complicado é verter tudo isso pra uma língua como a nossa… Não sei, acho que acaba sendo uma atividade talvez até mais estressante do que a de escritor. Em Pornô, que você traduziu com o Pellizzari, também…

Tiago: Até pelo fato do livro ser mais longo e muito mais sujo.

Honório: Pois é. Essa labuta de recriar atmosferas e estruturas em outra língua te fez, de alguma forma, ser um autor melhor?

Galera: Acho que a tradução ajuda tanto nesse sentido quanto a própria leitura. Uma leitura bem feita vai ensinar tanto para o leitor quanto a tradução daquele mesmo texto vai ensinar para o tradutor. Isso em termos de estrutura, recursos e tal. Agora, na questão da linguagem, há um ensinamento, tanto da língua de origem quanto do português. Às vezes aparecem situações onde tu se vê obrigado a aprender algo que não sabia para pode resolver aquilo. E o inverso também acontece, a tradução te leva a entrar muito profundamente na língua original.

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Honório: E essa coisa da linguagem? A linguagem que você usa, em Até o dia em que o cão morreu, é uma linguagem que, de certa forma, traz o autor mais próximo do leitor. Isso de não usar travessão, por exemplo…

Galera: Eu não tenho, nunca tive e acho que nunca vou ter pretensão nenhuma de experimentar com a linguagem ou enfrentar qualquer cânone literário. Se algum escritor tem esse pensamento hoje em dia é bastante ingênuo. O momento de quebrar regras e experimentar com formas de linguagem já passou.

Tiago: Mas não tem mais nada a ser subvertido?

Galera: Não tem mais nada! Houve um momento na literatura em que destruir esses cânones era importante. Mas aí chegou Kafka, Joyce, Guimarães Rosa. E esses caras quebraram o barraco de tal forma que esse negócio de experimentação não tem mais valor nenhum.

Honório: Mas nada impede que o cara passeie por esses processos.

Galera: Aí é que tá. Quem for começar a ler a produção literária dos últimos dois séculos vai ter um cardápio de recursos desses caras que chutaram o balde. Tá tudo ali. Pega o William Burroughs: tá lá a técnica do cut-up… Pode usar aí… No meu caso, quando eu uso uma coisa que parece ser uma ruptura é porque eu já li isso antes e vi que deu certo. Se eu não uso travessão é porque eu já vi isso em algum livro e causou um efeito legal, que eu gostei. No livro novo, eu tô usando travessão mesmo. Depende de cada livro, do ritmo que eu quero que o livro tenha.

Honório: Isso do ritmo é interessante… Ano passado, o Marcelino Freire esteve aqui e declamou alguns textos. Foi muito interessante, mas quando eu peguei o livro…

Galera: Não funcionou…?

Honório: Não! É isso que eu quero dizer: em Até o dia em que o cão morreu, o texto foi construído pra ser lido mesmo.

Galera: Isso é uma coisa que me preocupa constantemente. Inclusive em relação ao diálogo. Outro dia eu vi uma palestra do Luis Vilela e ele – que é considerado um mestre do diálogo – falou exatamente isso. O diálogo literário perfeito não é uma reprodução de um diálogo da vida real. Se tu pegar e gravar uma conversa na rua e colocar no livro assim, não vai parecer natural. Há um trabalho em transformar isso pra leitura que eu também não sei como é que faz. A gente só aprende isso lendo muito e fazendo. É um processo literário mesmo.

maosdecavalo.jpgTiago: Na época do Mãos de cavalo foi quase um consenso entre a crítica de que aquele era um momento de maturidade do Galera. E eu lembro que você escreveu no seu blog que isso te irritava. Por que é tão irritante ser chamado de maduro?

Galera: Primeiro, por que essa palavra é horrível. “Maduro, maturidade”… É horrível. Segundo, que pressupõe que há uma maneira certa de escrever e, ao atingi-la, você atinge a maturidade. Isso é uma bobagem.

Alexis: A impressão é que o que faz agora é “massa”, e o que você havia feito antes não tinha tanto valor…

Galera: Pois é. Mas eu achei engraçado. Tudo bem, o Mãos de cavalo foi um livro no qual eu trabalhei mais, foi mais elaborado. Mas bateram tanto nesta tecla da maturidade que eu acabei me irritando. Na verdade, era mais brincadeira. Prefiro ser chamado de adolescente do que de maduro.

Honório: Que é que você achou de Cão sem dono?

Galera: Gostei. Como autor, tenho ressalvas, mas como espectador, eu gostei. Eu acredito que um filme é uma nova obra, ainda mais partindo de um diretor tão autoral quanto o Beto Brant. Eu não estava esperando que eles transpusessem o meu livro pra tela, isso foi combinado desde o começo. É uma releitura porque é uma outra linguagem. Claro, existem coisas do livro que não estão no filme e eu gostaria que estivessem, mas isso é uma coisa de autor mesmo. O ponto de vista da Marcela, por exemplo, é pouco explorado. No livro tem aquele último capítulo narrado por ela onde a idéia era jogar na cara do leitor a versão dela de tudo aquilo que aconteceu. E isso caiu fora do filme, apesar de eu achar que era possível de ser feito.

Tiago: Você já tinha pensado em alguma solução pra transpor esse capítulo pro filme?

Galera: Tinha, mas não vale a pena falar. Eu não sou diretor de cinema. Na minha cabeça era possível, na prática eu já não sei. Eu acho também que o filme é um pouco redentor com o personagem do cara, na segunda metade. O livro é muito mais duro, deixa ele naquele limbo e a gente não sabe se ele vai sair ou não. Aliás, a possibilidade de que ele não saia é que é perturbadora. No filme, ele volta pra casa e tal e se cura, em certo sentido. [pausa] Mas cinema é outra mídia. Talvez se o tratamento dado a ele no livro fosse dado no cinema, ia se tornar muito excessivo, repulsivo para o espectador. Talvez essa decisão de amenizar a situação do cara possa ter sido uma decisão inteligente. Mas enfim, eu gosto do filme, acho muito bom.

Honório: O que é que você acha dessa discussão sobre o projeto Amores Expressos, de que o dinheiro usado para financiar a viagem dos participantes poderia ter sido usado no lançamento de autores inéditos?

Galera: Olha, eu acho que o projeto tem méritos. A soma envolvida no projeto, em comparação ao que ele é, não é excessiva. É uma soma de encher a boca né? Um milhão e duzentos mil… Mas isso inclui um monte de coisas: viagens internacionais, produção de documentários pra TV, DVD… O dinheiro não era pros autores. E um dos méritos do projeto é justamente reunir autores que não tinha livros publicados, até um cara conhecido como Sergio Sant’Anna. Houve também muita distorção na divulgação, a matéria da Folha, a do No Mínimo, saíram com informações erradas. E outra que as pessoas não estão acostumadas a ver a literatura como uma área que recebe recursos de renúncia fiscal, apesar de se gastarem tubos de dinheiro na produção daqueles coffee-table books com fotos da cidade pro cara mostrar as visitas e que ninguém lê. Aí se faz um projeto literário com o mesmo esquema de captação, que vai gerar 16 romances originais de autores de diferentes níveis de consagração… Acho ducaralho isso. Se a lei pode ser usada, por que não? E além do mais, acabou que o projeto vai ser financiado sem a tal da Lei Rouanet. Então, qualquer polêmica que poderia haver já não existe mais.

Tiago: Em algum momento o livro deixou de ser uma encomenda da editora pra virar um projeto pessoal? Quer dizer, se é que você encarou dessa forma…

Galera: O projeto foi encomendado por uma produtora de São Paulo, não pela Companhia. “Tu vai pra tal cidade, escrever um romance que se passe lá, no prazo tal, pra ganhar X: Quer ou não quer?” Foi assim. E nem tinha editora envolvida! Pra mim, nunca soou como encomenda. Porque o que a “encomenda” impunha? Pra qual cidade tu vai e onde o livro se passa. Isso pra mim não era imposição, era um estímulo. Aí, tinha que ser também uma história de amor, o que pode ser qualquer coisa, tu pode escrever o que quiser. As exigências eram muito generosas, eram requisitos muito abertos. E calhou que eu já estava disposto a começar um livro novo naquela época, já havia assinado com a Companhia e tudo. Aí, peguei esse “impulso”.

Honório: Você tem vontade de voltar a publicar autores novos, ou quem sabe, transformar a Livros do Mal em um selo dentro de uma grande editora?

Galera: A Livros do Mal pegou um momento bom pra esse modelo de publicação independente, com a onda de autores novos publicando na Internet. Agora, de lá pra cá já existem dezenas de selos assim. O retorno da Livros do Mal hoje talvez já fosse redundante. Na época, havia a necessidade de projetos semelhantes, agora já não sei. Seria preciso um livro muito bom, que ninguém quisesse publicar, aí a gente ia lá e pronto. Mas fazer por fazer…

Honório: Acho que aconteceu com essa geração da literatura o que aconteceu com a música no início dos anos 90, quando o lance da independência falou mais alto. Na literatura aconteceu meio tardiamente, mas talvez tenha tido tanto impacto quanto.

Galera: Hoje em dia eu teria mais vontade de trabalhar com quadrinhos ou com vídeo-game do que publicando livros. Acho que são duas coisas que têm espaços não preenchidos e que vivem um momento semelhante ao que era o da publicação independente em 2000.

Alexis: Eu li em algum lugar que pra fazer aquele jogo novo, o tal de Halo 3, os caras escreveram diálogo suficiente para encher umas cinco novelas da Globo e uns quinze filmes de Hollywood!

Galera: É, os caras tão investindo pesado nisso. O vídeo game é uma nova forma de contar histórias. Com os quadrinhos também, há muito que ser explorado ainda. E olha que esses que tão aparecendo agora é que vão ditar os cânones desses formatos, depois ainda vão aparecer os caras que vão quebrar isso.

Alexis: O vídeo-game, OK, eu entendo, afinal é um lance ligado à tecnologia e tal… Mas, por que os quadrinhos, que são tão ligados à mídia impressa que vem perdendo tanto terreno pra internet?

Galera: Sei lá, é um palpite. [risos]

Alexis: Rapaz, essa entrevista pode ser profética!

Galera: Ou muito furada né? Depois vão falar “Lembra aquela entrevista em que o Galera falou aquele monte de merda e tal?” [risos]. Mas, sério, eu tenho esse palpite em relação a isso, não sei porquê. Vocês vão ver só: o vídeo-game e os quadrinhos vão ser as próximas formas de contar histórias. Podem esperar.



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