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Auto(máticos)-Retratos


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Publicado em 20 de Dezembro de 2007

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É muito difícil avaliar o peso da internet e do digital nos nossos tempos. Nem quero tentar o ingênuo discurso da globalização de informações, da diminuição de espaços, da cultura global, nada disso. Sequer entrar na também irregular área da democratização das mídias. A própria democracia da internet é questionável, não só pela dificuldade no seu acesso (a necessidade de um computador ou coisa parecida), mas, também, pelo simples fato de que essa facilidade de publicação advém da “boa-vontade” dos sites, quase como uma concessão em troca de publicidade. Qualquer dia desses, se alguém resolver, toda e qualquer publicação e acesso à internet pode ser cobrado e restrito.

Voltando. A questão principal a ser analisada por aqui é a facilidade da auto-exposição – isso, claro, conseguidas todas essas facilidades supra-citadas. A agilidade das publicações pessoais hoje é tremenda e traz uma série de recursos de exposição/publicação, seja na forma de blogs, fotologs, orkuts e myspaces da vida, ou mesmo em sites trabalhados por conta própria, como a própria Revista Moviola entre tantos outros (pensar que 4 pessoas bem dispostas podem publicar uma revista era algo inconcebível há alguns anos).

Uma forma especial dessa auto-exposição são os sites de vídeo como o YouTube. Vídeos caseiros se tornaram freqüentes. Imagens cotidianas se re-encantaram, ganharam nova importância, nova atenção.

Percebendo essa fase do audiovisual, esse novo momento e, ainda, com toda a facilidade de registro que o vídeo e a fotografia digital trouxeram nos últimos anos – as câmeras estão cada vez menores e com melhor definição -, Noah Kalina, fotógrafo, aos 19 anos teve uma idéia simples: tirar foto de si mesmo todos os dias. A bobagem aparente da idéia e sua simplicidade podem enganar qualquer desatento. O trabalho de Noah, intitulado Everyday (Todo Dia), é uma das mais importantes e fascinantes obras de arte contemporâneas.

Quando a fotografia nasce, substituindo a pintura no papel de registro do real, traz uma grande diferença ao mundo moderno: a verossimilhança da reprodução (fotográfica) era incrível, absoluta, mágica. O cinema aprofunda isso, mas a questão do suporte nada influencia: o registro ótico continua sendo a origem dessa verossimilhança (inclusive até hoje, nessa “era digital”). A diferença do momento contemporâneo, e claro, do trabalho de Noah, é o quanto é possível acompanhar dessa “realidade”. Os reality shows se firmaram no mercado nos últimos tempos exatamente por essa curiosidade voyerística humana. Observar o cotidiano de um grupo preso em uma casa, numa floresta ou qualquer coisa do gênero, se tornou uma obsessão dessa população que cada vez mais se afasta da convivência em comunidade física para uma convivência virtual. (daí surgiram milhares de coisas, até os videogames como The Sims ou o absurdo Second Life, onde a idéia é criar uma pessoa virtual e gerir sua vida utilizando, inclusive, dinheiro de verdade).

Essa curiosidade em observar a vida alheia, característica há muito pensada como intrínseca ao audiovisual, em Everyday toma um caráter impressionante.

A possibilidade de assistir uma pessoa viver todos os seus anos até a morte é inacreditável, sem precedentes. Noah sabe, claro, que vai morrer e sabe também que seu trabalho nunca será visto, completo, por ele mesmo. É o absoluto do registro documental da passagem do tempo, do inexorável da morte: a incrível sensação de vida coletiva que traz a simples idéia de que, em algum lugar, alguém está vivendo este mesmo tempo, dia após dia, e registrando isso tudo, essa lenta passagem de tempo e, sem mais, nos mostra isso tudo passando como passa de fato, num piscar de olhos.

Aos que sobreviverem e puderem assistir à Everyday completo, a experiência será incrivelmente forte: assistir a lenta desaparição da memória de Noah Kalina, dia após dia.

YouTube Preview Image

Entrevista com Noah Kalina por email:

Revista Moviola: Quando você começou o projeto, em 2000, sua idéia original era fazer um vídeo? Se não, por que o fez?

Noah Kalina: Minha intenção inicial era que Everyday fosse apenas um projeto fotográfico. Nunca passou pela minha cabeça fazer um vídeo disso até alguns anos depois de começado, quando uns amigos sugeriram que o fizesse. Só me convenci que isso funcionaria quando vi um outro vídeo parecido online – um trabalho de 3 anos, no caso. Foi aí que resolvi fazer o meu próprio.

RM: A internet se tornou o lugar perfeito para explorar o universo da auto-exposição. Everyday é, talvez, a auto-exposição mais alongada que se tem registro. E não poderia ser de outra forma: seria praticamente impossível fazer esse registro de outra pessoa que não você mesmo. Dentro desse universo narcisista online, Everyday ganhou algum destaque. Por que você acha que a auto-exposição do seu projeto se diferencia das outras?

NK: Acho que foi uma combinação de coisas. Creio que quando se assiste ao meu vídeo, eu não estou forçando que se olhe para mim. O ambiente onde eu estou está ali também. Fiz isso inicialmente por não achar que o projeto deveria ser apenas sobre o meu rosto, mas também sobre o lugar onde estou. A música que escrevi para o vídeo também foi importante, e acho que contribuiu muito para sua popularidade. Eu também nunca tentei me enaltecer nos meus auto-retratos. Nunca tentei fazer com que as pessoas se sentissem atraídas por mim. Só quero fazer uma fotografia honesta minha a cada dia, sem pretensão.

RM: Você disse que nunca tenta se enaltecer nos seus auto-retratos. No corpo desta matéria estão cinco auto-retratos seus, integrantes da série What happens in Vegas (O que acontece em Vegas…) onde, em todos eles, você ou está escondido, ou longe, ou simplesmente irreconhecível no meio da multidão. É claramente uma aproximação diferente de Everyday em relação ao auto-retrato, talvez até do conceito clássico de retrato. Qual você crê ser a maior diferenças entre esses dois estilos? Ambos falam de você da mesma maneira?

NK: Após o sucesso de Everyday e Everyday/Celebrity, eu pensei ser interessante fazer outra série de auto-retratos, mas, desta vez, onde pudessem ver meu corpo todo. Eu vejo Las Vegas como um lugar onde as pessoas vão para se divertir. Pessoas comuns e famosos vão lá relaxar e ter o que eles dizem ser o melhor momento de suas vidas. Eu queria contradizer essa idéia indo lá e parecendo ter o pior momento da minha vida. Mas isso é completamente diferente de Everyday, com a exceção de minha expressão facial. Eu só pude fazer, porém, por ser eu mesmo nas fotos. Sou conhecido pela cara que faço e as pessoas familiares com meu trabalho puderam entender o conceito. Fiz essa série em película porque queria que parecessem fotografias feitas por turistas. Everyday é feito totalmente em digital.

RM: A curiosidade em observar a vida de outras pessoas foi recentemente fortalecida por reality shows e afins. Você acha que Everyday tem um pouco de reality show?

NK: De certo modo, sim, creio que possa ser visto dessa maneira. A reação das pessoas ao assistirem o vídeo é normalmente de que me conhecem profundamente. Elas me dizem que se sentem como se tivessem vivido esses seis anos comigo. Eu fico muito agradecido com esse tipo de reação já que nunca foi uma intenção deliberada minha.

RM: Suas fotografias sempre têm uma forte ligação com arquitetura, com o espaço e o entorno do objeto fotografado. Há nelas um desejo de relacionar a estrutura da cidade com solidão e falta de comunicação, ou o exato contrário: usar essa estrutura como criados de canais de comunicação. Quero dizer, você fala sempre de auto-exposição, privacidade e exposição pública em seus trabalhos. Espaços públicos e privados. Até mesmo alguém que não se encaixa nesses espaços, como você em todos os seus auto-retratos. O que é um espaço público e o que é um espaço privado para você?

NK: Não sei exatamente como responder isso. Talvez você possa explicar melhor.

RM: Em outras palavras, quero saber o que faz um espaço público ser público e o que faz um espaço privado ser privado para você. Quero dizer, quando você tira sua foto do dia em Everyday, normalmente, escolhe um lugar privado para fazê-lo. Por quê? Por que não tirá-la num ônibus, por exemplo?

NK: Eu escolho me fotografar no meu apartamento ou casa porque mantenho uma câmera dedicada a isso. Na verdade, uma das primeiras fotografias que tirei foi num boliche. Eu estava experimentando tirar fotos onde eu estivesse, mas com o tempo ficou mais fácil fazer em casa, logo antes de dormir. É, em última instância, uma questão de conveniência.

RM: Porém, a série Interiors é toda (ou boa parte) em lugares públicos (restaurantes, bares, etc). Novamente, por quê? Por que não a sala de sua casa? Eu vejo no seu trabalho essa preocupação velada com os espaços e o fato de serem públicos ou privados. O que o faz, então, escolher entre um e outro para cada projeto? Ou talvez, podemos pensar que Everyday, seu trabalho mais comunicativo – ele conversa com as pessoas o tempo todo, todo dia – é feito em casa; enquanto Interiors é todo sobre espaços públicos, porém não há sequer uma pessoa nas fotos na maioria das vezes. Há alguma relação entre as duas coisas, fazem parte de duas abordagens diferentes ou é apenas uma coincidência (ou até algo sem importância)?

NK: O projeto Interiors, apesar de lidar com espaços públicos, não tem nada a ver com Everyday. Eu gosto como você vê uma semelhança temática, e certamente adoro sua perspectiva sobre o meu trabalho, mas é meramente uma coincidência, no caso.

RM: Além dessa série de interiores vazios, você sempre se coloca nos seus auto-retratos como parte da paisagem. Essa forte relação com a arquitetura surge de onde?

NK: Eu sempre tive interesse em arquitetura. Na verdade, quando eu era mais novo queria ser arquiteto. Adoro grandes espaços abertos e suas formas. Quando comecei a fotografar meu trabalho rapidamente se tornou bastante gráfico, em termos de composição. Não tenho certeza de como ou por que isso aconteceu. Apenas veio naturalmente.

RM: A série Lost and Found trabalha muito com essa relação narrativa do ambiente na imagem. Em Everyday, o espaço influencia bastante também, é uma personagem determinante tal qual sua própria imagem. A própria idéia de que um mesmo lugar deve ser fotografado sempre do mesmo ângulo define exatamente quais as mudanças de ambiente você passava na época. Esses lugares são escolhidos? Ou melhor, qual tipo de preocupação você tem ao escolher um lugar para uma foto?

NK: Como eu disse antes, sempre foi importante para eu incluir o espaço, pois o projeto não era apenas sobre as mudanças ocorridas comigo, mas sobre as mudanças da minha vida e as coisas à minha volta. Não penso muito onde faço cada foto. Basicamente apenas procuro o lugar com a melhor luz possível no meu apartamento ou em qualquer lugar que eu esteja e uso. O que está atrás de mim é o que é. O que acaba ocorrendo é que vários meses se passam no mesmo lugar e quando eu viajo ou me mudo, isso muda junto.

RM: No final do vídeo Everyday aparece a frase “a work in progress”. É óbvio que o projeto estará sempre em andamento, até o dia em que você morrer. Agora, você pretende fotografar isso? Digo, pedir para alguém fotografá-lo morto e, ainda, terminar o projeto por você?

NK: Sim, há pouco pedi para pessoas próximas a mim que, se eu morrer, por favor tirem uma última foto de mim, com meus olhos fechados. Mas quem sabe? Se eu viver muito tempo, com uns 80 anos de fotos eu posso ter mudado o processo com o qual me fotografo. Talvez uma tecnologia futura me permita pensar em alguma maneira de me fotografar automaticamente todos os dias e, assim, essa última foto seria feita não por uma pessoa, mas uma máquina.

Veja estes e outros trabalhos de Noak Kalina em seu website: http://www.noahkalina.com/



2 Commentários sobre 'Auto(máticos)-Retratos'

  1.  
    Juan Janiques

    21 Dezembro, 2007| 9:35 pm


     

    Primeiramente, gostaria de parabenizar a equipe da revista Moviola pela premissa da matéria e pelo também pelo ótimo texto que a compõe. Não conhecia o a revista e cheguei até aqui pelo próprio blog do Noah Kalina, onde ele faz uma menção a este entrevista. Acho que o Noah pode ser categorizado com uma das poucas coisas boas e não apenas mídia de consumo instantâneo e único que a dita “era digital” nos trouxe. Digo, como enaltecido pela própria Moviola, Noah não é um espécie de “one hit wonder” cibernético, ele têm outros bons projetos e está se tornando um grande fotógrafo com o passar do tempo. Apenas para mostrar como seu projeto Everyday foi impactante, essa semana um episódio dos Simpsons usa o “Everyday” como referência e troca Noah pela Homer.
    Fiquei surpreso e feliz ao mesmo tempo pela qualidade das informações que aqui encontrei, podem ter certeza que a partir da agora o site da Revista Moviola fará parte da minha rotina de consumo digital diária.

    Um grande abraço para equipe e de novo, meus parabéns.

  2.  
    Fernando Secco

    21 Dezembro, 2007| 10:31 pm


     

    Poxa Juan, que baita elogio! Fico bastante feliz com essa nossa nova “aquisição”: mais um leitor rotineiro da Moviola. Obrigado pela atenção e fique sempre por aqui!
    O Noah, além de gente finíssima, é realmente excelente fotógrafo. A série “Interiors” será referência para mim por muito tempo. Absolutamente incrível.
    Abraços

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