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Apontando a câmera para baixo


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Publicado em 19 de Dezembro de 2007

Já se foram treze anos desde que inventaram a retomada. Com ela, o cinema brasileiro teve que reaprender a conquistar seu público. Por causa dele, passou por momentos constrangedores. Submeteu-se ao bom gosto classe média e sucumbiu a uma estranha culpa.

Havia um bom mocismo que tomava conta da primeira fase do cinema de retomada. Embora exceções tenham existido, é possível afirmar que foi Cláudio Assis quem, para usar um termo chavão, colocou muita coisa de pernas pro ar.

Quando, aos brados, Cláudio Assis xingou Hector Babenco, em 2004, durante o Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, era disso que ele estava falando. Sem entrar em julgamentos quanto à insolência do cineasta pernambucano, o que Assis fazia ali era tentar chamar a atenção para um cinema antigo que ainda dominava a produção audiovisual no Brasil. E conseguiu.

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Mas nem precisava tanto. Seu filme de estréia, até então seu único longa-metragem, Amarelo Manga, já tinha feito o mesmo. Logo no seu início, o público ouvia um categórico “vá tomar no cu”. Era a personagem de Leona Cavalli, a Lígia do filme, a Lígia do Fred Zero 4 e seu Mundo Livre S.A. Essa Lígia, adorada pelo Manguebit, em Amarelo Manga é a moça do bar. Ela é a mulher que serve os bêbados, os pinguços que a azucrinam durante todo o dia. E ela diz que “é tudo sempre igual”. Ela quer desistir daquela vida. Mas Lígia, assim como os outros personagem de Cláudio Assis, está presa a uma engrenagem gigantesca que, nesse exato momento, a esmaga.

Lígia olha para a câmera quando exprime seu desejo: “Eu quero é que todo mundo vá tomar no cu”. Lígia olha para o espectador de cinema. Lígia olha para o olho da câmera-espectador. Lígia olha para cada um que se aventurou a sentar numa poltrona e assistir Amarelo Manga. Ao olhar para a câmera e ao exprimir seu ódio, Lígia está sendo mais que ela. Lígia é porta voz de todos os miseráveis admoestados pela câmera de Cláudio Assis. Assim, Lígia é também Cláudio Assis. E Lígia, em uma leitura transversal, é também Everardo, o personagem de Matheus Nachtergaele no filme Baixio das Bestas, o segundo longa do cineasta pernambucano.

Em Baixio das Bestas, o personagem de Nachtergaele encara a câmera, dá uma longa tragada no seu baseado e dispara: “Sabe o que é melhor no cinema? É que no cinema você pode fazer o que quiser”. É novamente o diretor falando com seu público. Só que agora, com mais firula. É que enquanto em Amarelo Manga, Assis (des)conquistou seus espectadores fazendo o que o cinema não tinha mais coragem, em Baixio, o cenário já havia mudado. Amarelo Manga fez tanto barulho que deve ter colocado caraminholas na cabeça do criador. É o paradoxo pelo qual todo artista há de passar. O quanto avançar sobre o já feito? É possível avançar? O público sempre quer mais.

Baixio das bestas continua com as marcas de seu criador. Mas há algo mais também. Amarelo Manga parece ser mais cru; Baixio, mais rebuscado.

Mas não é só isso. A questão é que em Baixio das Bestas, o meta-cinema é um dos grandes símbolos do filme. O trio de agroboys-espancadores-de-prostitutas se reúne em um cinema fechado da cidade. É por isso que lá eles podem fazer o que quiserem. Porém, se assim como Lígia, Everardo fala olhando para nós, espectadores, é porque há ali uma extrapolação do limite clássico-narrativo. Mas esse cinema onde “se pode fazer tudo o que quiser”, é um cinema fechado. Está entregue às moscas; seus bancos, revirados.

Cláudio Assis atira no pé. É que o cinema inventivo, segundo seu próprio filme, não tem público. É que o seu cinema não atinge as cidades pequenas. É que para extrapolar limites, há o risco de cair na marginalidade, restrito às poucas salas que se dedicam a exibir o cinema de poucos espectadores. É uma boa analogia. Há quem tenha a achado, entretanto, juvenil.

Cláudio Assis diz que seu cinema não sofre de culpa. Realmente não parecer tê-la. Seu cinema enfrenta os códigos éticos. Mas, estranhamente, é um cinema que possui alguma inserção. Não é caquético de público como o categorizado em seu filme. Mas Cláudio Assis só funciona sozinho. Se um outro surgir experimentando falar grosso como ele, será suicídio. É inevitável. É a sua marca.

Hoje, o Brasil possui cerca de duas mil salas de cinema. O número tem crescido, mas ainda é pouco alentador. Fala-se de mais de 90% das cidades brasileiras sem uma única mísera sala de cinema; há mais teatros, o que é uma contradição por si só. Em Baixio das Bestas, a sala onde “se pode tudo” será vendida. Irá tornar-se uma igreja, renegando aquela pequena mas massacrante marginalidade que a usava como templo. O mesmo templo que, nos momentos finais, é palco ou altar da profanação do que há de mais crucial, a identidade humana. Cláudio Assis chega a ser esquemático na sua pujança por fechar o ciclo dos que sofrem e sofrerão.

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Refiro-me à seqüência em que a personagem de Dira Paes é estuprada pelos agroboys de Baixio. A cena, rodada com enfoque na silhueta projetada pelas sombras dos personagens, é intrigante. Há um pudor estranho na seqüência. E isso acontece, talvez, porque Cláudio Assis quer falar mais coisas do que o enredo quer tratar. Tanto que o enfoque desse texto, até o momento, tem sido as entrelinhas abertas pelo filme e – não necessariamente – o enfoque central de Baixio, que é a exploração sexual, o machismo, a irreversível roda da fortuna.

Amarelo Manga também possui um templo. Mas diferentemente desse cinema, que se tornará igreja, no primeiro filme a igreja não é nada. É o mesmo que o cinema de Baixio. É algo arruinado. É uma igreja com suas portas e janelas fechadas. O padre, incapaz e ateu, prega para cachorros vira-latas que por ali pastam ou ladram.

Cláudio Assis parece sempre estar olhando de um ponto de vista distinto do que os nossos olhos estão acostumados; do que o nosso cinema está convencionado. No primeiro número da Revista Moviola, escrevi um pequeno artigo intitulado Apontando a câmera para cima. É sobre o cinema de Terrence Mallick e, mais propriamente, sobre seu filme O Novo Mundo. Mallick quer compreender o divino, o existencial. E, por isso, seu cinema olha para cima. Mallick faz com seu cinema algo parecido com o que muitas religiões fazem com seus templos. Ele eleva o pé direito, faz com que o espectador/fiel fique diminuto, uma formiguinha frente ao tamanho do sublime.

Já Cláudio Assis faz o inverso. Seu cinema tem, entre outras pretensões, a vontade de mostrar o real tamanho do homem. E no universo escabroso do cineasta pernambucano, o homem é como o verme. Assis, assim, aponta a câmera para baixo e cola seus personagens na terra. Olha de cima e os esmaga. Seja acompanhando a rotina de Lígia em seu bar (Amarelo Manga), seja observando Maninho a cavar uma fossa (Baixio das Bestas), seja no curta Texas Hotel, ao espionar seus hóspedes.

Aqui ainda não foi dito: o curta-metragem Texas Hotel é uma espécie de ensaio sobre Amarelo Manga. São os mesmos personagens, as mesmas histórias.

Também há quem diga que o cinema de Cláudio Assis é moralista. Talvez. É tamanha a sua necessidade de abordar as mazelas da alma e da carne, que é provável que o seu olhar esteja carregado com questões morais, pequeno-burguesas. Em Texas Hotel, aliás, a sua câmera assinatura olha do alto os hóspedes do hotel desvendando o que só é feito entre quatro paredes. Parece o olhar de Deus, onisciente.

Em mais uma similaridade, o templo cinema de Baixio das Bestas também é apresentado com esse olhar vertical. A câmera de Walter Carvalho vê de cima os agroboys esparramados no velho cinema. Masturbam-se, bebem e fumam maconha. É essa a vida deles.

Na seqüência em que a personagem de Hermila Guedes é estuprada por Everardo, o mesmo recurso lingüístico é utilizado. Enquanto Everardo arrasta e espanca a prostituta, lá está a câmera vendo tudo de cima, esmagando esse pobres e fodidos no chão.

Amarelo Manga e Baixio das Bestas também têm outras aproximações. Em ambos os filmes, os roteiros parecem querer evidenciar as ruínas de um passado que só resiste entre uma população pobre, miserável. Os exemplos são as notícias de rádio, a arquitetura derruída do centro de Recife, os engenhos de cana-de-açúcar que submergiram frente as usinas. No plano narrativo, há também as várias histórias entrecortadas, a presença constante do documental. Amarelo Manga e Baixio das Bestas são filmes sobre a dor da carne.

Mas a característica mais gritante do diretor é a sua compulsão e capacidade em enojar o espectador. É um nojo moral esse que Assis procura no público. São muitas as cenas que podem ser evocadas como exemplo. Em Baixio das Bestas não é preciso muito tempo para elas surgirem. Já nos primeiros minutos, vemos o velho Heitor (Fernando Teixeira) explorando sua neta (Mariah Teixeira), exibindo-a a caminhoneiros. Ela é também sua filha.

O filme gira em torno dessa relação e das implicações reais e simbólicas que esse homem tem em relação à sua filha-neta. Lá pelo início desse artigo, falei que os personagens de Cláudio Assis estão, invariavelmente, esmagados nas engrenagens da vida. Para a personagem de Mariah Teixeira, não é diferente. Prisioneira do avô-pai, a liberdade nunca lhe chegará. Ela, assim como todos os personagens dos dois longas-metragens do diretor, nunca irá se ver livre. A carne lhes aprisiona. Cláudio Assis os aprisiona em seu mundo escabroso e cão.



4 Commentários sobre 'Apontando a câmera para baixo'

  1.  

    9 Janeiro, 2008| 4:16 pm


     

    Muito boas as análises cruzadas dos dois filmes. Quando vi Amarelo Manga minha reação foi de desespero e de pena dos personagens. Impressionante, inclusive porque percebe que não se trata necessariamente de um filme sobre argruras de pobres recifenses. Poderia ser em qualquer cidade, em qualquer país, continente. E isso valoriza ainda mais o trabalho do diretor, na minha opinião.

    Acho que Cláuido Assis é mesmo um cineasta único no Brasil.

  2.  

    9 Janeiro, 2008| 7:28 pm


     

    Exato, Gabriel. Meu foco sobre o Cláudio Assis é essa singularidade que ele tem em seu cinema. É um grande cineasta, gostem ou não dele.

  3.  
    godo

    5 Fevereiro, 2008| 5:22 pm


     

    claúdio assis e seus lupen-proletarios eo escarneo total de um projeto politico social q não houve e todos ficam embasbacados amarelo manga e baixio eo caos q está a nos rondar

  4.  
    Luana

    14 Abril, 2012| 4:42 pm


     

    Todos São uns idiota……..

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