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A última sessão



Aristeu Araújo

Uma ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados, aprendíamos lá no antigo primário. A Ilha do Governador não é diferente. Sendo ilha de verdade e não apenas força de expressão, ela é uma porção de terra com 33,5km2. Desde o dia 9 de dezembro de 2007, no entanto, ela é ainda mais apenas uma porção de terra. Desde então, a Ilha do Governandor não tem mais um cinema sequer. Seu último baluarte era o Ilha Auto Cine. Sucumbiu vítima de uma conjunção de fatores.

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Quem chega na Ilha do Governador pela estrada do Galeão, logo no início do bairro tem a opção de pegar à direita e chegar na Praia Belo Jardim. É uma rua curta que margeia um pedaço do litoral e dá uma bela vista do mar, da ponte Rio-Niterói… Enfim, um bom lugar para uma cerveja e uma sombra.

No final dessa mesma rua ficava o Cine Auto Ilha, até então o único cinema daquela porção de terra e o penúltimo drive-in do País. O que sobrou fica em Brasília, no autódromo da capital do poder.

Há 32 anos incrustado na Ilha do Governador, o drive-in mantinha o status de tradição cultural insulana, como é conhecido tudo o que é natural de lá. Mas de acordo com o seu proprietário, Mauro Silveira, de uns tempos para cá o prejuízo foi tamanho que não deu mais para segurar o negócio. Fechou.

Mauro culpa os trailers que lotam a praia Belo Jardim de carros, mesas e cervejas. Os clientes do cinema não conseguiam mais passar por causa dos tantos e tantos carros a lotar o caminho. Há relatos, inclusive, de agressões, retrovisor quebrado, xingamentos. Para Mauro, um mal irremediável.

Mauro diz ter buscado em todas as instâncias uma remediação para a crise. Sendo o terreno do drive-in propriedade da Aeronáutica, foi no poder aéreo que buscou primeiro uma solução. Procurou ainda a subprefeitura da Ilha, a Polícia Militar e a Guarda Municipal. Nada. Diz ter feito todo esse itinerário duas vezes. Uma ao lado de seu antigo sócio, falecido em novembro de 2006; a outra vez, ao lado dos herdeiros do sócio. Novamente nada.

Quatro dias antes de sua última sessão, a Revista Moviola esteve no drive-in. Os trailers estavam lá, tinham carros lotando a praia, mas permanecia uma passagem possível a prováveis clientes. Ou seja, nem tanto ao santo, nem tanto ao diabo. Era uma quarta-feira e, na primeira sessão daquela noite, quatro carros compareceram. Três motoristas avançaram em meio ao estacionamento para assistir ao filme e um permaneceu bem atrás, sob as árvores, um local mais escuro e reservado para casais que não estão tão interessados assim na sétima arte.

Mauro Silveira

Aliás, Mauro fez questão de deixar claro que nas três décadas de existência do cinema, ele e seu sócio sempre investiram no drive-in como um programa familiar. “Nunca caí no erro de passar filmes pornográficos”, enfatiza. Em tempos áureos, quando queria aferir a porcentagem de clientes que estavam ali para assistir ao filme ou para “namorar”, lançava mão de uma estratégia pouco ortodoxa. Não chamava o Ibope ou o Datafolha, simplesmente desligava o som do cinema. A reclamação era instantânea e pelo tamanho do buzinaço ele tirava a média do interesse daquele filme frente aos espectadores. Mauro acha graça dessa história e a conta como uma confissão, como um moribundo durante a extrema unção. É, no dia dessa entrevista, seu cinema estava nos estertores.

E se o drive-in morria por aqueles dias, sua juventude e brilho devem ter se realizado durante a década de 80, a julgar pelos cartazes que enfeitavam o escritório do drive-in. Eram quadros mofados, amarelados, de filmes como Rambo e Comando para Matar, Stallone Cobra e Guerreiros de Fogo. Não perguntei, mas acho que Mauro é fã de Scharzenegger e Sylvester Stallone. “Todos esses cartazes que você vê aqui, são cartazes de 800, 700 carros num dia, num sábado. Cramer vs Cramer, Expresso da meia noite, Exterminador do futuro, fitas que ficaram oito semanas aqui.”

Foto: Aristeu AraújoO Cine Auto Ilha tinha espaço para 400 carros. Em tempos de fartura, o cinema acumulava uma média de dois mil espectadores por semana. Se a fita era de primeira linha, bem no gosto Tela Quente, o público batia os quatro mil semanais. Hoje, um lançamento não alcançaria mil, de acordo com os cálculos do proprietário. A média é pior ainda, não passa dos 400 espectadores. “É uma diferença astronômica”, lamenta o empresário, que diz ter segurado as contas por um ano no vermelho até tomar a decisão definitiva pelo fechamento.

O filme escolhido para encerrar a última semana de existência do drive-in foi o Sem Controle, longa inexpressivo e estrelado pelo global Eduardo Moscovis. Para Mauro, o nome lhe bastou na simbologia de sua indignação. “Sem controle é como está o Rio de Janeiro hoje. É um duplo sentido. Estou encerrando sem controle.”

Mauro Silveira sabe que seu problema não é só a passagem vez em quando interditada pela movimentação nos trailers da praia Belo Jardim. A insegurança acertou em cheio aqueles 12 mil metros quadrados. “Você precisa de uma área grande para montar um cinema de bom padrão. Estas áreas foram ficando escassas. E hoje, foram ficando favelizadas. Aconteceu isso no Jacarepáguá Auto Cine. Invadiram um morro perto do cinema, umas 20 famílias… e em dois anos tinham duas mil. Quando a polícia subia no morro tinha tiroteio.”

O sonho empresarial de Mauro era chegar a dez cinemas só no Rio de Janeiro. Não conseguiu, embora tenha alcançado quatro. “O clima do Rio é ideal. Lugar muito frio e com chuva não é bom para o cara que quer assistir filme.” A ressalva é válida. São Paulo possui diversos drive-ins. Todos, no entanto, sem telas de cinema. São motéis para motoristas que, com uma quantia módica (bem abaixo do valor de um motel convencional), podem passar a noite sem serem importunados.

A idéia original do Cine Auto Ilha surgiu quando o seu sócio, Amélio Tinoco, fez uma viagem aos Estados Unidos. Era a década de 70, quando John Travolta dançava nos filmes para adolescentes.

No ano seguinte, Mauro acompanhou o sócio, que era arquiteto. Para entender qual era a estrutura necessária, ele conta que entravam nos cinemas pagando ingresso. Entravam, observavam e partiam para outro drive-in. Os Estados Unidos chegaram a ter cinco mil cinemas ao ar livre. No Brasil, foram 34 no auge. Mas também nos Estados Unidos houve uma queda acentuada do número de cinemas. Hoje são cerca de 500, de acordo com Mauro Silveira.

A chegada do DVD, dos filmes piratas, da Internet e de todas as comodidades que o digital trouxe ao espectador, é um dos fatores que apontam para essa crise. Ela não está restrita aos drive-ins. O número dos ditos cinemas de rua, caiu no Brasil inteiro. Basta olhar pelas cidades e contar o número de igrejas que ocupam antigas salas de exibição.

Nos últimos anos, no entanto, percebe-se um acréscimo no número das salas multiplex. É a nova configuração, com seus espaços minguados a 100, 80, 60 lugares.

Às 18h a entrevista prosseguia. E eu fazia hora para pegar o início da sessão. Esticava o papo e ouvia a nostalgia orgulhosa do exibidor. Com o entardecer, ele se levanta, pega da estante um inseticida e borrifa os cantos da sala, a porta de entrada e os pés de uma repórter que também estava por ali. Os mosquitos estavam a comendo viva.

Em algum outro momento, Mauro comparou os cinemas que existiam na Ilha do Governador (no passado chegou a oito cinemas) com os da Barra da Tijuca, solo ianque em terra carioca. É que segundo ele, ou melhor, segundo pesquisas que ele e seu sócio fizeram durante a década de 90, os moradores da Ilha do Governador preferem ter seu lazer em outros pontos da cidade. Com a chegada das duas principais vias expressas, a Linha Vermelha e a Linha Amarela, o espectador insulano trocou fácil os mosquitos da Ilha pelo very beautiful shopping center.

As pesquisas também apontavam um dado intrigante. Aproximadamente 70% do público do drive-in não era morador da ilha. Aqui, mais um ponto para os argumentos de Mauro, com a escalada da violência, com os tiroteios nas vias expressas, o público se afugentou.

O drive-in da Ilha era um dos cinemas mais baratos da cidade. Cobrava R$ 8 por pessoa. Provavelmente por causa da escassez do público, o cinema possuía um ar decadente. Sua tela estava completamente sem manutenção, carcomida pelas intempéries.

Numa contradição, Mauro definiu bem seu sentimento ao encerrar as atividades do cinema: “Eu não estou chateado. Estou triste por fechar.”

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A Revista Moviola está desenvolvendo uma campanha para resguardar a memória das efêmeras salas de exibição: Fotografe o seu cinema antes que ele vire uma igreja.


Publicado em 19 de December de 2007


Arquivado em: Reportagens


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5 Commentários sobre 'A última sessão'

  1.  
    Michelle Ribeiro

    7 January, 2008| 8:59 pm


     

    Triste também fica a Ilha do governador e os insulanos como eu, que perdem um ponto de referência e uma tradição. O Drive in vai ficar pra sempre nas minhas lembranças de adolescencia… do primeiro namorado, dos muuuuitos filmes q “não vi” e das centenas de vezes q passei pela placa com os amigos e dissemos uns pros outros: “Puxa, a gente podia vir ao Drive-in” e nunca fomos….
    Triste… muito muito triste….

  2.  

    9 January, 2008| 7:25 pm


     

    Pois é, Michelle. Parece que só restarão os multiplex.

  3.  

    4 February, 2008| 1:47 pm


     

    cinemas de rua fechando dando margem a igrejas e lojas de artigos insignificantes. essa ea logica desses propietários.me lembro q nos idos de 85 nos saiamos do cocotá e iamos ver as ultimas de roliúde no drive-in da praia de saõ bento como não tinhamos carro subiamos nas arvores de embuseiros pra vermos rambo,exterminador do futuro,fotloose até saló de pasoline ai vinha uma patrulha da PA pra nos expulsar era pura diversão
    esses donos ai são todos socios hoje de cinemarquis de pipocão a 10 reais o pior disso tudo é ver q a cultura popular de cinemas vae se acabando a olhos vistos…..quem roubou nossa coragem
    já dizia renato russo.

  4.  
    Marcio

    17 March, 2008| 9:34 pm


     

    Bem .. o que a Michelle escreveu .. deve ser o que qq pessoa “normal” sentiu e/ou viveu no Drive-in. Mas aqueles quiosques nada mais são que o retrato de relaxamento que a Prefeitura resolver adotar para o RJ, cidade, não sei até quando, maravilhosa. Já puxei o saco da Cidade para todos, mas ultimamente, fico na minha. Uma espécie de boicote. O que voces acham de nos informarmos nas Forças Armadas sobre o drive-in .. o terreno ? Meu mail: marciosanfer@yahoo.com.br

  5.  

    18 March, 2008| 8:55 am


     

    Marcio, se tiver novidades, volte a escrever aqui. Abs.

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