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A Curva


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Publicado em 6 de Novembro de 2007

A Curva, de Salomão Santana, 5 min, VHS, 2007

compnac7-a_curva-1.jpgEngraçado. Essa coisa de crítica de cinema tem lá suas particularidades. Perceber coisas em um filme depende muito de um momento, de um sensação, de um todo que vai além do momento da projeção, além do próprio filme. Percebe-se muita coisa até durante a própria escrita. O texto, o ato de colocar pensamentos em forma de texto, ordená-los, te engana. O pensamento foge, desvia e transforma tudo. Neste momento onde minha maior questão é com a legitimidade do documentário, seu papel de representação ou não do real, sua afronta na apropriação da imagem, a caretice de sua forma na maioria dos casos, o cuidado que exige na ordenação do discurso, vejo A Curva novamente. Havia assistido o curta de Salomão no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, mas acho que esta sessão valorizou ainda mais as qualidades do filme.

Isso porque a sessão foi repleta de filmes virtuosos. Movimentos de câmera elaborados, algumas afetações, a necessidade de mostrar a câmera como narrador, definidor de olhar. A Curva é o oposto. É simples na sua fórmula. Se recusa a olhar algo além do corriqueiro. E, incrivelmente, diz muito mais do que muitos filmes que vi este ano. Relaciona também a câmera como narrador, mas a influência dela se percebe não por uma fruição estética, mas humana, de reações e relações (o tal “efeito câmera” de Eduardo Coutinho). Trata de um mecanismo simples – o que me lembra Kiarostami, de certo modo: fazer filmes complexos com mecanismos simples. Recortar, do material original de uma festa nos anos 80, apenas os momentos de relação mais extrema entre a câmera e seu objeto, é um processo simples, imediato. O encadeamento dessas imagens é feito de maneira simples também: há cortes secos na imagem e no som.

O complexo resultado, que fala sobre toda a relação do documentário e suas impressões da realidade, que questiona o próprio papel do documentarista enquanto contador de verdades – já que torna evidente a influência da própria filmagem no resultado dessa verdade – se torna ainda mais complexo quando insere um elemento menos óbvio que esse tradicional questionamento dessa imagem “real”: o encantamento. É exatamente isso que acontece durante o filme de Salomão, encantamento. É o que o cinema faz de melhor, grifar a simplicidade que passa despercebida. Esse olhar calmo dirigido às pessoas da festa, essa homenagem sem limites que Salomão faz ao povo de Juazeiro do Norte pelo simples fato de olhar calmamente é absolutamente cativante. A minha cabeça imaginava histórias próprias a cada uma daquelas fascinantes pessoas, pessoas essas que Salomão juntou, ligou, e tornou atores ativos de uma grande fábula. Talvez aí o agradecimento a Parajanov. A diferença estética entre Parajanov e Salomão Santana é enorme. Mas seus processos de encantamento e de antigas e fascinantes fábulas heróicas talvez seja mais próximo do que se imagina de cara.

Importante ressaltar que todo o encantamento do filme só é possível por ele lidar com esse entre-meios. Sabendo bem que arte não se dá pela relação lógica de nada, Salomão se recusa a tratar da sua escolha pelo título A Curva. Não há qualquer relação direta entre o nome e o filme, qualquer explicação dada foge ao todo. Ainda assim, me animo a contribuir com minha reação lógica à coisa: entre dois momentos de ação prolongada e atividade, Salomão escolhe logo a divisão entre eles para fazer seu filme, essa ligação entre dois momentos (e aqui há várias possibilidades, desde documentário x ficção; ou o antes e depois da chegada do VHS; ou ainda o próprio momento de não-ação que trata o filme). Ligação essa que nunca poderia ser direta, imediata, reta.

Leia sobre A Curva no Rolo 1 da Revista Moviola

Veja a cobertura completa do Curta Cinema 2007

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    2 Commentários sobre 'A Curva'

    1.  
      felippe mussel

      15 Dezembro, 2007| 9:09 pm


       

      fernando,
      esse filme me fascinou. lendo seu texto pensei em uma relação com os pensamentos de albert einstein: a luz não se propaga em linha reta; o espaço/tempo são curvos.
      talvez seja essa uma prova de que o caminhos dos pensamentos sobre documentário X ficção não é “seguir em frente”? quebrando sempre ao lado tendemos a voltar ao nosso ponto de partida?
      parabéns pelo site
      um abraço

    2.  
      Fernando Secco

      20 Dezembro, 2007| 8:18 pm


       

      Interessante sua alusão com Einstein. Essa noção de ficção x documentário é muito nebulosa. Paulo Emílio dizia que isso não existe. O que existe é o filme posado e o filme não-posado. Se assim é, então o que seria “A Curva”? Taí o quanto é impressionante o filme.
      E, claro, valeu pelo elogio. Espero que apareça por aqui sempre!
      Abraços!

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