Revista Moviola » Sentinela

Sentinela


Por Fernando Secco

Publicado em 3 de Novembro de 2007

Sentinela, de Afonso Nunes, 15 min, 35mm, 2007

compnac8-sentinela-1.jpgEu disse por aqui que a linguagem clássica do documentário é o dueto entrevista + exposição. A falta de criatividade em torno dessa estrutura básica e o fácil encantamento do cineasta com o seu objeto transformam muitos (mas muitos mesmo!) documentários em irrelevantes relatos de casos esquisitos e/ou extraordinários, um quase (mero) relato jornalístico-factual. Essa relação pode ser considerada positiva quando se quer tratar de didatismo, de demonstração, mas o cinema como forma de expressão artística não pode se prender a uma atitude simples de contar histórias. A própria história da pintura, assim como das outras artes, já nos mostra essa relação entre forma e conteúdo. Pouco importa se a pintura é um mero retrato de uma dama. Importa muito se é sob o realista traço traiçoeiro de Mona Lisa ou a forma fragmentada de alguma musa de Picasso.

Quando a forma afeta tanto a representação do objeto, perceber suas regras e sutilmente trocá-las de lugar sempre pode provocar algo interessante. Não é tão simples assim, seria entediante se fosse, mas a mera transposição de regras conhecidas gera uma novidade qualquer. Sentinela não trata de um encantamento antropológico com o objeto retratado; mas de um encantamento místico. Difícil talvez perceber a diferença sem ver o filme, mas Afonso retrata o ritual de morte, ou melhor, o ritual de despedida para a morte, como um gesto de carinho, de aproximação, de respeito.

Ao redor de uma velha senhora em seu leito de morte, a população de uma pequena cidade se “ajunta” entoando cantos religiosos e despedindo o corpo da velha de sua vida mundana, levando-a no colo para o além, dizendo adeus e obrigado. Filmar isso com o devido respeito, usar dessa imagem fortíssima sem atrapalhar essa íntima relação do ritual filmado é algo difícil. Afonso se utiliza de dois processos para isso. O primeiro é a fotografia preto & branco estourada. O etéreo de tudo aquilo fica impresso na tela durante toda a projeção, coloca o espectador num ambiente onde tudo tende ao branco, ao eterno, à lucidez. Segundo, nas entrevistas, se recusa a colocar a câmera como interlocutora: os entrevistados respondem perguntas com a câmera posicionada entre seu perfil e suas costas. Falam, portanto, pro lado de lá, quase falando sozinhas, pensando em voz alta. O efeito de se falar de algo tão íntimo com uma objeto ótico grudado na cara é então removido por completo. Deixa respiro, espaço de respeito.

E se respeito é palavra-chave para observar Sentinela e o ritual do qual trata, essa relação entre existência e imaterialidade se faz da mesma maneira. Registrando essa latência do ser que se vai e a serenidade dos que ficam, lá na tela as coisas se esvaem a todo o momento; do lado de cá, porém, a imagem da morte e de sua superação traz a calma aterradora de paz. Diz que sim, existe vida após a nossa morte, existem essas sentinelas que ficam e que oram por nós.

Veja a cobertura completa do Curta Cinema 2007

Compartilhe:
  • Twitter
  • Facebook
  • MySpace
  • Digg
  • del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Google Bookmarks
  • Live



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Paulo Ricardo de Almeida

29 de Julho de 2010

Após 17 sessões competitivas de curtas, os 20 melhores filmes que vi no Anima Mundi: 1. The Spine, de Chris Landreth 2. Tuukrid Vihmas, de Priit Pärn e Olga Pärn 3. Tempestade, de César Cabral 4. Passeio de Domingo, de José Miguel Ribeiro 5. Logorama, de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain 6. [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

28 de Julho de 2010

No consultório psiquiátrico, durante terapia de grupo, pacientes destroçados revelam suas maiores angústias e frustrações – especialmente a esposa (obesa) que reprime o marido (sem coluna verterbral). Chris Landreth prossegue, no maravilhoso The Spine, com o psicorrealismo que o consagrou em Ryan (Oscar de melhor curta de animação em 2004): os corpos refletem os sentimentos [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Casal se encontra por breves instantes todos os dias – ele trabalha como escafandrista até às seis da tarde, ela é enfermeira de noite. Pérola do humor negro e da sutileza, Tuukrid Vihmas retrata as obrigações cotidianas que separam os amantes. Priit e Olga Pärn se concentram em apenas um dia das atividades do escafandrista: [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Marinheiro solitário atravessa o oceano para encontrar a mulher que ama. A tempestade, no entanto, altera-lhe o percurso e o impede de vê-la novamente. Se apostava na força dos diálogos e no carisma das personagens em Dossiê Rê Bordosa, César Cabral se vale apenas do clima narrativo (luz e cores, sobretudo) em Tempestade, que se [...]

Por Paulo Ricardo de Almeida

27 de Julho de 2010

Todos os domingos, a família realiza o mesmo passeio: o pai estende a vara de pescar no canal (onde se proíbe a atividade) e ouve o jogo de futebol pelo rádio, os filhos brincam às escondidas no porta-malas e a mãe discute e reclama com o marido. Eles se divertem somente quando apostam corrida, pelas [...]

Anima Mundi Animação animações Cachaça Cinema Clube Cannes Cavi Borges CCBB Cineclube Cinema cinema brasileiro Cinema francês Cinema universitário Curta Curta-metragem Curtas Daniela Thomas Debate Documentário Domingos Oliveira Entrevista FBCU Festival Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival internacional festrio Gay Karim Aïnouz Literatura Memória Minas Gerais Mix Brasil Morte Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Poemas Poesia Pré-estréia Rio de Janeiro Teatro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.