Revista Moviola – Revista de cinema e artes » Pela Metade

Pela Metade


Por

Publicado em 2 de Novembro de 2007

Pela Metade, de Ana Divino, 6 min, DVD, 2007

compnac7-pela-metade-1.jpgDurante o Festival Brasileiro de Cinema Universitário deste ano, assisti dois curtas (Flores para Alice, de Francis Sales e Enquanto a Chuva Cai, de Sérgio Gomes) que muito se assemelhavam à forma narrativa de David Lynch e seu particular uso de signos absurdos. Em um deles, creio eu que no segundo, a típica lâmpada que pisca e se apaga nos filmes de Lynch estava lá – o filme, aliás, quase imitava Estrada Perdida; no outro, além de outras coisas, estavam lá as mulheres loiras e morenas de Cidade dos Sonhos. Não que fossem cópias ou coisa e tal, mas a influência de Lynch tem gerado alguns frutos esquisitos por aqui.

Enquanto o cineasta americano usa todo um conjunto próprio de símbolos para significar várias coisas e, ainda, ao mesmo tempo não significar nada, pouca gente percebe a complexidade do seu processo. As regras internas do universo de Lynch existem, e por isso mesmo podem ser quebradas por ele próprio. Suas simbologias funcionam por sua repetição, por sua incrível capacidade de tratar de pesadelos complexos com elementos extremamente simples – uma lâmpada, uma cortina, uma máscara de ar, um cubo.

A onda de que filme de Lynch não precisa entender (aliás, há algum filme que se precise entender? O que é entender um filme, afinal?) gerou uma série de cineastas que pouco se importa com seus símbolos, que pouco se importa com a real significação deles. A criação solta do “ninguém precisa entender nada”, preenche um espaço óbvio de uma geração que filma o quanto quiser. Falei disso no meu texto sobre A Peste da Janice, mas de outra maneira. Lá, reclamava de um geração que, podendo fazer o que quiser, ousa pouco. Aqui, reclamo de novo, agora da falta de rigor nessa experimentação. Reclamo demais? Não falo nada de rigor estético, produtivo, mas de uma preocupação maior com a aleatoriedade. Da consciência de que experimentação é exatamente isso, uma experiência, e não uma desculpa para jorrar signos quaisquer. Se Buñuel e Dalí criaram o roteiro de Cão Andaluz simplesmente num brainstorm, num jogo de idéias quase dadaísta, a proposta era outra e, ainda assim, muito consistente. O próprio Lynch sabe muito bem ocupar a camada entre o óbvio e o incompreensível.

A idéia de um homem aprisionado na sua rotina e, assim, pouco discernindo entre o real e o sonho, tendo que recorrer a uma câmera para poder ter certeza é ótima. Até porquê a câmera não dá certeza de nada. A edição de som e a montagem extremamente afetadas e na mais acintosa vontade de traçarem relações óbvias prejudicam muito a narrativa do filme. Esse tipo de virtuosismo ficou lá pra trás, com René Clair, Dziga Vertov. Em 2007, Pela Metade sofre de um problema grave, porém: parece um apanhado de signos inventados, e não sentidos. E isso se percebe.

ps: falei ontem sobre fotos de divulgação. A de Pela Metade é absolutamente linda. Fiquei curioso para ver o filme simplesmente por olhá-la e traçar uma relação qualquer com o título e a sinopse. Muito bem trabalhados, por sinal. Parabéns.

Veja a Cobertura Completa do Curta Cinema 2007



Deixe um comentário

(obrigatório)

(obrigatório)


Dê a sua opinião. Mas lembre-se: os comentários serão moderados. Apenas após análise dos editores eles serão postados.



RSS feed para comentários deste artigo | TrackBack URL

 

Por Revista Moviola

22 de Março de 2019

Se7en (1995) é o segundo filme do diretor David Fincher, no elenco, Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow e Kevin Spacey na pele de um serial killers dos mais interessantes do cinema. O filme conta a história de David Mills (Pitt) e sua mulher, Tracy (papel de Paltrow), o casal esta de mudança mudaça para […]

Por Revista Moviola

20 de Março de 2019

Nos arredores de Orlando, na Flórida, em hotéis e complexos de quinta categoria – com imitações plastificadas de atrações dos parques tão próximos da Disney – são oferecidas estadias para turistas que querem economizar, como também servem de moradia, não oficial, para famílias americanas de baixa renda. Projeto Flórida (2017) é povoado por estes personagens, […]

Por Revista Moviola

15 de Março de 2019

O filme Encantada (2007) conta a história da princesa Giselle (Amy Adams), que mora no reino de Andalasia. Certo dia, após cair em um poço, ela vai parar na cidade de Nova Iorque. Lá encontra Robert (Patrick Dempsey), um procurador e se hospeda no apartamento dele. Edward (James Marsden), o príncipe de Andalasia, também cai […]

Por Revista Moviola

26 de Fevereiro de 2019

Perigo Por Encomenda (2012), escrito e dirigido por David Koepp, traz ao público a cidade de Nova York como elemento determinante na narrativa e na estética do filme. O longa conta a história de um mensageiro que usa como transporte uma bicicleta (Wilee, interpretado por Joseph Gordon-Levitt) em Manhattan, o personagem precisa entregar, um envelope […]

Por Revista Moviola

21 de Fevereiro de 2019

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014) é um filme baseado em um curta de terror, com roteiro e direção de Ana Lily Amirpour e vencedor do prêmio da Revelação Cartier no Festival de Deauville em 2014. Uma produção realizada por imigrantes iranianos nos Estados Unidos que traz um estilo mesclado entre o horror, a fantasia, […]

Anima Mundi Animação animações Brasil Cineclube Cinema cinema americano cinema brasileiro Cinema francês Crítica Crítica Cinematográfica crítico de cinema Curta Curta-metragem Curtas Documentário Entrevista Facha Festival Festival de Berlim Festival de Cannes Festival de Veneza Festival do Rio Festival do Rio 2009 Festival do Rio 2010 Festival do Rio 2011 Festival do Rio 2012 Festival do Rio 2013 festrio ficção filme Gay Literatura London Film Festival Luiz Rosemberg Filho Mix Brasil Mostra Mostra de Tiradentes Música Odeon Oscar Resenha Rio de Janeiro Versos É Tudo Verdade

WP Cumulus Flash tag cloud by Roy Tanck and Luke Morton requires Flash Player 9 or better.