Pela Metade, de Ana Divino, 6 min, DVD, 2007
Durante o Festival Brasileiro de Cinema Universitário deste ano, assisti dois curtas (Flores para Alice, de Francis Sales e Enquanto a Chuva Cai, de Sérgio Gomes) que muito se assemelhavam à forma narrativa de David Lynch e seu particular uso de signos absurdos. Em um deles, creio eu que no segundo, a típica lâmpada que pisca e se apaga nos filmes de Lynch estava lá – o filme, aliás, quase imitava Estrada Perdida; no outro, além de outras coisas, estavam lá as mulheres loiras e morenas de Cidade dos Sonhos. Não que fossem cópias ou coisa e tal, mas a influência de Lynch tem gerado alguns frutos esquisitos por aqui.
Enquanto o cineasta americano usa todo um conjunto próprio de símbolos para significar várias coisas e, ainda, ao mesmo tempo não significar nada, pouca gente percebe a complexidade do seu processo. As regras internas do universo de Lynch existem, e por isso mesmo podem ser quebradas por ele próprio. Suas simbologias funcionam por sua repetição, por sua incrível capacidade de tratar de pesadelos complexos com elementos extremamente simples – uma lâmpada, uma cortina, uma máscara de ar, um cubo.
A onda de que filme de Lynch não precisa entender (aliás, há algum filme que se precise entender? O que é entender um filme, afinal?) gerou uma série de cineastas que pouco se importa com seus símbolos, que pouco se importa com a real significação deles. A criação solta do “ninguém precisa entender nada”, preenche um espaço óbvio de uma geração que filma o quanto quiser. Falei disso no meu texto sobre A Peste da Janice, mas de outra maneira. Lá, reclamava de um geração que, podendo fazer o que quiser, ousa pouco. Aqui, reclamo de novo, agora da falta de rigor nessa experimentação. Reclamo demais? Não falo nada de rigor estético, produtivo, mas de uma preocupação maior com a aleatoriedade. Da consciência de que experimentação é exatamente isso, uma experiência, e não uma desculpa para jorrar signos quaisquer. Se Buñuel e Dalí criaram o roteiro de Cão Andaluz simplesmente num brainstorm, num jogo de idéias quase dadaísta, a proposta era outra e, ainda assim, muito consistente. O próprio Lynch sabe muito bem ocupar a camada entre o óbvio e o incompreensível.
A idéia de um homem aprisionado na sua rotina e, assim, pouco discernindo entre o real e o sonho, tendo que recorrer a uma câmera para poder ter certeza é ótima. Até porquê a câmera não dá certeza de nada. A edição de som e a montagem extremamente afetadas e na mais acintosa vontade de traçarem relações óbvias prejudicam muito a narrativa do filme. Esse tipo de virtuosismo ficou lá pra trás, com René Clair, Dziga Vertov. Em 2007, Pela Metade sofre de um problema grave, porém: parece um apanhado de signos inventados, e não sentidos. E isso se percebe.
ps: falei ontem sobre fotos de divulgação. A de Pela Metade é absolutamente linda. Fiquei curioso para ver o filme simplesmente por olhá-la e traçar uma relação qualquer com o título e a sinopse. Muito bem trabalhados, por sinal. Parabéns.
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