Outubro, de Murilo Hauser, 15min, 35mm, 2007
Ontem, falando sobre o curta Verão, de Luiz Gustavo Cruz, disse que lá se falava sobre o tempo. O cinema moderno apresentou como crucial essa questão, e o cinema contemporâneo aprofundou esse estudo. Desde a transição entre os planos, do tempo passado - ou do tempo que se presume ter passado - entre os cortes até o tempo passado dentro do próprio plano, cada vez mais exacerbado.
É interessante ver um curta-metragem no Brasil que se liga a esse tipo de problemática. Interessante por ser extremamente difícil de acontecer. O curta no Brasil parece preso ao passado, à linguagem cinematográfica do passado, a processos do passado. Bom ver que às vezes há um a espécie de experimentação que vai para o sentido além do filme universitário (este sim, onde se pode, e deve, experimentar tudo): uma ousadia na maneira de contar uma história, ou até nenhuma história. Mas uma ligação forte com a maneira como se conta; um apreço pela narrativa, pelo jogo narrativo. Muitas vezes, e como é o caso de Outubro, pela fragmentação.
Essa fragmentação, como em muitos filmes da nossa época, não se refere à fragmentação “lynchiana” da coisa: essa fragmentação onírica da realidade, onde pouco se sabe o que é real e o que não é. Falo de uma fragmentação de lembranças, de memória, de pequenos retratos de momentos.
Outubro é, então, um filme lembrança. A história nada tem a ver com isso. Sua sinopse nos conta outra coisa: O filme acompanha Ana, uma garota de vinte anos, nos últimos dias de sua vida. Fragmentos de sua cidade, sua família e seus amigos (engraçado, só agora vi que a palavra “fragmentos” consta na própria sinopse do filme. Interessante). Não se propõe, portanto, como filme “de passado”, mas como filme “de presente”. O que digo é que sua estrutura narrativa coloca a vida de Ana como algo lembrado, guardado. Talvez pudesse ser possível relacionar esses momentos com o belíssimo curta-metragem de David Von Ancken, Bullet in the Brain, onde a idéia clichê de tudo o que lembramos no momento da morte é explorada de maneira belíssima (sério, o curta é imperdível e, tchram, está disponível ao fim desta página).
A belíssima fotografia de Cláudia Guimarães e sua segurança na operação da câmera (parabéns Cláudia) dão ao filme um toque de calma, de atenção, de cuidado. É verdade, poderia ser um pouco menos virtuoso. Alguns planos poderiam se dar ao luxo de simplesmente observarem: há algumas participações incômodas da câmera. Fato também que a edição de som deixa a desejar em alguns momentos. Algumas quebras sutis, alguns ruídos desnecessários. Outro porém, só pra listar todos, são as falas das personagens. Não sei se as pessoas falam assim no Paraná, mas a coisa às vezes pende para o teatral e distoa do resto do filme, parece falso, e isso atrapalha bastante. talvez tenha faltado uma direção de atores mais livre, não sei.
Outubro é, porém, um filme importante nesse momento do curta nacional. Como o Verão já citado aqui, nos dá a impressão de que existe um cinema sensível e atento ainda.
ps: aqui, então, o curta de David von Ancken, com a atuação do brilhante Tom Noonan.