Circular, de Lucas Ianuzzi, 14 min, DVD, 2006
Assim que Circular acabou, confirmei: haviam alguns “temas” na sessão. Virtuosismo, David Lynch, Rotina, Suicídio. Definido isso, ficou mais fácil entender a sessão como um todo, e até mais óbvio ver os problemas do filme.
Circular parte de uma premissa já clichê e, normalmente, prejudicial: uma história que termina no seu começo. E ainda, a história de um suicida; ainda, a história de uma realidade que sempre se repete, mesmo após o suicídio. Lembra, assim, aquele filme sessão-da-tarde 12:01, de Jack Sholder, onde o cara sempre acorda no mesmo dia, tudo se repete.
Aqui a coisa é um pouco mais interessante, já que a idéia é colocar um elemento fantástico (o suicídio repetido) afim de escancarar uma realidade crua e repetitiva. A idéia de narrar todo o filme com planos-detalhe também traz um interessante elemento para o filme… nos primeiros minutos. Catorze minutos narrados em plano detalhe é muito, creio. Lá pelos 10 já cansou. A repetição da repetição do plano-detalhe lembra até o virtuosismo de Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofsky, o que não necessariamente é uma coisa boa.
A grande questão do virtuosismo presente na sessão é que ele é exagerado em quase todos os filmes. Em alguns deles chega a comprometer a narrativa gravemente, como é o caso de Circular. O uso de uma ferramenta narrativa excessiva por natureza, como um travelling baixo seguindo pés (aliás, o grande clichê do curta-metragem nacional: o plano dos pés) deve ser cuidadoso. Esse exagero se faz sentir de maneira forte e irreparável. Ao final da projeção, o filme já está entregue, rendido à categoria de “filme-de-truque”.
Outro problema de Circular é com a força de suas imagens, por mais contraditório que pareça. Primeiro sobre o uso de cartelas. A palavra na tela tem uma força estrondosa e, portanto, perigosa. Ela interrompe a imagem e cria um signo visual ligado à literatura e claramente cria um grifo sobre algo. Usar definições de dicionário para as diversas ações do filme acaba o deixando próximo demais da didática narração em off e longe da sagacidade narrativa de Ilha das Flores, de Jorge Furtado, que traça um processo parecido (pouco, mas parecido). Segundo que, ao errar no uso das palavras, esquece também da importância de signos óbvios como colocar uma cartela falando de alienação e capitalismo seguida de um lanche do McDonald’s.
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