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Verão


Por Fernando Secco

Publicado em 31 de Outubro de 2007

Verão, de Luiz Gustavo Cruz, 17min, 35mm, 2007

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Falei em meu texto sobre A Peste de Janice que um filme nunca está isolado de sua sessão. No caso de Verão, sendo o último do dia, ficou bem claro sua diferença com o resto do material apresentado. A representação do cinema contemporâneo deixa claro que importa menos a história a ser contada do que a maneira como ela é contada. Os outros quatro filmes da sessão travam uma relação narrativa de fórmulas, formas e composições absorvidas e introjetadas. Estudadas, talvez. Verão vai além. Lida com o tempo, com as transições, com a câmera, com a fotografia e o som de maneiras inovadoras. Apesar de Luiz reiterar que a sua influência de som e câmera são fatalmente provindas de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, há uma forte conexão com o cinema contemporâneo: Apichatpong e seu Síndromes e um Século; Brant e seu Crime Delicado; com o silêncio, a rigidez e o drama pessoal (porém sempre muito mais político do que apenas um drama pessoal).

Uma câmera concisa e firme, um trabalho de atores preciso, uma direção de arte presente e imperceptível, como sempre deve ser, enquadramentos bonitos e, melhor, com alguma razão, sem pirotécnica. Uma realização plena como poucos curtas de ficção nacionais de hoje conseguem. A fotografia ora delicada, ora incisiva (nos diversos e lindos momentos de contra-luz e silhueta) apresenta o espaço que cerca Miguel como definitivo para sua persona. Seu escritório fechado deixa o calor ficar por ali, enclausuramento que se acirra com tantos caixões ao seu redor. A morte, tema tão óbvio para um senhor de avançada idade, passa corriqueira nos diálogos naturais e bem colocados dele com sua esposa. Hilária a passagem onde ele diz que precisam economizar para comprar um caixão de madeira boa e com detalhes em ouro: “Temos que pensar no nosso futuro!”, conclui.

É essa morte, sempre vindo inesperada e de onde menos se imagina, que tira todo o chão de Miguel. Seu patrão está desesperado pela falta de clientes, afirmando que ninguém morre no verão, pensando em mudar de área e começar a vender caixão pra pobre. “Seu” Miguel o conforta, sem saber que estaria ali em situação completamente diferente no dia seguinte.

Termina o ritual de despedida de sua esposa com um caixão de madeira comum mesmo, num enterro sem ninguém. Ao fim, toda sua saudade vai mesmo é para o caixão de madeira boa e com detalhes de ouro.

ps: só fica um pouco solta a história da poltrona de massagem. Mas quem disse que as coisas precisam se fechar? A Aventura, do Antonioni, não jogou tudo isso pelos ares há muito?

Veja a Cobertura Completa do Curta Cinema 2007

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